Os 116 anos de Alfred Hitchcock

Os 116 anos de Alfred Hitchcock

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Na quinta-feira, 13 de Agosto, os fãs de cinema comemoram os 116 anos do nascimento do icônico cineasta Alfred Hitchcock.

Provavelmente meu diretor preferido, Hitch como era conhecido pelos amigos, faleceu em 1980, aos 80 anos de idade. Iniciando sua carreira em sua terra natal, a Inglaterra, Hitchcock mudou-se para a terra do cinema, Hollywood, onde entregaria suas obras mais famosas.

O cineasta que possui quase 70 títulos como diretor no currículo, foi para o seu tempo o que artistas como Steven Spielberg ou Christopher Nolan são para a atualidade: diretores que mesclam satisfatoriamente um cinema artístico de qualidade e conteúdo, com o cinema espetáculo de Hollywood. Um perfeccionista tanto no aspecto técnico quanto em seus roteiros, o mestre do suspense (como ficou conhecido) deixou um legado com verdadeiras obras-primas da sétima arte, como poucos fizeram. Em homenagem a esse grande mestre, vamos dar uma olhada em seis de suas obras, não as melhores, mas as que por último revi.




FESTIM DIABÓLICO (1948)

Embora a lista não seja dos meus filmes preferidos do mestre Hitch, ou medidos por nenhuma ordem, a não ser simplesmente pelo fato de que foram os últimos que assisti (das muitas vezes), “Festim Diabólico” facilmente entraria na minha lista dos filmes preferidos do diretor. Importante por diversos motivos, o filme não foi um sucesso na época de seu lançamento. Esse foi o primeiro filme do diretor a ser produzido em cores. Foi também a primeira parceria com o ator James Stewart, que viria a se tornar um de seus parceiros preferidos, ao lado de Grace Kelly e Cary Grant. O filme também marca a estreia da produtora de Alfred Hitchcock, a Transatlatinc Pictures (que não aguentaria o fracasso desse filme e do seguinte, “Sob o Signo de Capricórnio”, e fecharia as portas com apenas duas produções lançadas).

Baseado numa peça de teatro, a trama todos já conhecem. Dois jovens playboys de Manhattan, recém-saídos da faculdade, decidem matar um colega simplesmente pela adrenalina da coisa, e para provarem que conseguiriam escapar sem serem descobertos. E não apenas isso, os jovens macabros decidem dar uma festa de aniversário em homenagem ao sujeito, convidar seus amigos, parentes e inclusive sua namorada, e usar como mesa de jantar um baú com seu corpo desfalecido dentro. Os jovens matam seu companheiro com uma corda, daí o título original “Rope” ou “Corda”. Hitchcock faz o filme muito similar a uma peça de teatro, somente com um único cenário: o apartamento onde a festa está ocorrendo. Esse é um dos filmes mais marcantes da história a ser passar num único local (coisa que o cineasta repetiu em sua carreira apenas mais três vezes).

James Stewart interpreta um professor dos jovens que é o único inteligente o suficiente para começar a juntar certas peças, num verdadeiro jogo de gato e rato com os intelectuais e frios assassinos. Hitchcock não faz suspense sobre a identidade dos criminosos, ou sequer põe em dúvida se eles foram realmente os culpados, pois a primeira cena que abre a produção é justamente o assassinato. A jogada aqui é se os culpados serão pegos ou não. A cada cena desse eletrizante suspense o jogo se eleva, assim como a tensão. Outra jogada de mestre do diretor foi desejar filmar a obra de uma tacada só, sem cortes. Porém, como os rolos de filme não aguentavam tanto tempo, Hitchcock ludibriava seu público focando nas costas de algum personagem, ou em uma cadeira, para dar o fade out, trocar rapidamente o filme e continuar gravando.





A tensão é visível nos atores, já que as longas cenas eram feitas sem cortes, cada erro retrocederia a tomada e custaria milhares de dólares ao estúdio. Outro ponto presente que pode passar despercebido para muitos é a opção sexual implícita dos protagonistas, fato pelo qual os responsáveis pela censura quase suspenderam o filme. Muitos filmes como “Cálculo Mortal”, com Sandra Bullock, foram inspirados nessa obra do diretor.

 

PACTO SINISTRO (1951)

Ao contrário do filme acima, “Pacto Sinistro” se tornou um grande sucesso de público assustando ferozmente sua audiência. Nova parceria do diretor com o ator Farley Granger, cujos filmes mais conhecidos da carreira são os dois citados até agora na lista. Ao contrário de “Festim Diabólico”, Granger vive o herói aqui, o tenista Guy Haines, que cansado das traições da esposa, inicia um novo romance com a filha de um senador. O problema é que o famoso sujeito não tem paz, agora que sua esposa descobriu seu caso, resolveu não facilitar dando-lhe o divórcio. É então que surge num trem, como diz o título original “Strangers on a Train” ou “Estranhos em um Trem”, o lunático Bruno Antony, vivido por Robert Walker.

O sujeito reconhece o tenista e os dois começam a conversar. Em pouco tempo o psicótico propõe um verdadeiro “pacto sinistro” para o tenista: que ele mate seu pai, e em troca Antony mataria sua esposa, facilitando assim a vida dos dois. Dessa forma ninguém seria incriminado, já que tecnicamente não se conhecem e não teriam proximidade com os crimes. Essa trama é familiar? O motivo é que “Pacto Sinistro” também já foi muito satirizado e homenageado principalmente por filmes de comédia, sendo os mais famosos “Jogue a Mamãe do Trem”, de Danny DeVito, e o recente “Quero Matar o Meu Chefe” (2011), com Jennifer AnistonKevin Spacey e Colin Farrell. Aqui Hitchcock volta ao preto e branco para entregar um de seus grandes feitos.

Sua filha, Patricia Hitchcock possui um papel importante no filme, como a irmã mais nova da protagonista feminina, também filha do senador, e que servirá como tormento e isca para capturar o psicopata fora de controle. A atriz precisou fazer o teste de elenco como qualquer outro ator para trabalhar no projeto de seu pai. O ator Robert Walker, que vive o desequilibrado Bruno Antony ficou mais conhecido por viver galãs e heróis em sua carreira, por sua aparência jovial. Aqui, ele vive um dos mais elaborados e atraentes vilões da filmografia do grande diretor, o sujeito que simplesmente não aceita não como resposta, e que continuará aparecendo até que você ceda, ou trará à tona a lama que o homem comum de Granger está entranhado.

Um filme recente que aborda tal comportamento e relacionamento entre personagens é a comédia mal sucedida com Jim Carrey, “O Pentelho”. Algumas das cenas mais marcantes e icônicas dessa produção envolvem o assassinato da esposa do protagonista num parque de diversão, no qual tudo o que vemos de fato é o reflexo em seus óculos caídos, e o final apoteótico que envolve um carrossel em alta velocidade. A cena que foi realizada de verdade, e estranhamente não estava no roteiro. O filme foi baseado num livro de Patricia Highsmith, famosa por escrever os livros do personagem Tom Ripley (o mais famoso sendo “O Talentoso Ripley”). Uma triste curiosidade é que esse foi o último trabalho do ator Robert Walker, que vive o vilão do filme. O ator tirou a própria vida aos 32 anos por não conseguir superar a separação de sua então companheira Phylis Lee Isley, transformada em Jennifer Jones pelo novo marido, o mega empresário do cinema David O. Selznick.

 

JANELA INDISCRETA (1954)

Sentindo falta das famosas garotas de Hitchcock? Então que tal um filme estrelado pela maior delas, a musa Grace Kelly. Em seu segundo trabalho com o diretor (no mesmo ano), Kelly vive a companheira de James Stewart (outro grande favorito do diretor) no filme. Durante as filmagens de “Disque M para Matar”, Hitchcock vivia mencionando para sua musa estar muito empolgado com um próximo projeto. Assim, terminaram o filme em que estavam trabalhando sem perder tempo, para logo em seguida adaptar o conto “It Had to be Murder”. Na trama de um dos filmes mais lembrados do diretor, Stewart vive um fotógrafo aventureiro e de espírito livre da revista Time. Após um acidente ele fica com a perna quebrada, e paralisado em seu apartamento, numa cadeira de rodas por semanas.

Tudo o que lhe resta é espionar os vizinhos de um condomínio em frente, de sua janela traseira (daí o título original). Ele recebe visitas de sua enfermeira (vivida por Thelma Ritter), e como vemos numa cena esplêndida de primeira aparição, de sua namorada, uma dama da alta sociedade, vivida por uma das mais belas atrizes que Hollywood já viu, a eterna musa Grace Kelly. O protagonista acredita que seus estilos de vida bem diferentes será sempre um problema, mas tudo o que a bela dama deseja é se casar. É reportado que Kelly abriu mão do filmeSindicato de Ladrões”, com Marlon Brando, para trabalhar em “Janela Indiscreta” com Hitchcock. A atriz Eva Marie Saint levou o Oscar de coadjuvante pelo filme, mas Kelly levou como atriz principal no mesmo ano por “Amar é Sofrer”.

Hitchcock adorava Kelly, ela era sua musa definitiva, e extremamente profissional aos 24 anos de idade. “Janela Indiscreta” também marca o início da parceria de Hitch com a Paramount, e uma liberdade criativa maior, que o produtor David O. Selznick (que financiava a maioria de suas produções anteriores) não lhe dava. Para o filme, o maior set foi criado até então pelo estúdio, com diversos apartamentos e aquela grande e icônica fachada, tudo sendo completamente funcional. O diretor dava as ordens do apartamento do protagonista, para todos os atores do outro lado, com fones no ouvido. Essa é uma história que pode ser considerada simples para os padrões de hoje, mas que gira com a precisão de um relógio, em torno da suspeita de assassinato de uma vizinha por seu próprio marido. A clara homenagem atual é do suspense juvenil “Paranoia” (2007), com Shia LaBeouf.

 

LADRÃO DE CASACA (1955)

Mais uma vez um filme importante por diversos motivos na filmografia do mestre, constando na lista. Se achando velho demais, e deixando a concorrência de novos atores passaram à frente (gente como Marlon Brando), Cary Grant estava semi-aposentado quando Hitchcock conseguiu convencê-lo a voltar a atuar para esse filme. Também baseado num livro, Grant, aos 50 anos de idade, interpreta um ex-ladrão profissional conhecido como O Gato. O sujeito sai da aposentadoria quando outro criminoso começa a realizar roubos sob sua alcunha. O filme é passado na Riviera Francesa, tornando a produção o local mais belo de qualquer filme do mestre do suspense. A obra soa como uma viagem de férias que qualquer um de nós desejaríamos.

O filme também marca a última parceria com a musa Grace Kelly, que se tornava a princesa de Mônaco após o casamento com o príncipe Rainier. Com uma aposentadoria precoce aos 26 anos de idade, Kelly tem poucos, mas marcantes, trabalhos no cinema. O suficiente para garantir-lhe o título de uma das grandes musas de Hollywood.  Esse é um dos filmes mais descontraídos e bem humorados de Hitchcock. Infelizmente a musa Grace Kelly viria a falecer pouco tempo depois de seu grande amigo (que ficou muito desapontado com sua aposentadoria), em 1982, aos 52 anos de idade, num acidente de carro passado no mesmo local em que aparece dirigindo descontroladamente no filme.

 

INTRIGA INTERNACIONAL (1959)

Provavelmente o mais icônico filme de espionagem dirigido por Hitchcock, que usou o tema mais do que outro em sua filmografia. É dito também que “Intriga Internacional” inspirou os filmes de espiões como os conhecemos hoje, em especial a série de “007”, com seus vilões charmosos e elegantes, cenas de ação eletrizantes e femme fatales. Nova parceria com o ator Cary Grant, que aqui vive o sujeito errado na hora errada, no mais chamativo dos filmes sobre o tema do diretor. A bela Eva Marie Saint vive uma personagem dúbia no filme, e sua relação com Hitch era dita ser ótima. Mesmo assim essa foi a única vez em que trabalharam juntos. Saint ainda está viva, e foi Martha Kent no filme de Bryan Singer, “Superman – O Retorno” (2006). Uma curiosidade é que esse foi o único filme bancado pela MGM da carreira do diretor. O fato aconteceu enquanto ainda estava sob contrato com a Paramount, que permitiu o ocorrido, mas logo em seguida forçava o cineasta a produzir uma obra nos mesmos moldes desse, que é um de seus maiores sucessos financeiros.

 

CORTINA RASGADA (1966)

Produção extremamente problemática, e uma das últimas da carreira de Hitchcock. O filme tem como pano de fundo o muito presente (na época) medo da Guerra Fria. Paul Newman interpreta um cientista americano, que após ter suas pesquisas terminadas pelo governo americano, se alia ao governo russo. Julie Andrews interpreta sua noiva, surpresa com a traição do companheiro. O estúdio, com medo dos constantes fracassos que vinham ocorrendo com os últimos filmes do cineasta, impôs que trabalhasse com nomes muito famosos (Newman e Andrews) para chamar a atenção e render boa bilheteria. Mas não foi o caso. O ator do método Paul Newman não aceitava todas as ordens de Hitch, tendo ele mesmo muitas dúvidas sobre o roteiro e sugestões.

Os dois não tiveram o melhor dos relacionamentos, coisa que se arrependeram depois, mas tudo era movido em relação ao projeto errado. Longo demais, o filme se arrasta em diversos trechos, mesmo assim ainda deixando espaço para a cena clássica do assassinato de um capanga russo numa casa de fazenda. Newman ao lado de uma fazendeira, penam para conseguir dar fim ao truculento agente russo. O que o diretor quis apontar nessa cena foi o fato de como é difícil realmente matar alguém. Já que era essa a tentativa de realizar mais um thriller de espionagem, o cineasta o fez mais sombrio e realístico do que as aventuras divertidas de personagens como James Bond. Julie Andrews, recém-saída de sucessos como “Mary Poppins” e “A Noviça Rebelde”, possui uma grande presença nas telas, mas devido a seu estrelato, a produção teve que girar muito em torno dela e de seus horários, fazendo o diretor se desesperar. No final das contas, “Cortina Rasgada” se tornou um dos menos memoráveis e subestimados filmes de uma lenda do cinema.

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