‘Black Mirror’: A Melhor Série Original da Netflix

‘Black Mirror’: A Melhor Série Original da Netflix

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Quem acompanhou as primeiras temporadas sabe bem que ‘Black Mirror‘ não é uma série que foi criada para ser confortável de assistir, mas é inegável que a terceira temporada abusou desse privilégio e se tornou, inquestionavelmente, a sequência de histórias mais perturbadoras dessa – que para mim é a melhorsérie original da Netflix.

Grande parte desse desconforto se dá pela proximidade ainda mais visceral à realidade. Enquanto as primeiras histórias pareciam estar mais próximas de desejos da humanidade e seus efeitos colaterais, a Season 3 é um verdadeiro soco no estômago que nos faz repensar atitudes com urgência.

A produção já chega com os dois pés no peito com o agonizante “perdedores”, uma análise crua e intensa da geração like, das pessoas que vivem em função de suas avaliações nas redes sociais.




Imagine só se cada interação que você realiza no cotidiano te rendesse de 0 a 5 estrelas, e o conjunto de todas elas formassem um conceito sobre você que pode ser visto por todos. Isso, eventualmente, define como todos tratam você, os eventos para o qual você será (ou não) convidado e até se você tem direito a ser atendido no hospital em um caso de uma doença grave.

O episódio transforma o mundo que vivemos em um intragável comercial de margarina, nos levando ao extremo de uma vida de aparências, onde temos que dizer que um biscoito ruim que ganhamos é bom, pois se falarmos o contrário, caímos no ranking dos mais queridos, o clube das pessoas cheias de benefícios, que podem comprar casas ou até ser atendidos em caso de vida ou morte com mais velocidade.

E se a má avaliação te colocasse em uma prisão? Te isolasse da sociedade? E se ter opinião própria em um ‘mundo dos sonhos’ te tornasse um louco? Dá para considerar que estamos longe disso?

A trama mostra a história de Lacie, uma jovem que tem seus anseios de vida e que crê veementemente que só pode conquista-los através de sua avaliação. Para poder comprar a casa dos sonhos ela tem que ser uma 4.5, ela está bem perto de chegar lá, mas precisa chegar rápido. Então, em torno de receber boas avaliações ela tem de criar uma situação onde possa interagir e ser avaliada por pessoas que estão acima do patamar dela.




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Enfim, ela consegue ser convidada para ser dama de honra do casamento de uma amiga de longa data, e fazer seu discurso ao casal perfeito e bem avaliado. Mas, para chegar lá e conseguir alavancar o seu ranking, ela vai viver um verdadeiro pesadelo que colocará em risco toda a pontuação que ela já tem.

A trama continua com o episódio ‘versão de testes’, que é de longe um dos que mais buga a nossa cabeça, e assim acaba gerando uma gigantesca empatia com seu bugado protagonista.

A história fala sobre como as grandes empresas e corporações parecem estar entrando em nossas mentes, o que me fez lembrar uma história real que aconteceu no Facebook há alguns anos, onde a rede social resolveu fazer um joguinho com seus usuários e ver se era capaz de manipular as emoções de quem usa a rede social

A ideia, em suma, era usar o poder deles para controlar o que chegaria ao nosso feed de notícias. Por exemplo, você abria o seu feed e parecia que tava no programa da Sonia Abrão, cheio de tragédias e coisas ruins… Daí em diante o face media, pelas suas próximas publicações, se aquilo havia afetado você de algum modo.

Horripilantemente eles descobriram que as pessoas responderam do modo que eles queriam, chegando à conclusão de que somos influenciados diretamente ao que somos expostos. Mas a gente pode voltar aos tempos do saudoso Orkut e pensar sobre as comunidades nas quais estávamos (e, sim, a gente tinha mania de aderir a tudo e mostram que éramos pelas comunidades nas quais entramos).

Então você está lá, supostamente, na comunidade “tenho medo de aranhas”. A gente nunca pensa que os nossos próprios medos, expostos de modo aparentemente banal, podem ser usados contra nós. E é isso que ‘versão de testes’ faz.

Temos Cooper, um protagonista gente boa, apaixonado pelo pai e tentando lidar com problemas em relação à mãe, que precisa de uma grana e participa de uma simulação de uma empresa de vídeo games. A ideia deles é entrar na mente das pessoas e criar o jogo mais assustador de todos os tempos, pois ela é personalizado mediante os maiores medos de cada um.

Com milhares de reviravoltas na história, o episódio se assemelha a um filme de suspense. Você vai respirar aliviado por alguns instantes até ser arrebatado pelo final.

A terceira história, intitulada ‘Cala a boca e dance’ é a menos surreal de todas, e reflete uma  tendência que, particularmente, me assusta muito, que é a invasão de nossos computadores através de vírus e, assim, a perda total da nossa privacidade.

Um verdadeiro jogo de chantagens virtuais começa a acontecer na vida de Kenny, um jovem bonzinho que é sempre ignorado por onde passa e, por isso, se fecha em uma vida virtual quando chega na sua casa. Acontece que, um belo dia, a irmã dele vai tentar ver um filme (clássico) e espalha vírus por todo o note dele (clássico). Dali em diante a webcam e o rastreio aos acessos dele viram um verdadeiro pesadelo.

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Ele é registrado em uma situação constrangedora e um grupo anônimo passa a ameaçar colocar seu vídeo na rede se ele não cumprir uma série de instruções. A primeira é entregar um bolo para um cara, e lá vai ele. Quando ele consegue, descobre que o cara também está sendo chantageado pelo mesmo grupo.

Assim, eles devem seguir juntos a uma “segunda etapa” para que o vídeo deles não vaze nas redes sociais. Kenny, depois de cumprir o que eles pedem, é levado a um terceiro momento, onde ele encontra mais uma pessoa que está na mesma situação que ele, e é ali que a tensão chega ao extremo.

Os plots da história se dão quando o episódio mostra o que acontece com cada um deles e, acima de tudo, derruba e quebra toda a empatia que criamos sobre o protagonista.

Com base em tudo que venho lendo na internet, chegamos diante do queridinho da geral, o quarto episódio chamado ‘San.Junipero’. Ele é um verdadeiro bombardeio de emoções, e é justamente o que faz dele o mais diferente de toda a série, e não apenas dessa temporada, pois ele chacoalha as emoções reais e interliga todo seu conceito à tecnologia só lá no finalzinho.

Crítica | Black Mirror 

Você acaba se envolvendo tanto com o romance entre as protagonistas que chega até a desapegar dos detalhes que fazem com que você não entenda a distribuição história/tempo, embora fique aquela pulga atrás da orelha toda vez que você nota que algo muda depois da meia noite.

As diferenças entre as protagonistas, que viram amigas no decorrer da história e acabam se apaixonando, parecem apenas um clichê para dar cola na história, até a gente perceber a profundidade, a raiz da personalidade de cada uma delas e o quanto elas vão se dispor a passar por elas.

Assim como fiz na primeira coluna sobre a série, em relação ao impecável ‘white bear’, esse é um episódio que precisa ser assistido, pela gama de emoções, pela intensidade do roteiro e pela entrega de um elenco que coloca tudo de si para nos presentear com essa maravilha.

E, por fim, hora de falar das duas histórias finais que, basicamente, consagraram ‘Black Mirror‘.

Engenharia reversa’ é um verdadeiro misto de um cenário de guerra com um suspense de primeira. Se em algumas tramas anteriores os episódios davam pistas do que aconteceria, esse me deixou com uma certeza que não se concretizou e me levou a um espaço muito melhor.

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Com um misto de artimanhas do passado e engenharias do futuro, e episódio trata a necessidade do ser humano em transformar qualquer tipo de diferença em argumento para guerras e ataques.

Logo no começo, conhecemos um soldado novato que vai para uma missão que visa derrotar as “baratas” que entraram em uma espécie de aldeia e roubaram toda a comida do povo. Depois de algum tempo, conhecemos um senhor que, segundo a trama, protege as baratas na casa dele. Até então não sabemos o que elas são e nem como elas são.

Na invasão ao local onde esse homem mora, o novato consegue a honra de matar duas baratas, enquanto uma escapa. Na luta, uma das baratas dispara um dispositivo contra ele, que gera alguns efeitos colaterais que ficamos aguardando para ver quais são e, por sorte, vem algo que ainda não podemos antever.

Com uma trama eficaz, que literalmente só acaba quando termina, ‘engenharia reversa’ mostra os diversos lados da guerra, tanto da importância dela para que uma nação possa se estabelecer como soberana e também o que ela pode fazer na mente das pessoas que realmente participam dela.

Você realmente conhece o inimigo? É esse o questionamento principal.

E, para fechar a Season 3 com abelhas, ops, chaves de ouro (que rufem os tambores)… ‘Odiados pela nação’, um episódio que mais parece um curta metragem e é absurdamente desesperador.

Relevando uma grande tendência, que é a de transformar hashtags em algo que as pessoas propagam sem nem bem entender o motivo, eu realmente fiquei esperando que aqui a gente fosse descobrir que a #SaveMarinaJoyce era sim uma artimanha de série

A resposta é não, o fato do anúncio da data da terceira temporada ter batido com o dia que a hashtag começou a bombar nas redes sociais foi apenas uma ‘feliz’ coincidência, mas o que aconteceu com Marina após todo aquele fuá é um ótimo exemplo para falar do que o episódio se trata.

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3ª temporada de ‘Black Mirror’ estreia na Netflix; 4ª temporada é confirmada! 

Uma série de mortes misteriosas começam a acontecer, entre todas elas, uma conexão no modo em que elas ocorrem. Logo os investigadores percebem que essas pessoas haviam se tornado odiadas pela nação, ou seja, uma corrente que demonstrava o quanto as pessoas gostariam de vê-las mortas havia tomado conta do twiter.

Imagine se cada pessoa que postou o SaveMarinaJoyce tivessem se sentido troladas pelo que aconteceu e tudo virasse ódio e, em pouco tempo, houvesse uma hashtag sugerindo que ela poderia morrer, pela brincadeira de péssimo gosto. Isso pode parecer algo inocente, mas, e se no mesmo dia que você acompanhasse essa hashtag a Marina Joyce realmente morresse?

Transformando o ódio virtual em uma arma letal e dando uma ótima virada no final do episódio, que nos faz entender o porque de a protagonista estar em um tribunal contando toda uma história, Black Mirror encerra a sua melhor temporada (até então).

Devido a eu já ter dado nota 10 para as duas primeiras temporadas, eu adoraria que houvesse uma nota muito maior para essa. Mas posso dizer que, mediante ao fato de os episódios e temporadas não serem amarrados entre si, você pode agora mesmo ter uma experiência maravilhosa e se dar ao luxo de maratonar uma temporada curta, incrível e impactante.

Só nós resta pedir: vem, Season 4!

 

 

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