Bling Ring: A Gangue de Hollywood (3)

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A COMPLEXIDADE DA SUPERFÍCIE

 

Sofia Coppola vem construindo uma filmografia sólida e coerente, em torno de personagens que sofrem de algum vazio, de alguma falta, que vivem em ambientes muitas vezes sofisticados. Com ecos que remontam ao diretor italiano Michelangelo Antonioni, Sofia Coppola fala do vazio do nosso tempo. Mesmo com obras como Maria Antonieta, a filha do Poderoso Chefão é uma cronista da nossa geração de início de século.

Com essa trajetória, é mais fácil compreender a escolha do tema do seu novo filme Bling Ring – A Gangue de Hollywood. O roteiro foi adaptado de uma reportagem da Vanity Fair. A jornalista Nancy Jo Sales escreveu sobre um grupo de jovens de classe média alta de Hollywood que invadia as mansões de famosos para lhes roubar objetos de luxo e dinheiro. Não era por necessidade, claro, a gangue queria um pouco da fama desses ícones, subir na escala de celebridade e faturar uma boa grana. O grupo invadiu as mansões de celebridades como Orlando Bloom, Lindsay Lohan e Paris Hilton – esta teve a casa invadida incríveis 5 vezes, pelo menos!

Sofia Coppola conseguiu vencer o desafio de adaptar um caso recente e constrói uma de suas narrativas mais deliciosas! Se alguns de seus filmes anteriores poderiam ser considerados lentos demais – espacialmente para os padrões atuais – Bling Ring preza pela concisão e agilidade. São cerca de 90 minutos nos quais acompanhamos o surgimento, auge e queda da gangue.

Os que mais se destacam, ao menos na primeira parte da projeção, são Rebecca (Katie Chang) e Marc (Israel Broussard). Eles são os primeiros a invadir as casas. O grupo se completa com Chloe (Claire Julien), Sam (Taissa Farmiga) e a terrível Nicki (Emma Watson). Eles são um retrado de uma geração que valoriza a banalidade.

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Eles desejam a fama. Não importa se precisam roubar para ter um naco disso. Entrando nas casas dos famosos, desfrutando de seu conforto e roubando, eles conseguem criar um simulacro de fama. No começo, é o suficiente (ora vejam!). Usar um Laboutines no quarto sozinho já basta. Mas, as pessoas têm sede! Depois de darem o chapéu na polícia, o grupo ganha confiança e começa a divulgar seus feitos, inclusive pelas redes sociais. Misto de petulância e desejo de alcançar uma notoriedade real.

Alguns críticos acusam Sofia Coppola de ser superficial. Não sou desse time! Ele fala sobre a superficialidade de uma geração e, a cada filme, vem conseguindo apurar seu olhar. Aqui ela não faz um julgamento direto, mas desnuda suas personagens. O avanço da narrativa vai revelando atitudes cada vez mais inconsequentes e deslumbradas dos ladrões. Marc e Rebecca são as personagens mais bem trabalhadas nesse sentido de evolução. São personagens que vão relevando-se mais complexas a medida que o filme avança, até o desfecho amargo de Marc, decepcionado com Rebecca.

Sofia Coppola consegue níveis ácidos de ironia, negando a superficialidade da qual é acusada, nas sequências da casa de Paris Hilton. A ironia começa com o fato da própria ter cedido a casa para as filmagens. Os enquadramentos revelam o nível que o narcisismo pode chegar. O deboche final é a mistura de repulsa e fascínio que a casa de Paris Hilton pode provocar na plateia.

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Um tema tão atual acaba nos levando para fora da sala, fazendo pensar nas consequências da mercantilização das artes. Se ela conseguiu dar uma real independência aos artistas, que podem viver de suas obras, também gerou o mercado das celebridades que degringolou no desejo da fama pela fama. Nos tempos em que todos podem ter 30 segundos de fama no YouTube (Andy Warhol foi generoso com seus 15 minutos. “Hello!” na era digital, 1 minuto é eternidade!) deseja-se ao menos parecer famoso. Por outro lado, não temos muitos valores para contrabalançar essa fascinação pelas celebridades. O desejo de viver um simulacro da fama e a falta de outros valores criaram uma geração superficial.

Voltando ao filme, encontramos Nicki, uma garota embriagada pelo desejo de ser famosa. A mãe, que deveria contrapor a falta de valor da sociedade, reforça os delírios com suas aulas sobre celebridades e crença em auto-ajuda no nível de “O Segredo”.

Antes do fim, uma palavra sobre Emma Watson. Ela constrói a figura mais hipnotizante do filme. Sua Nicki é a versão mais acabada da pessoa que realmente acredita em sua superioridade moral. Seus gestos de condescendência servem apenas para inflar seu próprio ego cujo desejo final é uma vida de aparência para continuar a alimentar esse ego. Saí da sessão com ódio de Nicki e a certeza de que Emma Watson cresceu, em todos os sentidos, e exorcizou Hermione.

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