Casos de assédio sexual como de Harvey Weinstein também ocorrem no Brasil

Casos de assédio sexual como de Harvey Weinstein também ocorrem no Brasil

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Em meio a um silêncio de décadas, um ruído inesperado se transformou em um movimento sem precedentes. Há duas semanas atrás, Jodi Kantor e Megan Twohey abriram um antigo baú empoeirado e jamais tocado, que guardava memórias das mais dolorosas. As jornalistas foram aos confins de uma entremeada rede de corrupção de caráter e opressão machista e trouxeram para a capa do jornal The New York Times a narrativa mais avassaladora da história de Hollywood. Um nome popularmente conhecido no antro do cinema se viu estampado mundialmente, em relatos que revelam um padrão doentio de assédios e abusos sexuais. Seu nome: Harvey Weinstein e ele tem tudo a ver com resto de nós.

O homem por trás de clássicos como ‘Shakespeare Apaixonado‘, ‘Sete Dias com Marilyn‘, ‘Gangues de Nova York‘, ‘Cães de Aluguel‘ e ‘Kill Bill‘ ofuscou as obras que tanto brilharam em festivais de cinema e premiações, ao assumir a face de um sistema doentio que tentou moldar o meio do entretenimento desde seus anos dourados. Imponente e poderoso, a figura capaz de transformar água em vinho na indústria cinematográfica construiu seu império à base de um discurso manipulador e amedrontador. Com imagem intocável, Harvey se manteve acima da lei nas últimas duas décadas. No entanto, aquele mesmo silêncio que permitiu que um antigo boato vago de corredor fosse constantemente abafado, perdeu seu vigor, dando espaço para um dossiê com mais de 15 acusações de assédio sexual. E sendo dispensado pela porta dos fundos de sua própria empresa, a The Weinstein Company, viu sua torre de marfim se desmoronar em meio a um surto de revelações devastadoras.

Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow, Kate Backinsale, Heather Graham, Rose McGowan, Ashley Judd e mais recentemente Lupita Nyong’o e Miranda Kerr. A lista de celebridades se estende de maneira infindável, à medida que um novo amanhecer sempre traz mais uma revelação extraída da escuridão. Com a caixa de pandora aberta pelas primeira 15 vítimas que incluem assistentes e produtoras da Weinstein Co., um movimento efervescente nasceu, contabilizando mais de 30 alegações que seguem o mesmo padrão: carismático e poderoso produtor de Hollywood convida atriz para uma reunião de negócios em um hotel, oferece uma massagem, sugere que ambos fiquem nus, abafa o caso com sua influência.

Um modelo sistêmico, um crime quase perfeito. Um comportamento abusivo, mas permissivo. Não por elas, mas por todos os demais. Afinal de contas, “todo mundo sabia”. Esse é o discurso de produtores e atores que vieram a público comentar as revelações. Quentin Tarantino, antigo amigo de Harvey, sabia. Ele admitiu sua omissão ao New York Times, até mesmo quando sua ex-namorada, a atriz Mira Sorvino, foi vítima confessa, que buscou nele um suporte. Mas se todo mundo sabia, porque o silêncio só se rompeu em meados de 2017, com acusações que se iniciam nos primórdios dos anos 90? Porque ninguém falou nada?

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Vivemos em uma sociedade acostumada com isso. Sempre foi assim, em âmbito macro – Hollywood – e micro – as ruas da sua vizinhança. Ainda somos reflexos de uma geração retrógrada, que vincula cores a certos comportamentos, por uma mera convenção social antiga. Assumimos que rosa é cor para meninas e batom vermelho é vulgar. Nos focamos em coisas e esquecemos do caráter. Crescemos com padrões invertidos, que reduzem a mulher a um “sex symbol”. Culpamos o sexo feminino por seu biotipo, por sua gestualidade. Alegamos fracamente que “a carne é fraca” e que “garotos sempre serão garotos”. Não vimos problema quando eles invadiam o banheiro das meninas na escola. Achávamos “engraçadinho” quando olhavam embaixo de suas saias. Tudo não passava de uma brincadeira. Crianças de 10 anos foram ensinadas dentro deste padrão de normalidade. E caminhando para o final de mais uma década, ainda patinamos em um passado tão presente de opressão e subjugação de gêneros. Ao crepúsculo de mais um dia, todos continuamos perdendo.

Essa estranha “normalidade” é a fita isolante que calou as mais de 30 vítimas de Harvey Weinstein e as inúmeras outras espalhadas pelo mundo. Porque, em se tratando de assédio sexual, não há nenhuma vitória que aguarda sua vítima na pós-revelação. Afinal, ela sempre vem acompanhada de uma nova opressão. Traz perguntas incoerentes como: “o que você estava vestindo?”; “você passou a impressão errada?”; “sua saia era curta demais?”; “sua calça não era muito justa?”. Continuamos ensinando meninas e mulheres que a culpa está no seu corpo, seja ele voluptuoso demais, esguio demais, definido demais, “sensual” demais, normal demais. Continuamos não aprendendo nada e dando vazão a comportamentos que são considerados “ok”. Errado mesmo é se fazer de vítima de alguém que só te elogiou por ser bonita.

E aqui não se trata de uma problematização de um fato. O problema já existe e persiste há muito tempo. Tempo demais. Em um contexto social onde mulheres no metrô de São Paulo são forçadas a limpar seu corpo de vestígios da ejaculação de um desconhecido, vivemos em um caos onde 86% do público feminino brasileiro já sofreu algum tipo de assédio sexual publicamente. Inclusive eu.

Um deles aconteceu em 2011, enquanto morava nos Estados Unidos. Passei por uma das situações mais constrangedoras de toda a minha vida, compartilhada pela primeira vez aqui. Um estranho sem autocontrole sobre seu corpo me abordou subitamente, enquanto eu procurava na gôndola de uma famosa farmácia por uma barra de chocolate. Projetando-se em enquanto eu estava de costas, senti sua genitália, ereta, ser pressionada contra o meu corpo indefeso. Na época virgem e completamente aterrorizada, eu simplesmente gritei para que jamais tocasse em mim novamente. Assustado, o doente desconhecido correu para fora do lugar. A insensatez e a indignação me fizeram deixar tudo para trás e correr em busca do agressor, na expectativa heroica de dar lhe o troco. Eu não estava pensando, apenas saí em disparado com os olhos marejados, para descobrir que ele já havia sumido pelas ruas. Eu o perdi de vista e desde então convivo com o sentimento de impunidade, que embora passe boa parte de seu tempo escondido nas esquinas da minha mente, volta à tona com relatos como os destas mais de 30 vítimas de Harvey Weinstein. Continuo pensando em outras mulheres que também sofreram pelas mãos do mesmo agressor. Quantas passaram pelo mesmo do que eu, quantas passaram por algo até mesmo pior.

E é por isso que todos nós temos tudo a ver com o caso Harvey Weinstein. Sem precedentes, aqueles debates sobre limites e igualdade de gêneros vinculados a contextos específicos locais ou até mesmo nacionais, ganham um novo coro fortalecido mundialmente. Ao diagnosticarmos um padrão de comportamento doentio que, frequentemente, é repetido em suas inúmeras variações de assédio ao redor do mundo, tomamos ciência do nível global em que este crime se encontra. Da emblemática revelação de Ashley Judd, a primeira atriz a assumir publicamente, ao comovente relato de Lupita Nyong’o em um artigo seu publicado pela New York Times no último dia 19, gradativamente enfrentamos um momento pivotante, que ao lado de Weinstein, centraliza também todo e qualquer abuso já sofrido por mulheres através do movimento #MeToo, iniciado há dois anos pela ativista Tarana Burke e que ressurgiu nas redes sociais em meio ao turbilhão de revelações.

Com essa nova rede de proteção mútua, que direciona os holofotes hollywoodianos para os bastidores sombrios de uma indústria corrompida pelo abuso emocional, profissional e psicológico, estamos encarando a problemática em escala global, sem medo de suas consequências. A luta contra o assédio sexual ganha 30 novos rostos, que agora se unem a outros mais de 50 milhões, de mulheres que – decisivamente – nunca mais calaram suas vozes com qualquer fita isolante que o meio social possa vir a impor. E isso é irreversível.

Acompanhe essa treta com a gente:

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Cenas Pós-Créditos de Liga da Justiça


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