Critica 2 | A Colina Escarlate

Critica 2 | A Colina Escarlate

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UM ESCARLATE MEIO DESBOTADO

 

Fico realmente triste quando um grande diretor não consegue superar seus trabalhos anteriores. Ao menos, A Colina Escarlate (Crimson Peak) não chega a ser uma obra ruim, mas apenas um filme deficiente. O diretor Guillermo Del Toro ainda brilha, mas nada que chegue à tonalidade referida no título.

O traço mais conhecido de Del Toro é sua capacidade de construir um universo fantástico de forte qualidade visual está presente neste filme. Como amante do gênero terror/fantasia, ele vem trazendo lufadas de renovação. Basta falar da releitura que fez dos tokusatsus, as séries/filmes de super-herói japoneses, em Círculo de Fogo (Pacific Rim) ou de sua obra-prima O Labirinto do Fauno (El Laberinto Del Fauno) para lembrar dos ambientes e das criaturas. Um artesão da fantasia.




Del Toro privilegia em seus filmes os efeitos práticos – aqueles criados em estúdio – deixando o digital como coadjuvante. Um dos pontos fortes de A Colina Escarlate está aí. Para contar a história de uma casa mal assombrada, e desejando fazer dela a protagonista da história, o diretor simplesmente montou essa casa no estúdio, o que se demonstrou um acerto. A ideia de uma mansão que lentamente afunda em um terreno de argila vermelha, traduzindo a decadência dos irmãos Sharpe, só não encanta mais do que ver o átrio constantemente atingido pelas intempéries das estações por falta do teto, uma conciliação entre lirismo e terror como poucas vezes o cinema atual fez.

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Pelo apuro técnico, poderíamos usar a velha expressão e dizer que A Colina Escarlate é o tour de force de Del Toro. Todos os elementos plásticos estão afiadíssimos. A fotografia do diretor Dan Laustsen delimita, visualmente, os dois momentos do filme. A primeira parte passa-se nos Estados Unidos, e acompanhamos o início do envolvimento amoroso entre Edith Cushing (Mia Wasikowska) e Thomas Sharpe (Tom Hiddleston) e algumas outras coisas mais bizarras. Na segunda parte, Edith muda-se para Allerdale Hall, a casa dos Sharpe, na Europa, momento no qual o filme foca no suspense.  Nas cenas americanas, a iluminação privilegia tons amarelados, criando imagens pesadas e quentes. Nas cenas europeias, temos uma paleta de cores de tons azulado e vermelhado, transmitindo a sensação de terror e mau agouro.

Os figurinos demarcam a personalidade de cada personagem, sem apelar para saídas fáceis – nem mesmo o vestido vermelho de Jessica Chastain, em sua primeira aparição. Todo o desenho da casa e os seus móveis contribuem para criar o clima de romance gótico – objetivo declarado do diretor – e nos faz lembrar de filmes como o diretor italiano Mario Bava. Os fantasmas do filme não ficam entras as melhores concepções de Del Toro, mas seu traço é perceptível, especialmente no caso do primeiro fantasma que aparece em cena. Infelizmente, a computação gráfica ainda não alcançou a eficiência em criar espíritos assustadores.




Então, o que o filme tem de ruim? Há uma ausência.

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O projeto foi concebido como um romance gótico – isto fica explícito no começo, quando um plano foca na capa de um livro. E de um romance gótico, espera-se o clima de opressão e que o espectador sinta o horror.

Na primeira parte, ainda nos Estados Unidos, Del Toro, competentemente, expõe os fatos que vão resultar nos acontecimentos em Allerdale Hall. Nesta segunda parte, Del Toro constrói um clima de opressão em torno de Edith, mas não necessariamente um clima de suspense. Sejam os ruídos da casa, ou até a ranger da colher na xícara, há uma engenharia sonora impressionante que, somado aos demais elementos, transmite essa opressão gótica sofrida por Edith. Mas, algo está ausente, deixando o filme incompleto. Mesmo o ótimo final não consegue dar isso à película. E o problema não são os fantasmas digitais.

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Quem conhece o trabalho do diretor sabe que em seus filmes o perigo não vem das criaturas fantásticas ou nem dos ectoplasmas, mas dos vivos. Em O Labirinto do Fauno, a fantasia é fuga e metáfora do sofrimento da protagonista e dos horrores da ditadura e da guerra civil espanhola. Ocorre que, em O Labirinto…, existe a tensão que falta em A Colina Escarlate. É um vácuo tão complicado de ser afastado pelo espectador, que coisas como diálogos excessivamente expositivos, ou algumas atuações fora do tom, passam despercebidas.

Podemos atribuir esse vácuo à expectativa criada em torno do filme. Quando se recebe a notícia de que um amante do terror e da fantasia como Del Toro fará uma obra de tintas góticas, expectativa do público é de um grande suspense. Claro que não podemos debitar tudo na conta das expectativas, nem julgar uma obra em razão do marketing feito. Talvez, parte do problema esteja no excesso explicativo do começo do filme, mastigando a mitologia. Talvez, seja a fraqueza da metáfora, que permanece frouxa depois do desfecho. Quem sabe, tenha sido apenas um problema de comunicação entre público e diretor.

Se essa ausência impede que toda a potência de Del Toro manifeste-se, por outro lado, é um estímulo para rever A Colina Escarlate. Quem sabe, em uma revisão, sem a expectativa do horror gótico, possa-se apreciar o romance gótico. Na pior das hipóteses, teremos revisto um universo deslumbrante, um tour de force raro hoje em dia.

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