Crítica 3 | La La Land – Cantando Estações

Crítica 3 | La La Land – Cantando Estações

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O MUSICAL POSSÍVEL PARA A NOSSA ÉPOCA

 

Em sua homenagem aos musicais, Damien Chazelle resgata a pureza do público ao ver… um musical!  Ou não era esse o estado de espírito do público na era de ouro de Hollywood? Se Hollywood era a indústria dos sonhos, nenhum gênero do período traduziu isso melhor do que os musicais. Nada poderia ser mais escapista do que Gene Kelly dançando na chuva – com tudo que esse escapismo tinha de bom e de ruim. E, para sonhar é preciso de uma dose inocência, ou não?!

Fato, que o mundo e o cinema mudaram. A relação do público com a tela grande deixou de ter aquele romantismo do período clássico. Não que os blockbusters atuais não sejam uma fuga da realidade ou não representem (ou imponham, dependendo de quem vê) ideais. Mudou foi que o público ganhou consciência de que tudo é um filme e, nesses primeiros anos de século XXI, nos tornamos mais cínicos. Hoje, o público quer que o superherói, uma criatura com super poderes!, seja realista…

     

Num ambiente assim, musicais que carregam uma dose (e só uma dose) de inocência, como La La Land – Cantando As Estações (La La Land), conseguirem cair no gosto de público é admirável. Chazelle recriou não só o estilo dos velhos musicais, mas a relação que o público tinha. A história simples de amor entre a garçonete aspirante à atriz e o pianista que sonha em abrir um bar de jazz atinge o emocional da plateia. E isto graças ao talento dos atores e à carpintaria com a qual o diretor desenha seu universo.

La La Land é um filme essencialmente sensorial. A história é quase uma desculpa para reconstruir a magia dos musicais. E Chazelle consegue reutilizar a linguagem do gênero na medida certa do gosto do público.

Não vá aguardando algo como Moulin Rouge! ou Chicago. La La Land abraça o simples e o natural. Exceto por dois momentos, os números musicais transcorrem em ambientes realistas ou mesmo em locações. Um dos primeiros números musicais entre Sebastian (Ryan Gosling) e Mia (Emma Stone) ocorre em uma estrada. Esse realismo contrasta com o clima romântico e onírico que Los Angeles ganha.  A cidade aparece como um lugar tão plácido, que um espectador desavisado pode se decepcionar com as diferenças entre a LA do filme e a LA original.

Um elemento forte nos musicais clássicos era a cor, muito porque o colorido era uma novidade nos cinemas. Na releitura de Chazelle, as cores explodem no figurino e no cenário; nada tão espalhafatoso que desagrade ao gosto do público atual, mas fortes suficientes para evocarem os velhos musicais.

Nenhum trabalho de cores – e de ambientação – é completo sem a fotografia. O diretor de fotografia Linus Sandgren foi o maior responsável pelo clima onírico da obra. Seja uma breve panorâmica em um píer, seja um close em Mia e Sebastian sentados ao piano, a fotografia de Sandgren transmite a carga emocional exata de cada cena, casando muito bem com as músicas.

Há outros elementos mais óbvios que evocam os velhos musicais. Nada disso, porém, seria suficiente sem Ryan Gosling e Emma Stone. Eles podem não ser os melhores dançarinos nem grandes cantores (nem o filme exige números de dança elaborados), mas ambos transmitem as emoções que cada instante pede, gerando no público uma cumplicidade essencial para reavivar a pureza dos velhos musicais.

Chazelle não quer reinventar o gênero. Assim como Sebastian com o jazz, ele quer reviver aquela magia, ainda quem tenha que fazer concessões (lê-se, modernizar o gênero). E no roteiro ele faz uma das atualizações mais curiosas. Cuidado que lá vem spoilers!

Por ser um filme de sensações, se o público for apenas focando no desenrolar do enredo, poderá se perguntar o que crítica e público viram nele para elogiarem tanto. La La Land fala de perseguir sonhos e de pessoas que conseguem realizá-los. Sim, a película é sobre aquele 0,5% da população mundial. Em boa parte, o filme vende a ideia de que você pode alcançar seus sonhos.

Isto incomodou parte da crítica, e provavelmente espectadores mais rabugentos. Acontece que o filme não é 100% cor de rosa. Sim, Sebastian abre seu bar e Mia virar atriz de sucesso, mas o preço é a separação. Em La La Land, o sucesso no jogo cobrou como pedágio o amor. Passados 5 anos da separação, Mia e Sebastian se encontram. Depois desse reencontro, acompanhamos uma sequência que representa o sonho dos dois, uma realidade alternativa na qual amor e sucesso andam juntos. Esta sequência é um estereótipo dos antigos musicais: cenários fantasiosos, cores explodindo na tela, cantoria incessante e final 100%.

Ao confrontar a história real de Mia e Sebastian e o que eles poderiam ter vivido, Chazelle reconhece os limites no resgate dos musicais clássicos e se filia aos musicais agridoces. O público não tem a inocência e pureza de antes. Finais felizes só são possíveis parcialmente.

E, aí, o que achou do filme? Também saiu cantando da sala de sessão? Ou acho um filme bobinho e superestimado? Vamos, comente, compartilhe e curta nossas redes sociais:

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