Crítica | A Chegada

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Loop Eterno de uma Mente com Lembranças

Ah, Denis Villeneuve. Como é bom assistir a chegada de cineastas como ele, que ao adentrarem pela porta da frente o universo da sétima arte automaticamente são postos sob os holofotes, mostrando existir humanidade, inteligência e autonomia dentro de um sistema tão mecânico quanto o da máquina de fazer filmes que é Hollywood. Diretores como Villeneuve são hoje o que nomes como Spielberg, Scorsese, Coppola, De Palma e Lucas foram para os anos 1970. São artistas que realizam grandes produções nos seus termos, consentindo pouco e entregando muito.

As obras do franco-canadense falam por si, constando no currículo invejável produções como Incêndios (2010), Os Suspeitos (2013), O Homem Duplicado (2013) e Sicário: Terra de Ninguém (2015) – sucesso no Festival do Rio do ano passado – só para citar os principais. Quando alguém com este talento prepara a sequência de uma obra extremamente cultuada como Blade Runner, subitamente os cinéfilos anti-continuações, remakes ou reboots, se pegam dando seu aval ao projeto. Villeneuve é desses realizadores cuja voz precisa ser ouvida, e cujos filmes serão interpretados e estudados ao longo dos tempos.

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Antes de ingressar pela Los Angeles futurista de 2049, época na qual se passará o novo Blade Runner, cujo título será literalmente tal data, Villeneuve testa o gênero da ficção científica com este A Chegada, e mais uma vez dá aula de cinema. Independente do nosso gosto e aceitação de determinada história – o que se refere exclusivamente ao roteiro criado – fazer cinema é muito mais do que isso. Um bom diretor trabalha bem todos os elementos componentes, dedicando-se minuciosamente a cada um deles, para que de forma geral as engrenagens funcionem de forma harmoniosa. Dessa maneira, se torna impossível para apreciadores do cinema como arte eximirem seus filmes de qualquer qualidade.

A Chegada desponta na corrida por indicações ao Oscar, merecendo sérias considerações, em especial na categoria de filme, direção e atuação para Amy Adams. Baseado no conto Story of Your Life, de Ted Chiang, A Chegada à primeira vista aparenta ser um Independence Day de arte, mais voltado para o drama, personagens e narrativa do que para a ação e efeitos. É muito mais que isso. É Villeneuve se vestindo de Kubrick e Malick para nos mostrar a invasão alienígena mais intimista da sétima arte.

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Diversas naves no formato de gigantescos casulos, ou conchas (como são citadas no filme) chegam ao nosso planeta e se posicionam em locais aleatórios. Ao contrário de Independence Day, os imensos artefatos pairam a esmo, sem que os estudiosos entendam a estratégia em vigor. Logo, oficiais das forças armadas, encabeçados por Forest Whitaker, chegam à porta da renomada linguista Dra. Louise Banks (Adams) e a levam para ser sua tradutora oficial, com a missão única de decifrar o dialeto das criaturas visitantes. O contato ocorre de forma bem menos megalômana do que no clássico de 1977 de Spielberg, e através de constantes encontros, a professora vai desvendando a comunicação com os avançados seres. Ao seu lado, Ian Donnelly (Jeremy Renner) é o cientista igualmente designado, formando um elo não militar com a protagonista.




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Ao mesmo tempo em que se depara e tenta assimilar a grandiloquência do irreal fato, que mudará para sempre a história da humanidade, a protagonista precisa lidar com outros bastante pessoais, como a perda da filha pequena. A mescla das duas subtramas é o grande segredo de A Chegada. O diretor desestrutura sua narrativa demonstrando pleno domínio como contador de história, brincando com sua audiência ao mesmo tempo em que a desafia, como fizeram e fazem mestres do passado e presente, vide Alfred Hitchcock e M. Night Shyamalan. A parte técnica conta com nomes como Bradford Young (Selma e O Ano Mais Violento) na fotografia, Joe Walker (12 Anos de Escravidão e Shame) na edição, e Jóhann Jóhannsson (Os Suspeitos e Sicario) na trilha sonora, e isso é tudo o que você precisa saber.

Quando o assunto é ficção científica e visitas alienígenas, imaginamos que tudo já tenha sido tentado. De Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), voltando para 2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968) e avançando para Contato (1997), diversas abordagens do que seria tal encontro já nos foram mostradas, por diferentes mestres do cinema. Villeneuve se junta a esta seleta lista, entregando um novo ângulo em sua interpretação e dando novo sabor a um prato há certo tempo tido como requentado.

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A Chegada é grandioso e mínimo ao mesmo tempo. Olha para o universo, para o planeta e para crises mundiais, de forma simultânea analisando um único ser e sua importância no contexto geral. É um desses filmes cuja mensagem pode render diversas interpretações a diversos grupos de pessoas, sem nunca perder a relevância. Consegue acertar na imposição do imediatismo se respaldando em temas atemporais. A façanha de A Chegada transcende sua própria estrutura de roteiro, quebrando o tecido da quarta parede narrativa, desafiando e redefinindo espaço e tempo para o espectador. Quantos outros filmes fizeram isto por você recentemente? Assista, reveja, analise e reflita. A Chegada é um dos filmes mais interessantes de 2016.

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