Crítica | A Qualquer Custo

Crítica | A Qualquer Custo

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Onde os Fracos têm Vez

Indicado para 4 prêmios no Oscar 2017, incluindo melhor filme, A Qualquer Custo é um retrato alarmista, mas nem por isso menos verídico, do reflexo da crise econômica norte-americana. O fantasma que assola os EUA já foi tema de diversas produções dos mais diferentes gêneros. Ano passado, por exemplo, um dos chamarizes da época de premiações foi A Grande Aposta. O tema tem seu representante este ano nas formas do novo longa do escocês David Mackenzie (Sentidos do Amor).

Escrito por Taylor Sheridan (Sicario: Terra de Ninguém), o roteiro apresenta a sucessão de assaltos a bancos realizados por uma dupla de irmãos em cidadezinhas no Texas. O motivo não é pura farra, tendo como objetivo uma razão bem mais honrada: captar dinheiro a fim de salvar a fazenda da família, que corre o risco de ser confiscada por falta de pagamento da hipoteca. Este é o estopim para um faroeste moderno, que faz jus aos grandes títulos do gênero, apresentando personagens bem definidos e defendidos por seus intérpretes, além de questões dignas e atemporais.




O relacionamento fraterno é bem desenvolvido pelo texto e corresponde no mesmo nível com as atuações de Chris Pine e Ben Foster, que vivem respectivamente o pai de família Toby Howard e o ex-presidiário Tanner Howard. Na dinâmica ladrão bom e ladrão mau já dá para imaginar quem é quem – se não faz ideia é só observar o tipo de personagem com o qual o metódico Foster construiu sua carreira. A sinceridade com que os jovens atores confeccionam suas performances nos faz querer assisti-los na tela por mais tempo, seja nervosamente praticando seus crimes, arrumando encrenca em postos de gasolina e com prostitutas em cassinos, ou simplesmente brincando pelos campos do árido cenário.

Em seu encalço está o Texas Ranger Marcus Hamilton (Jeff Bridges) e seu parceiro Alberto Parker (Gil Birmingham), parte nativo-americano, parte mexicano. O parceiro é alvo de piadas e comentários jocosos racistas por parte deste homem da lei da era paleozoica. A interação entre os dois funciona igualmente de forma cronometrada. O filme não tenta se desculpar pela intolerância e forma incorreta deste homem fora do tempo, apontando que o policial já não tem mais lugar em nosso mundo, como ele mesmo clama.

Os Texas Rangers, título que a legenda da Califórnia Filmes traduz erroneamente como ‘Guarda Florestal’, são na verdade uma antiga agência legislativa (com 194 anos de funcionamento), cuja jurisdição cobre todo o estado do Texas, onde podem aplicar a lei, funcionando como a força policial. O paralelo com a agência arcaica é bem traçado em relação ao personagem de Bridges, um sujeito rústico e cheio de ranhuras em sua vida pessoal. Pelo papel, o veterano ator recebe sua sétima indicação ao Oscar.




O roteirista Sheridan cria mais um drama criminal que reside na tênue linha acinzentada, transmutando mocinhos e bandidos e nos fazendo compreender ambos os lados. Enquanto em Sicario seus personagens iam até as últimas consequências para combater mega traficantes, em A Qualquer Custo o texto oferece afeto aos personagens fora da lei, justificando de certa forma seus atos, e demonizando o verdadeiro vilão, o sistema bancário dos EUA.

Se o texto de Sheridan cria camadas políticas nas entrelinhas, também abastece o conteúdo de seu neo western com as necessárias questões sociais. Além dos comentários irônicos do oficial de Bridges sobre outras raças, os índios – eternos inimigos dos caubóis em faroestes clássicos – ganham tributo no filme, reconhecendo o desfalque que a América lhes causou (o título anterior do longa era Comancheria, referência ao território no Texas ocupado pela tribo Comanche antes de 1860).

O impactante subtexto neste drama criminal é balanceado pela poesia cinematográfica do diretor Mackenzie, que exibe bastante técnica realçando esta, à primeira vista, simples história. O cineasta já abre o longa com um plano sequência, demonstrando pleno domínio da forma. Em outra cena, mostra um inquieto Bridges caminhando do quarto de hotel até a beira da estrada enquanto o crepúsculo se anuncia – prática similar foi utilizada em La La Land: Cantando Estações.

A Qualquer Custo tem mais em comum com o musical citado do que se pode, em um primeiro plano, notar – ambos pertencem aos gêneros mais produzidos na era de ouro de Hollywood. A semelhança também está no fato de que ao mesmo tempo em que respeitam e reverenciam suas raízes, utilizam-se da proposta de modernizá-los, comentando sobre  aonde se encaixam hoje. São obras como esta que mostram como passado e presente melhor se servem e complementam.


Assista nossas entrevistas com os Power Rangers e M. Night Shyamalan:



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