Crítica | Ao Cair da Noite – terror psicológico aborda o medo do comportamento humano

Crítica | Ao Cair da Noite – terror psicológico aborda o medo do comportamento humano

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Paranoia Enclausurada

Esqueça tudo o que você imagina sobre Ao Cair da Noite. Os elogios da imprensa estrangeira, a nota exuberante no Rotten Tomatoes (86% de aprovação) e o disse me disse do hype de que este é “o filme de terror do ano”. Você irá sair decepcionado e frustrado! Mas isso não é necessariamente uma coisa ruim, ou qualquer indício de que a produção escrita e dirigida pelo jovem cineasta Trey Edward Schults não possua inúmeras qualidades – ela possui sim.

Ao Cair da Noite chega para mostrar, entre outras coisas, o mau condicionamento do público atual. Se nossas expectativas não forem atendidas tendemos a desmerecer qualquer tentativa de originalidade. Se não assistirmos nos trailers e prévias quase o filme inteiro e se houver alguma surpresa escondida, o fato se torna uma tempestade num copo d´água. O curioso é que as mesmas pessoas que acusam os trailers de mostrarem demais, saem insatisfeitas quando são oferecidas algo inesperado, algo com o qual não estão acostumadas e que só tende a acrescentar o repertório de qualquer cinéfilo – enriquecendo-o. Afinal, para que queremos algo novo, se podemos ter a mesma ideia reciclada à exaustão?

Mas não sinta-se depreciado por estes comentários, afinal sair frustrado de Ao Cair da Noite mostra-se apenas humano, sentimento que permeou a mente inclusive de profissionais escolados, alguns com décadas de experiência. Este fiel amigo que vos fala, vivenciou o mesmo, inegavelmente. E o pior, sabendo o que me esperava. Obviamente, não recebi nenhum spoiler, mas fui alertado por colegas que haviam assistido ao filme antes sobre o que me aguardava. Mesmo assim, fui pego de surpresa. Portanto, sintam-se livres para terem sentimentos mistos sobre a obra.

     

Ao Cair da Noite é a segunda parceria do diretor Schults com a produtora A24, um dos grandes nomes atuais do cinema norte-americano. A diferença é que a A24 aposta no inusitado, aposta no diferente, nas chamadas ideias fora da caixinha. Justamente por isso, é dona de alguns dos filmes mais polêmicos e elogiados dos últimos anos, vide Spirng Breakers: Garotas Perigosas (2013), Sob a Pele (2014), Ex-Machina (2015) e A Bruxa (2016). Ou seja, de maneira alguma obras para todos os gostos. Uma coisa é certa, para apreciar as produções da casa, é preciso ter a mente muito aberta – e mesmo assim, isso não é garantia de que irá gostar, ao menos não de todas.

Na trama, uma família vive enclausurada numa casa na floresta. Sem recebermos todas as informações necessárias, presumimos que alguma espécie de vírus tomou conta do local. Esta é uma realidade apocalíptica. Pense em filmes como A Estrada (2009), de John Hillcoat, com Viggo Mortensen, ou Os Últimos na Terra (2015), de Craig Zobel, com Margot Robbie. Dentro do local, pai (Joel Edgerton), mãe (Carmen Ejogo) e filho (Kelvin Harrison Jr.) vivem uma rotina rigidamente regrada, com o único propósito de sobrevivência. Logo de início, ocorre a despedida do avô (David Pendleton), o quarto morador, que mesmo ausente terá grande peso nesta dinâmica. O cão da família também é um elemento de importância aqui.

A comida é racionada e máscaras de gás são constantemente usadas, em especial para as vezes em que é preciso sair da casa para buscar lenha e água. À noite, a ordem é permanecer dentro. Estabelecido o cenário desta assustadora realidade, o conflito é apresentado na forma de um estranho que chega ao local, vivido por Christopher Abbott. De potencial ameaça, o sujeito passa a aliado, ao apresentar sua família, igualmente necessitada – um espelho para a família protagonista. Riley Keough (uma das noivas de Mad Max: Estrada da Fúria), novo clone de Kristen Stewart (depois de Teresa Palmer), é a mãe do pequeno Andrew (Griffin Robert Faulkner). Os seis começam a viver juntos sob o mesmo teto e tudo poderia se encaminhar para um final feliz – não fosse este um thriller dramático.

Quem for esperando terror, sairá insatisfeito. Ao Cair da Noite não possui nada em comum com filmes de terror de grandes estúdios que são exibidos nos shoppings, como Invocação do Mal, Quando as Luzes se Apagam e O Homem Nas Trevas. Sua narrativa é a de cinema de arte, com ritmo deliberadamente lento, e estética que valoriza mais o cinema independente na hora de contar uma história. Atuações intensas, fotografia contemplativa, edição com menos cortes – alguns planos sequência são muito interessantes e bem vindos – e nenhum (ou poucos) sustos fáceis – os chamados jumpscares.

Ao Cair da Noite fala muito mais sobre nossos medos internos e transborda tópicos como paranoia, experimentando a forma como lidamos e convivemos sob circunstâncias extremas. O mal pode existir e estar lá fora, mas permeia todos nós, se mostrando muito mais perigoso e urgente quando é deflagrado de dentro para fora. Na era de Trump, o filme se apresenta como forte analogia, digna de diferentes conclusões e inúmeras possibilidades.


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