Crítica | Café Society

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Woody Allen volta à boa forma na nova década

É comum percebermos trejeitos e manias no cinema de diretores autorais. Variavelmente, eles retornam aos mesmos temas que marcaram suas vidas, adereçando-os dentro de qualquer gênero narrativo no qual produzam suas obras. Suas obsessões, medos, alegrias e interesses são as pitadas que vão permeando os filmes, uma degustação saborosa de ser encontrada pelos cinéfilos. Tais recorrências são sempre mais interessantes do que projetos sem alma, concebidos por diversas mentes num coquetel sem qualquer atrativo para o paladar menos exigente.

Os diretores autorais podem ser seguidos ou abandonados com a mesma facilidade, e o foram durante a história. Como exemplos, temos as carreiras de gente como Alfred Hitchcock, Roman Polanski, Kevin Smith e M. Night Shyamalan. No contexto, Woody Allen é um dos grandes. O octogenário paranoico, amante de jazz e fascinado por relacionamentos complicados, quase sempre envolvendo mulheres bem mais jovens que sua contraparte, reutiliza seu repertório de forma incansável, não sendo mais novidade há muito tempo para o cinéfilo mais inveterado.

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De tempos em tempos, Allen entrega um texto que ousa e quebra certa barreira dentro de sua muito estabelecida estrutura. Nesta década, o cineasta havia emplacado apenas duas vezes no quesito citado: Meia Noite em Paris (2011) – sua última indicação ao Oscar de melhor filme – e Blue Jasmine (2013) – homenagem a Tennessee Williams, que rendeu para a protagonista Cate Blanchett uma nova estatueta da Academia. Café Society chega para, em menor escala, se juntar a esta seleta lista.

Veja bem, Café Society não chega a ser uma das obras-primas da carreira de Woody Allen, no entanto, perto de leves deslizes como Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (2010), Para Roma, Com Amor (2012), Magia ao Luar (2014) e O Homem Irracional (2015), o novo trabalho do cineasta passa folgado. No filme, Allen volta a trabalhar com o jovem Jesse Eisenberg, que assume novamente a persona do diretor aqui – outro item na cartilha do autor, quando não trabalha em um de seus filmes como ator, possui sempre um personagem com suas características.

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Eisenberg vive o inocente Bobby, jovem saído do interior, com sonhos de ganhar a vida em Los Angeles. Como ponte para concretizar seus desejos está o tio, o poderoso Phil Stern (Steve Carell, substituindo Bruce Willis já durante as filmagens), um produtor magnata na era de ouro de Hollywood, período no qual o filme se passa. Após um breve gelo do tio, o rapaz finalmente consegue emprego, a princípio realizando afazeres rotineiros para o parente. Uma das cenas mais engraçadas escritas recentemente por Allen rola entre o protagonista e uma prostituta em início de carreira, vivida pela subestimada Anna Camp (A Escolha Perfeita), logo nos momentos iniciais.




Como o protagonista é novo na cidade, seu tio lhe arruma uma acompanhante para mostrá-lo o local. Ela vem nas formas da belíssima Kristen Stewart (cada vez mais estonteante, a jovem desabrochou em uma das mulheres mais bonitas da Hollywood atual), a secretária do poderoso. A paixão é instantânea, e quem pode culpa-lo, mas como nada na vida é fácil, a beldade já está tomada. E dessa forma se desenrola um jogo de gato e rato amoroso entre a dupla, confeccionado de forma mais sincera do que na maioria das comédias românticas que vemos anualmente. A química da dupla corresponde, afinal este já é seu terceiro trabalho juntos, sempre fazendo par, depois de Adventureland: Férias Frustradas de Verão (2009) e American Ultra: Armados e Alucinados (2015).

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Realmente Café Society não é novo para Allen ou nós, mas aqui o cineasta trabalha com vontade e coração. Sentimos um empenho maior nesta confecção do que em seus últimos projetos. Ajuda o fato desta ser uma obra de época, de possuir uma direção de arte, fotografia, figurinos e, por que não, atuações mais inspiradas. Por falar em fotografia, o italiano Victorio Storaro (vencedor de 3 Oscar) sai de um hiato de quase seis anos, resgatado pelo cineasta e entrega um trabalho exuberante. A impressão que ficou nos últimos filmes de Allen é a de que o diretor perde o rumo e encerra de qualquer forma. Aqui, ele se dá ao trabalho de ir até o fim com o mesmo gosto, e coloca a cereja no topo do bolo.

A máfia, o glamour da velha Hollywood, a típica família judaica (com direito a discussões e picuinhas mil) e socialismo versus capitalismo são tópicos englobados na obra, todos abordados sob a ótica única do veterano diretor, sempre satirizando tais temas e mostrando como são frágeis convicções quando o mundo é mundo. Fechando o elenco, Corey Stoll (Homem-Formiga) busca toda a graça truculenta do irmão mafioso Ben, Blake Lively dá o charme para a segunda Veronica na vida do protagonista, e a veterana Jeannie Berlin rouba todas as cenas cômicas na pele da matriarca Rose. A nova história de amor agridoce de Woody Allen pode até ser requentada, mas tem sabor gourmetizado.

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