Crítica | Certas Mulheres

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Monotonia Existencial

A cineasta norte-americana Kelly Reichardt não é estranha ao maior festival de cinema do Brasil, o Festival do Rio. Recentemente, há três anos para ser mais preciso, a diretora lançava Movimentos Noturnos (Night Moves) no evento, abrilhantado pela presença ilustre da ex-menina prodígio Dakota Fanning em terras cariocas. O ritmo letárgico, que funcionou tão bem em O Atalho (2010), um dos melhores faroestes dos últimos tempos, jogou contra o longa de suspense sobre ecoterrorismo. O problema está justamente na palavra suspense, que permeou O Atalho de forma eficiente, e se manteve de fora do sucessor.

Certas Mulheres é o novo drama de Reichardt, e aqui a diretora resolve fragmentar sua narrativa, dividindo o filme em três histórias, entrecruzadas por detalhes insignificantes, que não somam muito ao todo. Na primeira subtrama, a veterana Laura Dern (recém-saída de uma indicação ao Oscar por Livre) é a protagonista na pele da advogada Laura Wells. Ela está cuidando do caso de um cliente (papel de Jared Harris) com o emocional tão perturbado, beirando um colapso mental, ao ponto do sujeito inclusive ameaçar medidas extremas caso sua situação trabalhista não seja resolvida. Dito e feito, e em pouco tempo a advogada se vê precisando negociar com o homem, que armado faz refém em um prédio. O trecho ensaia certo suspense e utiliza emoções mais vibrantes em relação ao resto do longa, tirando-o momentaneamente da apatia.

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No segundo segmento, o mais sofrível e estagnado, Michelle Williams (retomando a parceria com a diretora, depois do citado O Atalho) é Gina Lewis, jovem mãe de família, lidando com a rebeldia da filha adolescente (Sara Rodier) e o pouco-caso do marido (papel de James Le Gros), que, segundo ela, sempre a faz soar como a vilã da dinâmica.  Os três vivem numa espécie de comunidade rural, em barracas, e fazem visitas constantes a um colega já idoso. Williams também marcou presença em Manchester à Beira Mar, um dos melhores filmes exibidos no Festival do Rio 2016.

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No terceiro conto, a renovada Kristen Stewart, mais uma vez arriscando no cinema independente e autoral, interpreta Beth Travis, professora de gestão escolar dando aulas noturnas como bico, sem grande afinco pelo emprego, em especial pela distância do deslocamento para outra cidade. Sua personagem neste aspecto guarda semelhanças com Maureen, papel que viveu em Personal Shopper, também presente no acervo do Festival do Rio 2016. Em pouco tempo, a jovem vira objeto de afeto de Jamie (Lily Gladstone), uma tratadora de cavalos, que irá persegui-la de forma intensa. O terceiro segmento reserva o teor agridoce de uma paixão platônica, bem desenvolvida pela cineasta e servida de boas atuações pela dupla Stewart (em mais um trabalho metódico) e Gladstone.

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Com o filme, Reichardt deseja abordar a vida de mulheres comuns, suas questões, dilemas e dia a dia, retratando assim também certa monotonia existencial e insatisfação abundante. O trio principal de mulheres se vê preso em suas próprias vidas, sem possibilidade de fuga, seja na frustração profissional (no caso da personagem de Stewart), na vida pessoal (no caso de Williams), ou em ambas (como Dern). Essa é a principal ligação entre tais personagens e suas histórias. O problema é que Reichardt, como de costume, utiliza um ritmo tão deliberadamente lento, que passa da linha se tornando sonolento e aborrecido. Mais do que nunca, a sensação de que nada acontece se faz presente e a narrativa é quase inexistente.

As atuações do trio estão na medida, com destaque para as de Stewart, Dern e Gladstone, deixando Williams relegada ao segundo plano, associada ao conto menos inspirado e mais sem vida. O cenário bucólico de cidadezinha do interior americano é perfeito e o pano de fundo ideal para as angústias femininas. Em contrapartida, temos como produtor o cineasta Todd Haynes, que conseguiu dialogar muito melhor com o universo de mulheres insatisfeitas em seu recente e premiado longa Carol (2015). O problema reside no texto de Reichardt, baseado nos contos de Maile Meloy, que não pulsa o suficiente para gerar conexão com o público, terminando quase sem fôlego. Como diretora, Reichardt é um dos nomes proeminentes do cenário indie norte-americano. E talvez precise levar uma séria conversa com sua contraparte roteirista.

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