Crítica | Colheita Amarga – Melodrama “mexicano” na Revolução Russa

Crítica | Colheita Amarga – Melodrama “mexicano” na Revolução Russa

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Doutor Jivago dos pobres

Dramas épicos históricos costumam chamar atenção de uma parcela do público e cair no radar de prêmios, como o Oscar. Isto é, se tiverem estofo para tal. Não é o caso com esta obra mequetrefe, protagonizada pelo dublê de ator Max Irons, filho do consagrado Jeremy Irons.

Escrito por Richard Bachynsky Hoover e dirigido pelo veterano George Mendeluk (que também assina o roteiro), essa produção canadense narra uma espécie de romance a la Romeo e Julieta em meio à Revolução Russa. Passado na Ucrânia na década de 1930 (na qual todos falam inglês indefectível), Colheita Amarga foca em uma pequena aldeia sofrendo com os avanços de Stalin ao poder, que implantou a ditadura comunista no país.

No vilarejo, Yuri (Irons) não tem aspirações de se tornar um trabalhador braçal como o pai (Barry Pepper) e o avô (o grande Terence Stamp), ao contrário, o rapaz tem alma de artista e persegue o sonho de se tornar um pintor. Sua paixão platônica juvenil em relação à bela Natalka (Samantha Barks) se desenvolve em algo mais intenso, e em logo os dois se casam. Porém, o protagonista precisará abandonar o lar e partir numa jornada pelo país – o que inclui uma temporada como simpatizante de partidos políticos opositores ao governo, e um período numa aterrorizante prisão.




Antes de mais nada preciso dizer que não devemos confundir a importância do tema retratado em um filme e o resultado do que vemos na tela. De um lado temos o peso do período histórico retratado neste longa, dedicado ao Holodomor, ou o Holocausto Ucraniano, no qual um verdadeiro genocídio matou mais de 10 milhões de pessoas devido ao frio e a fome. O governo de Josef Stalin privou diversas cidades de serem abastecidas de mantimentos. Isso por si só é um tema digno e que merece ser relatado no cinema quantas vezes puder, até mesmo por servir de conto cautelar para a época sombria na qual vivemos.

No entanto, o núcleo fervoroso desta história é completamente eclipsado por um roteiro mundano, orbitado por personagens sem a profundidade dramática exigida por uma tragédia como esta. A direção é equivocada e pinta o longa com tintas de aventura em seu início – como na cena em que o pai e o avô do personagem principal enfrentam soldados comunistas – e depois segue para um romance melodramático. É só no final, quando o filme tenta impor algum embasamento significativo ao estarrecedor ocorrido histórico que Colheita Amarga esboça uma vontade de sobressair.

Entre os inúmeros equívocos está a retratação de Stalin, vivido pelo ator Gary Oliver, desenhado como um vilão de James Bond – só faltou mesmo uma reunião com capangas na qual ele explica seu plano de dominação mundial. Bem, acho que nem isso faltou.

No lado positivo, a parte técnica é boa, com uma direção de arte e figurinos eficientes. A trilha sonora e os efeitos de som sobressaem – quando um filme não cai em nosso gosto, começamos a reparar nessas coisas.

Para este que vos fala, o grande chamariz aqui era a presença da bela e carismática Samantha Barks. A atriz conseguiu destaque no longuíssimo musical vencedor do Oscar Os Miseráveis (2012), tendo participado também anteriormente de sua versão nos palcos. O talento da moça no teatro chamou atenção dos produtores do filme, que a levaram às telonas no mesmo papel. Desde então, tenho esperado pacientemente algum outro trabalho da fotogênica jovem atriz britânica – se ao menos ela tivesse mais oportunidades. Mais e melhor sorte para ela no futuro.




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