Crítica | Dívida Perigosa – Jared Leto desafia a máfia japonesa em filme da Netflix

Scarface no Japão

Para entender um pouco no que consiste este The Outsider (Dívida Perigosa), novo lançamento Netflix, produzido e protagonizado pelo astro Jared Leto, é só imaginar uma mistura de O Poderoso Chefão (1972), Scarface (1983), os filmes de faroeste de Clint Eastwood e, é claro, os filmes de yakuza, a máfia japonesa, já que o longa se passa inteiramente no país do sol nascente, na década de 1950.

É curioso perceber a forma como Leto, hoje um astro mítico, conduz sua carreira. Devido a sua ocupação como frontman da banda 30 Seconds to Mars, Leto se afastou por alguns bons anos das telonas, retornando somente em 2013 para, não por menos, levar o Oscar de ator coadjuvante em Clube de Compras Dallas. Daí, foi mais um hiato de três anos e o retorno, alguns dizem furado, em Esquadrão Suicida, vivendo ninguém menos do que um dos grandes vilões do cinema (sim, não só dos quadrinhos): o Coringa. O exercício não rendeu o esperado, e Leto talvez não volte mais a viver o personagem. Ano passado, no entanto, o ator recuperou a forma (momentaneamente) e emplacou uma boa performance em Blade Runner 2049.

Disso tudo podemos perceber duas coisas. A primeira é que Leto se tornou um ator que escolhe meticulosamente seus projetos, mesmo que nem todos resultem no que ele planejou em sua cabeça. E a segunda, Leto tem se especializado em desempenhos pouco usuais e se morfado em personagens excêntricos e tão chamativos quanto os que Johnny Depp moldou sua carreira, por exemplo. Os de Leto, por outro lado, menos levados na comicidade, e mesmo com a caricatura, empenhados em densidade.




Então, a escolha do ator por este projeto, ao ponto de ocupar a função de produtor também, mostra certo afeto especial de alguém que não diz sim para tudo e só pega determinadas ofertas. Além disso, como dito, Leto desempenha mais um de seus papeis peculiares aqui, na pele de Nick Lowell, um sujeito perigoso e de pouquíssimas palavras.  De fato, ele está mais monossilábico neste filme do que na vida real, e se formos contar, este provavelmente é o longa no qual possui menos linhas de diálogos de toda sua filmografia.

Antes de Leto dizer sim ao projeto, no entanto, o filme teve Tom Hardy e o fantástico cineasta Takashii Miike (13 Assassinos) vinculados – fico me perguntando qual seria o resultado, no mínimo insano, caso Miike assumisse o projeto. No lugar do diretor nipônico, entrou o bem menos expressivo dinamarquês Martin Zandvliet (do indicado ao Oscar Terra de Minas). Mesmo longe do frenesi lisérgico que seria a obra caso comandada por Miike, o dinamarquês dá conta do recado, criando momentos muito bem construídos, um bom clima frio, tensão intensa, suspense e cenas impactantes. A direção de arte e fotografia chegam junto, elevando o status da produção.

Na trama, Leto vive Nick, um presidiário no Japão, que salva a vida de um companheiro detento, Kiyoshi (papel de Tadanobu Asano). Seguindo as tradições, já que este era membro de uma das maiores famílias mafiosas do Japão, uma vez ambos fora da prisão, o sujeito se certifica que sua organização acolha Nick como um dos membros. Aos poucos o protagonista mudo vai se provando e ganhando espaço dentro do clã, mesmo ainda sendo visto como um gaijn – um estrangeiro, o título original da obra igualmente. Assim, como nos melhores dramas criminais sobre máfia, passamos por desafetos de famílias rivais, muita violência, assassinatos, cobranças e, em se tratando da yakuza, tradições que somente os criminosos nipônicos possuem, como um pedido de desculpas formal para o patrão acompanhado de um dedo.

Fora isso, Dívida Perigosa serve para apresentar uma das figuras mais marcantes do ano no terreno do audiovisual, a jovem atriz Shioli Kutsuna, que vive a irmã de Kiyoshi. Com uma presença que não pode ser negada, a fotogênica e estonteante australiana, descendente de asiáticos, encanta do início ao fim, em todas as cenas que participa – ficamos desejando que tivesse uma relevância ainda maior para o todo, tamanho seu carisma.

Apesar das inúmeras qualidades, que nem de perto mereciam tamanho desprezo da imprensa especializada, sentimos que ficou faltando algo para que o longa ganhasse verdadeiramente destaque em nossas mentes e se tornasse especial. O problema se resume a isso: rotina. É inegável que Dívida Perigosa é um thriller rotineiro e mundano, que apesar de entreter e prender bem nossa atenção durante a exibição, não apresenta realmente nada de novo – e nos desafiará a guardar um momento sequer na mente. Fora isso, o desempenho robótico para o protagonista gelado e quase sem vida de Leto não está exatamente em sintonia com todo o resto. Em sua performance mais estranha dos últimos tempos, Leto soa tão aéreo que quase parece desinteressado.




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