Crítica | Doctor Foster

Crítica | Doctor Foster

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O revés psicológico de Doctor Foster.

Foi passeando pelos ‘adicionados recentemente’ da Netflix que me deparei com essa incrível série da BBC! Mesmo dentro de um resumo que poderia ser de uma história clichê, a série consegue se destacar por criar um ambiente de drama psicológico onde toda a narrativa foge do que somos acostumados a acompanhar em outras produções que tratam da mesma temática.

O que você precisa saber sobre a série é o seguinte: Gemma é uma médica toda boazona no seu trabalho e vive um casamento aparentemente normal e funcional com Simon. Os dois têm um filho chamado Tom, daquele estilo precoce e todo espertinho. Já no piloto da série, Gemma encontra um fio longo e loiro no cachecol que o marido usou no dia anterior. Daí pra frente, que comecem os jogos.

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A questão mais irrelevante sobre Doctor Foster é se há ou não uma traição, pois isso a gente descobre rápido. Interessante mesmo é o desdobramento do que a protagonista faz com as informações que ela recebe. A gente corre o risco de assistir 5 horas de série – são 5 episódios de 1 hora cada – sem saber entender muito bem como sente-se em relação à Gemma, pois o roteiro consegue dar alguns nós na nossa mente e fazer os nossos sentimentos oscilarem com frequência.

Desde o começo da série vemos Gemma como a base da família, mas não na função de esposa troféu e mãe zelosa. É ela quem trabalha duro, é nitidamente apaixonada pela carreira e certamente quem injeta dinheiro e permite a estabilidade financeira do lar. A paixão e a determinação na carreira são sempre citadas como motivo de orgulho tanto por Simon quanto por Tom, o filho do casal.

Ao começar uma investigação sobre a possível traição do marido, Gemma não poupa recursos. Envolve seus vizinhos, amigos dela, amigos dele, o filho e até alguns de seus pacientes. Começa a perder a conduta sempre ética que tinha dentro do trabalho, bagunçando a ordem de atendimento dos seus pacientes para agir de acordo com seus interesses. Ao cutucar o vespeiro, Gemma descobre que a traição do marido é um pormenor perto de todo um esquema que envolve pessoas de sua total confiança que não apenas sabiam da traição, mas também acobertavam Simon.

| PS: o artigo abaixo contém spoilers |




Daí pra frente começa toda a genialidade de uma produção que se permitiu sair dos padrões convencionais e dar ao público a resposta pra pergunta “e se no caso de uma traição a esposa pirar, o que pode acontecer?”. Gemma passa a manipular emocionalmente todos que estão ao seu redor e passando a criar verdadeiros jogos mentais dentro e fora de casa.

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No começo nós vemos a protagonista guardando tudo para si, ela vai remoendo a traição num emaranhado de falta de oportunidades e, algumas vezes, de vontade de jogar tudo na cara do marido. Ao começar a abrir a porta para o que seria a conversa mais dolorosa da sua vida, Gemma recebe uma sequencia infindável de negações e, ainda por cima, tem que assistir o marido falar que a falta de confiança dela está começando a passar dos limites. Em um determinado momento coletivamente doloroso para a família, Gemma resolve deixar as coisas como estão e dar uma segunda chance para o casamento, fato que dura pouco.

As negativas do marido quando ela já sabe de tudo que está acontecendo acabam por colocar a protagonista em um círculo obsessivo de coletar mais e mais fatos e saber de mais e mais coisas. Para nós só fica o questionamento de como ela vai agir e do que vai fazer com tudo aquilo, ainda mais considerando as vezes que ela pegou leve com o marido e resolveu seguir mantendo a aparência da família.

Tentando reinstalar um sistema de justiça, Gemma começa a dar as cartas nas relações de outras pessoas com o intuito de protegê-las. É assim que ela arranca um vagabundo e agressor da casa de uma de suas pacientes, dorme com o marido da vizinha como um blefe para conseguir as informações que quer e também fazer com que ele tenha que contar para a esposa que tem relações fora do casamento e faz com que um de seus pacientes fique numa sinuca de bico onde tem que contar para a esposa sobre uma doença séria que ele vinha escondendo.

Se você pensa que isso dá certo, fuén! Exceto pelo último caso, todos os tiros dados por Gemma saem pela culatra quando ela se enxerga em uma sociedade conivente com a traição como um modo eficaz para um casamento duradouro ou com uma mulher que aceita voltar para o namorado que a espancava e, se isso não fosse o bastante, ainda alia-se a ele para destruir a carreira de uma pessoa que a ajudou em várias ocasiões.

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Assim, pouco a pouco, ela vai perdendo a admiração do filho, é afastada do trabalho e não tem mais vontade nenhuma de estar no mesmo ambiente que o marido. Ela se refugia e pensa em afastar a família e chega a pensar em dar cabo da própria vida. Ao resolver não fazer isso, ela volta pra casa com a decisão de que não permitirá que as coisas continuem como estão. Nesse meio tempo ela já tem nas costas a traição do marido, dos amigos, a possibilidade de não conseguir retomar seu emprego e a ciência de que Simon, além de tudo, escondeu dela todas as tramoias que ele fez com o dinheiro da família (que é muito mais dela que qualquer outra coisa).

Com uma sequência final de tirar o fôlego, Doctor Foster coloca em seu último episódio toda a energia que as pessoas que não são habituadas ao ritmo geral de séries Britânicas esperou da série toda! O fight final entre Simon e Gemma é a coisa mais maravilhosa de sensacional da face da Terra!

Ao tentar justificar o injustificável, Simon erra feio, erra rude e recebe uma cartada à altura da esposa! Quem assistiu filmes como “Anticristo” (Lars von Trier) ou “A caixa” (Richard Kelly) vai sentir ótimas referências do final dos dois filmes ao ver Doctor Foster. Mas vale a pena lembrar que a minissérie anda na contramão das produções que costumamos ver.

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Enquanto séries que falam sobre política parecem ser as únicas que se encaixam atualmente no panorama Brasileiro, Doctor Foster dá uma amostra do empoderamento feminino do qual tanto estamos conversando por aqui também. A série pode, e deixou, muita gente em choque por abordar a traição por um panorama que não somos acostumados a ver, única e exclusivamente pela visão da mulher traída.

Tendo o próprio filho jogando contra si as questões do trabalho e do excesso de compromissos que não a permitem ser exatamente a mãe que seu filho desejava, Gemma não se permite abaixar a cabeça ou pensar em deixar de lado a profissão que escolheu ou as coisas pelas quais lutou durante a vida toda.

Vivemos em uma sociedade que ainda parece exigir que a mulher sempre tenha que ser a pessoa que oprime seus sonhos em favor da família, ou ser aquela que mantém todas as pontas atadas e mantém o equilíbrio da casa sem poder desabar. Parece ainda impensável a ideia de que a mulher possa ter dois ideais: constituir família e ter projeção de carreira. O papel da mulher segue estático como a pessoa que tem que sempre negar uma coisa para obter outra. Ela não pode ser o pilar financeiro da família ou sobressair em poder ao homem.

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Se fosse bela, recatada e do lar, Gemma nunca seria vista ou sequer respeitada por Simon. Poderia ter o carinho e companhia do filho, mas nunca seria admirada por ele. Poderia renegar um dom profissional que lhe foi concebido, sendo uma médica sempre procurada por pacientes que sentiam-se ironizados por outros profissionais. Parece que nada a respeito dela seria o suficiente para manter a família unida de qualquer modo, pois a traição do marido é justificada com um ato praticamente instintivo e que, segundo o marido, é totalmente natural para qualquer homem.

Doctor Foster foi um estouro de audiência na TV e virou um fenômeno na sua emissora, o que já vem com a promessa de uma segunda temporada, da qual ainda não sabemos exatamente o que esperar ainda, uma vez que as pontas de toda a trama da primeira temporada ficaram muito bem amarradas. Mais um ponto pra essa incrível produção que vale muito a pena ser assistida.

Mesmo com um ritmo mais lento, a série nos deixa com vontade de acompanhar quais serão os próximos passos da protagonista e seus episódios sempre terminam com algo que não nos deixa dormir até saber o que vai acontecer depois. Mesmo com um piloto mais lento, vale muito a pena continuar, afinal são só 5 horinhas que rendem uma maratoninha leve e de boas (não que você vá terminar a série leve e de boas).

Agora nos resta esperar pela segunda temporada para ver como continua essa série que leva, por esses 5 episódios, um 10 com méritos!

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