Crítica | Faces de Uma Mulher – viagem intrínseca pelo complicado universo feminino

Crítica | Faces de Uma Mulher – viagem intrínseca pelo complicado universo feminino

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Problemáticas Francesas

Traduzido direto do francês, o título original Orpheline, ou órfã, diz tudo sobre essa obra cujo mote são as realidades de cinco mulheres e suas problemáticas vidas. Quinto longa do cineasta Arnaud des Pallières, e o que segue seu filme mais conhecido (Michael Kohlhaas, com Mads Mikkelsen), com roteiro escrito pelo próprio, Faces de uma Mulher é um drama de narrativa fragmentada, funcionando praticamente na forma de uma antologia de contos, que se entrecruzam em certos pontos específicos (isto é, algumas das histórias).

Como ocorre em todas as produções confeccionadas em tal estilo, algumas histórias ou trechos acabam sobressaindo e eclipsando outras – um dos exemplos mais recentes é o fantástico Relatos Selvagens (2014), que igualmente reserva seus altos e baixos. Faces de uma Mulher, no entanto, possui seus segredos implícitos a serem revelados ao público mais atencioso e detalhista. A obra, na realidade, aborda a mesma personagem protagonista, ao longo das fases de sua vida – como aponta de forma indiscriminada o título em português.

A linha narrativa planejada pelo cineasta é propositalmente ludibriadora, já que ao longo de quatro subtramas a protagonista troca seu nome e atrizes, algumas de idades bem próximas na vida real (como Adèle Exarchopoulos, 24 anos, e Adèle Haenel, 28 anos), se revezam no papel. O embaralho cronológico é outra quebra de paradigma arquitetado por Pallières. Aqui, não existe uma ordem linear de acontecimentos na vida destas quatro mulheres diferentes, que na realidade são a mesma pessoa.

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Haenel (dos recentes Amor à Primeira Briga e A Garota Desconhecida) é quem abre e fecha o longa na pele Renée, professora colegial dedicada a crianças carentes. Ela está esperando o primeiro filho ao lado do namorado, e sua vida soa perfeita (pela primeira vez, como ficamos sabendo mais tarde). No entanto, o passado volta à tona na forma de Tara, golpista profissional recém-saída da detenção, com quem Renée teve relação no passado. Não demora para que o elo entre as duas seja feito e que a protagonista também seja procurada por crimes do passado.

Quando cito no início do texto a vida de cinco mulheres, incluo, além dos quatro fragmentos da protagonista, a vida de Tara também, um forte elemento divisor de águas e muito influente na personagem principal. Tara é interpretada com esmero, mas certa falta de ousadia que era pedida, pela britânica Gemma Arterton (Príncipe da Pérsia), fazendo valer seu francês. Por outro lado, a pequena Vega Cuzytek (Kiki) e Solène Rigot (Karine), vivem a personagem em momentos de menos brilho, certa previsibilidade e clichê dentro do roteiro, na infância e adolescência respectivamente. Suas personagens, porém, servem de base para a abalada psique da protagonista.

Além do nome conhecido da inglesa, outro rosto que chama atenção no elenco é o da francesa Exarchopoulos, que, caso você estivesse debaixo de uma rocha nos últimos quatro anos, participou de Azul é a Cor Mais Quente, um dos filmes mais comentados desde então. Os trechos com a atriz, personificando a protagonista em sua penúltima fase, com o nome Sandra, são os mais impactantes da trama – em especial os que mostram a relação com o “pai adotivo”. Faces de uma Mulher é um estudo feminino interessante, no qual um dos grandes trunfos é a desassociação das diversas personalidades inerentes a uma única pessoa, derivando de suas etapas ao longo da vida.


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