Crítica | Fargo

Crítica | Fargo

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E se você estiver certo e eles errados?

Se você consegue ler esse texto é porque tem mais de 2 anos de idade, ou seja, em 2014 e 2015 você estava bem vivo e pode ter ouvido falar em uma série que ganhou zilhões de premiações na época. Fargo fez a limpa nas categorias de séries e virou uma das séries mais comentadas nesse período, e com todos os motivos.

Uma das primeiras coisas que vai chamar a sua atenção é o prólogo que já te alerta que a história e baseada em fatos reais e que os nomes das pessoas envolvidas foram alterados, principalmente por respeito aos mortos. Quem leu sobre a série sabe que esse fator é questionável, ainda mais porque Fargo – o filme começa do mesmo modo e ambas histórias se desenvolvem de modos diferentes. Jogada ou não, deixa você pensando e tentando caçar a Fargo da vida real (mas não, você não vai achar referência nenhuma).




Em anos e anos de vício em séries eu nunca vi algo tão bonito quanto Fargo, a estética da série é acima de qualquer coisa que já foi vista! Direção impecável, um roteiro instigante e atuações de primeira. O primeiro episódio é, sem dúvidas, o melhor piloto de série que eu já vi, e olha que ele tem mais de uma hora que você simplesmente não vê passar… Mesmo!

A série mostra o revés na vida de um pacato vendedor chamado Lester Nygaard após a chegada de um estranho na cidade de Bemidji. Se você é um fã de carteirinha de How I met your mother, vale ressaltar que essa cidade fica em Minesota, a terra natal do nosso adorado Marshal e que várias vezes durante a série é citada com o lugar mais calmo e seguro da face da terra.

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Sabe quando você toma uma pedalada da vida e corre pras redes sociais pra escrever que cansou de ser bonzinho? Quem nunca se revoltou nos momentos que percebe que ser legal com a geral faz os outros te usarem de tapete e depois jogarem fora? Acho que todos nós. Eu não sei como vocês processam essa informação, eu sei como eu tenho aprendido a lidar com ela. E Fargo vai mostrar o efeito colateral do estouro de Lester, que cansa de ser um autêntico banana depois de ter a mente totalmente contaminada por um papo com Lorne Malvo num hospital, depois de ter literalmente tomado um fatality na cara por ser um cara legal.




Daí pra frente, nosso caro Lester vira o cara mais intolerante ever! Uma simples conversa sobre o barulho que a máquina de lavar faz leva o sujeito ao extremo, e daí a série começa a mostrar o efeito dominó das nossas atitudes, você faz uma cagada e tem de fazer sempre mais e mais para encobrir o primeiro erro.

A síntese da série é um cartaz que Lester tem fixado na parede do porão, que mostra um monte de peixes da mesma cor nadando na mesma direção e no meio deles apenas um de cor diferente nadando pro lado oposto. A mensagem da imagem é “what if you are right and they are wrong?“. E se todo moralismo da sociedade for mesmo um freio para tentar deixar toda a humanidade no mesmo patamar? É isso que passa a rodar na mente do bom mocinho que vira o vilão da história em dois tapas.

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O mais curioso da série é que geralmente quando você vê um cara bom começando a trilhar um caminho duvidoso a impressão que dá é que ele sempre estará profundamente desconfortável com isso. Lester parece o autêntico lobo em pele de cordeiro, um cara cuja mente já era contaminada de más intenções que só buscavam uma brecha pra acontecer. O cara já tinha uma mente programada pra se livrar de todo mundo que incomodava ele, ou que o humilhava por ele ser legal demais.

Já Malvo é aquele cara que surge pra plantar a sementinha do mal e se divertir ao ver o circo pegar fogo. Ele vira o guru espiritual (só se for do espírito de porco) de Lester. Como a polícia da cidade logo nota que a rotina local mudou com a chegada dele, ele passa a ser notado como o inimigo a ser combatido. Mas o cara é profissa e tem uma habilidade de nunca deixar um rastro que permita que as autoridades o mantenham preso. Você fica abismado com a esperteza e #chateado com a prepotência dele.

Fargo é uma série instigante e perspicaz. O mais interessante é o humor negro da série. Por mais que ela tenha momentos de tensão, eles acabam ganhando leveza pela atitude dos personagens, é uma das poucas séries que consegue trazer um sarcasmo tão grande pra violência que não causa nenhum tipo de repúdio em quem não gosta de séries desse gênero. Ela merece muito mais ser vista pela ótica do dilema psicológico do personagem principal do que pela premissa de ser uma série de investigação de crimes.

Com uma estética bem Tarantino de mostrar a violência, onde um assassinato é mostrado como se fosse uma obra de arte, o destaque da série vai para uma cena do sétimo episódio, onde Malvo entra em um prédio para se livrar de uma pessoa e manda fogo em qualquer pessoa que entre no seu caminho. Se você não gosta de cenas de violência, não se preocupe, você não verá nada do que está acontecendo mas saberá de tudo mesmo assim. É a cena de tiroteio – na qual você não vê nenhum tiro – mais lendária da história da TV. Para os apaixonados por fotografia em séries e filmes, é um daqueles momentos que olho brilha numa mistura de orgulho e lágrimas contidas.

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Em apenas 10 episódios, Fargo cumpre o que séries levam temporadas e temporadas para cumprir. Ela carrega em si todos os elementos necessários para atrair qualquer público e tem uma universalidade ímpar na sua linguagem. Ela é tipo o bacon das séries, você corre o risco de conhecer alguém que não gosta, mas quem ama é apaixonado de corpo e alma e não consegue passar indiferente por essa produção primordiosa.

Uma vez assistida, não há como apagar da memória. Fargo é como aquela paixão que você tem e que te deixa um dia, você tem certeza que nunca vai achar algo igual na vida ou algo que possa suprir o vazio que ela deixou. Atualmente tá rolando um spin off da série, ela vota no tempo para contar a história de um ex policial da cidade, muito antes de Malvo chegar lá. Eu ainda não vi, mas tô instigada e já já chego lá e volto aqui pra falar dela com vocês.

Eu não gosto de dar detalhes que possam deixar as pessoas com uma pré-disposição a pensar algo, mas quem já assistiu e quem há de ver notará com tristeza a deslizada no final da série. Por ter sido uma série tão bem dirigida e ter um dos melhores roteiros de todos os tempos, o final acaba estragando um pouco o legado e tudo que a série se esforça em mostrar em TODOS seus perfeitos episódios. Assim como o Rotten Tomatoes, fica complicado dar nota máxima pra série, mas ela chega muito perto, merecendo um 9,8 e uma forte indicação de ASSISTA AGORA!

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