Crítica | Kubo e as Cordas Mágicas

Crítica | Kubo e as Cordas Mágicas

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Cultura Japonesa encontra Beatles na nova obra de excelência dos estúdios Laika

O gênero animação foi o que mais evoluiu esteticamente ao longo dos anos. Hoje, as criações 3D de computadores dominam o mercado, se mostrando uma técnica eficiente, mais rica em detalhes e menos custosa. Antes criados através de desenhos à mão, os longas animados foram inteiramente substituídos pela ‘técnica do futuro’, prenunciada por Toy Story (1995) e pelo tupiniquim Cassiopéia (1996), que ainda deseja crédito pelo pioneirismo.

Bem, para toda regra existe exceção, e alguns guerreiros guardam intensamente seus fortes, resistindo com estéticas quase dizimadas pelo tempo. O estúdio japonês Ghibli é um dos nomes quando o assunto é animação tradicional, daquele tipo que reinava na era pré-3D. Correndo em paralelo, o stop-motion sempre foi o primo pobre da animação e servia mais para mesclar atores com criaturas inexistentes. O stop motion tem como marco o ícone Ray Harryhausen, fez escola para Tim Burton e hoje vê no estúdio Laika um dos maiores representantes.

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Coraline e o Mundo Secreto (2009), ParaNorman (2012) e Os Boxtrolls (2014) são as produções que a Laika possui no cinturão, e agora Kubo e as Cordas Mágicas se junta à seleta lista. A técnica utilizada pelo estúdio exala um realismo maior na animação, dando aspecto palpável aos personagens, e menos impressão de estarmos vendo um “desenho” opaco. Ajuda o fato dos personagens existirem como objetos inanimados em nosso mundo, manejados por seus criadores, ao contrário de habitarem somente o universo virtual.

Obviamente a técnica é bem mais trabalhosa e exige mais tempo para ser confeccionada, o que torna ainda mais impressionante e louvável sua remanescência. Além da técnica, a Laika usa constantemente em seus roteiros temas sobrenaturais e assombrosos, talvez intensos demais para crianças menores, quase sempre recomendados também para os pais. ParaNorman, por exemplo, era banhado em referências aos anos 1980, que os pequeninos não pescariam.

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Com Kubo, a Laika decide investir na abordagem à cultura japonesa, mergulhando na mitologia nipônica, para contar a história do pequeno e otimista personagem título – seus protagonistas são sempre crianças descobrindo novos mundos. Kubo (voz de Art Parkinson no original) é um menino criado pela mãe catatônica, num vilarejo do Japão antigo. Os dois vivem em uma caverna no alto da montanha, já que, apesar do menino cuidar mais da mãe atualmente do que o contrário, a matriarca resguarda sua cria, com medo do que acontecerá se seu paradeiro for descoberto. Aos poucos as histórias que a mulher conta ao filho passam de somente lendas antigas, para perigos bem reais.




Depois que é encontrado pelas macabras tias (voz de Rooney Mara no original), Kubo parte em uma jornada para descobrir suas raízes e ao mesmo tempo pôr fim a uma maldição. Ao seu lado, uma macaca (voz de Charlize Theron no original) e um guerreiro besouro (voz de Matthew McConaughey no original) serão a proteção necessária e os personagens secundários servindo de alívio cômico. As figuras excêntricas são algumas das referências no roteiro de Marc Haimes e Chris Butler, baseado na história de Shannon Tindle e do próprio Haimes, no quesito mitologia japonesa, que ainda utiliza origamis, canções, artefatos (como espadas e armaduras mágicas) e ensinamentos tipicamente saídos do país asiático, salpicado ao longo do filme.

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Kubo e as Cordas Mágicas é belíssimo esteticamente e muito bem trabalhado, principalmente nas coisas simples, como feições de personagens e no texto proferido pelos lábios artificiais, nos quais podemos fazer a leitura exata. Travis Knight, prata da casa e chefe de animação em todas as propriedades do estúdio, faz a transição e assume o comando de seu primeiro filme. O resultado é no mínimo satisfatório, demonstrando que Knight impõe um ritmo mais apropriado e intenso do que os antecessores Graham Annable e Anthony Stacchi, que estiveram à frente de Os Boxtrolls, a obra mais inconsistente da casa de ideias.

Mesclando com perfeição humor, ação, teor sombrio, clima de aventura e a beleza, lendas e cultura do país milenar, Kubo e as Cordas Mágicas possui poucos momentos descartáveis, funcionando bem em sua linha narrativa e conseguindo inclusive emocionar – elemento que poucos dominam dentro do gênero. Além disso, a Laika segue demonstrando que liberdade e originalidade ainda são mais afluentes longe de grandes estúdios, que dominam o mercado. Com delicadeza de sentimentos e a melhor versão adaptada da canção “While My Guitar Gently Weeps”, dos Beatles, inserida na trama, Kubo e as Cordas Mágicas já nasce um clássico no segmento.

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