Crítica | Leviatã

Crítica | Leviatã

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UM FILME QUE NOS FALA

 

O Estado, segundo parte da filosofia, tornou-se uma divindade moderna. Nessa espécie de religião secular, as pessoas depositaram nele suas esperanças. E pode até ser ateu para seguir essa divindade. Se lembrarmos de povos que seguiram líderes políticos inspirados por ideologias (como o nazismo e o maoismo), fica bem clara a dimensão divina do Estado.

Para um filme como o russo Leviatã (Leviathan), essa ideia fornece uma ótima perspectiva. No universo criado pelo diretor Andrey Zvyagintsev, não há nenhuma divindade além do Estado. A igreja é corrupta e seus padres não têm convicção – vejam o jeito borocoxô do padre ao falar da história de Jó. A natureza está devastada: pedras, árvores secas, a ossada de uma baleia. Deus morreu e só restou o Estado, este Leviatã que irá esmagar a vida de Nikolay ‘Kolia’ (Aleksey Serebryakov).




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‘Kolia’ está próximo de perder sua casa, desapropriada pela prefeitura. Em pouco tempo, percebemos que o prefeito Vadim (o excelente Ramon Madyanov), uma versão do ex-presidente russo Boris Yeltsin, não tem nenhuma finalidade nobre para a casa. Como última alternativa, ‘Kolia’ chama Dimitriy (Vladimir Vdovichencov) um velho amigo e advogado em Moscou.

O filme expõe os efeitos terríveis que a soma entre um Estado excessivo que não respeita direitos individuais e a corrupção patológica provoca na vida de uma pessoa comum. Neste ponto, o filme retrata uma realidade muito próxima da gente, aqui no Brasil. Os problemas que ‘Kolia’ enfrenta – Estado inchado, corrupção, uma visão de que o individuo é menos relevante que a coletividade, miséria – também enfrentamos aqui. Não é exagero dizer que não seria necessário mudar nada no roteiro para que ele fosse rodado por aqui – ok, trocaríamos a vodka pela cachaça.




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O processo de desapropriação é apenas o ponto inicial. Outros problemas, aparentemente sem ligação, vão surgindo na vida de ‘Kolia’. O diretor Zvyagintsev liga todos os problemas na vida do protagonista à ação dos agentes corruptos do Estado. Se o Deus bíblico levou Jó ao limite para testar sua fé, o Estado não quer testar, mas destruir. Como um Leviatã, ele apenas causa devastação. Sozinho no mundo, sem nenhuma metafísica ou fé, o descrente ‘Kolia’ não tem nenhum outro Deus que possa lhe enviar um Behemoth* para lhe proteger.

 

* Behemoth é, assim como Leviatã, um monstro da mitologia bíblica. Segundo a tradição judaica, ele seria enviado por Deus para enfrentar Leviatã. Nesta luta, ambos morreriam.

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