Crítica | Manchester à Beira Mar

Crítica | Manchester à Beira Mar

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Maravilhoso Sofrimento

A esta altura Manchester à Beira Mar é um forte concorrente a vencer algumas estatuetas na próxima edição do Oscar. Perceberam que eu disse vencer? Sim, porque indicações para o filme estão basicamente garantidas. O que ocorre é que a produção têm aparecido em todas as listas de premiações que já começaram a pipocar e servem como forte termômetro da grande noite do cinema mundial.

Quando assisti ao filme em outubro passado, durante o Festival do Rio, a coisa não era tão óbvia assim. De qualquer forma, já na época, este humilde jornalista que vos fala tinha certeza de ter visto um dos melhores filmes do ano.

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A sutileza com que o cineasta Kenneth Lonergan conduz sua história (ele é o autor do roteiro original também) de tragédia quase melodramática (o que poderia ser o calcanhar de Aquiles da obra) é o estandarte do longa. Outra grande qualidade de sua segura direção é nos transportar para o cenário frio, porém, acolhedor da pesqueira Manchester by the Sea, Massachusetts, nos EUA, instantaneamente entrando para o hall de lugarejos bucólicos que adicionam grande parte do sentimento da trama.

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A melancolia reina também na alma do protagonista Lee Chandler (Casey Affleck), o herói mais trágico de 2016 e provavelmente da década no cinema. Inicialmente Matt Damon seria o personagem principal, o que marcaria a reunião com Lonergan após o problemático Margaret (2011), filme que quase pôs fim na carreira do diretor no mercado. Damon, que a certa altura também estava vinculado à direção do filme, precisou se ausentar do projeto – servindo apenas como produtor – e entregou um presentaço para o irmão Affleck (a amizade de Damon com Ben Affleck, irmão de Casey, ficou famosa em Hollywood).

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Mostrando que a vida é feita de renovação, Lonergan volta ao radar, no melhor estilo David O. Russell (também considerado um cineasta maldito por um longo período), e se vê como um dos nomes mais quentes da indústria. Bom para ele. E o melhor é que de fato merece a atenção. O diretor constrói sua narrativa em duas linhas temporais, o que a princípio causa estranheza, até finalmente nos situarmos e compreendermos o que acontece e quando. Uma vez compreendido, se torna um artifício prazeroso de ser absorvido.

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No passado, Lee é um sujeito simples, casado com Randi (Michelle Williams, numa performance de poucas cenas, igualmente certa de abocanhar alguns prêmios – sim, é boa neste nível), que sofre um enorme baque da vida, quando uma das tragédias mais dilacerantes e inconcebíveis se abate sobre ele. Anos depois e o sujeito precisa lidar com outra experiência traumática, a morte de seu irmão Joe (Kyle Chandler). Como último desejo, Joe deixa a guarda do filho, hoje um adolescente colegial de 16 anos, vivido de forma certeira pelo novato Lucas Hedges (a grande surpresa do longa), para o protagonista. A pegadinha é que não poderia existir alguém no mundo menos apto para a tarefa do que o personagem de Affleck.

A interação entre Affleck e Hedges rende alguns dos momentos mais memoráveis do ano no cinema. A forma com que o relacionamento é desenvolvido pelos atores e pelo cineasta é única. Apesar da “sofrência”, Manchester à Beira Mar entrega também boas risadas, acredite, providas basicamente do rouba cenas Hedges. A dor da perda utilizada como tema, e a forma como lidamos com isso, há tempos não era tão minuciosamente trabalhada. Os envolvidos, em especial Lonergan, estão de parabéns pela tamanha sensibilidade, e a criação de um produto artístico que não nos deixará mais, ressoando para sempre em nossas mentes e corações. E que venha o Oscar.


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