Crítica | Mindhunter – Agentes do FBI estudam psicopatas na nova série de David Fincher

Crítica | Mindhunter – Agentes do FBI estudam psicopatas na nova série de David Fincher

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Serial Killers Begins

Se hoje profissionais podem identificar e tentar antever certos padrões no comportamento de psicopatas e assassinos em série, tidos à primeira vista como pessoas normais, temos que agradecer a Holden Ford, Bill Tench e Wendy Carr, cujo estudo detalhado e minucioso da mente distorcida de alguns criminosos ainda na década de 1970, levou à luz certas descobertas estabelecidas até hoje. Bem, ao menos na ficção. O trio, na verdade, são os protagonistas da nova série Netflix, Mindhunter, produzida pelo talentoso cineasta David Fincher (que também dirige quatro dos dez episódios da primeira temporada) e pela estrela Charlize Theron.

Os dois, se formos pensar, não são nem um pouco estranhos ao tópico, tendo trabalhado com o tema ao longo de sua carreira. Em especial Fincher, cuja filmografia foi pautada pela temática, podemos dizer. Filmes como Seven (1995), Zodíaco (2007), Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2011) e Garota Exemplar (2014), lidam diretamente com psicopatas e assassinos em série, dos mais variados tipos e estilos dentro de um grande leque. Até mesmo seus outros trabalhos, vide Clube da Luta (1999) e O Quarto Do Pânico (2002), enfatizam personagens com algum tipo de desvio psicológico grave. Já Charlize Theron, ganhou seu Oscar ao interpretar Aileen Wuornos em Monster: Desejo Assassino (2003), de Patty Jenkins, uma das raríssimas mulheres serial killers da história; e mais recentemente, protagonizou Lugares Escuros (2015), escrito por Gillian Flynn, que aborda traumas irreparáveis e suas consequências psicologicamente devastadoras.

A trama de Mindhunter, no entanto, volta no tempo, para o começo de tudo. Nesta época, os crimes eram comumente atribuídos em sua maioria a dois tipos de motivos: dinheiro e paixão. Se um assassinato era cometido, e não era seguido de roubo, era só procurar pelo amante ou marido traído que o culpado seria encontrado. A década de 1970 trouxe entre outras coisas – como o movimento hippie, o uso de novos entorpecentes e a era do amor livre (além da muito positiva liberação feminina, outro tópico dignamente abordado pela série) – os primeiros assassinatos sem motivo. Estranhos estavam se matando a troco de nada, simplesmente porque desejavam.

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Crimes sem motivo, cometidos por desconhecidos, surgiam como nova verdade aterradora, sinal dos tempos modernos. E surgiam para chocar até mesmo oficiais encarregados das investigações. No meio desta onda revolucionária, entra em cena Holden Ford, papel de Jonathan Groff (da série gay Looking), jovem agente do FBI, de 29 anos, ambicioso e antenado com novas tendências e estudos. Seu forte é a psicologia, e a partir desta área irá conduzir um longo experimento, repleto de pesquisas, que envolve inclusive visitas a assassinos condenados nos presídios para entrevistas, a fim de descortinar seus passados e assim traçar um modelo operacional. Entre eles, Edmund ‘Ed’ Kemper (Cameron Britton), psicopata que fez inúmeras vítimas, todas mulheres, incluindo sua própria mãe, a quem decapitou e depois violou sexualmente a cabeça decepada. De Kemper, o protagonista aprende que os distúrbios muitas vezes vêm associados aos maus tratos familiares, sofridos durante anos e anos de muito abuso verbal, psicológico e físico.

A descrição acima pode ser impactante, mas Mindhunter não é uma série explícita. Ou sequer pode ser chamada de suspense. A proposta é muito mais o desenvolvimento de investigações e estudos, ao menos nesta primeira temporada, do que cenas de medo, por exemplo. O procedimento da investigação, inclusive,  se aproxima muito da realidade e ninguém aqui sai à caça usando armas e lanternas. É uma busca quase monótona, onde o que vale é a inteligência e a interpretação das situações e fatos. Não por menos, Holden é conhecido como uma versão moderna de Sherlock Holmes pelos amigos da lei. Na maior parte da dinâmica da narrativa, vemos os oficiais interrogando prisioneiros, estudando tudo que os cerca, no terreno comportamental e psicológico, e depois tentando colocar em prática o que aprenderam. O fato pode afastar os que esperam um ritmo mais acelerado. Mindhunter utiliza um ritmo deliberadamente lento, e como disse nossa querida Karolen Passos, fã da série, é um programa estilo “slow burn”, que toma seu tempo para se desenvolver.

Para mim, esta certa repetição de narrativa e estrutura a cada episódio é seu calcanhar de Aquiles também, tornando o seriado uma experiência não indicada para ser “maratonada”. Em contrapartida, o que evolui num ritmo mais vigoroso a cada episódio é o relacionamento do semi robótico Holden com a estudante Debbie, papel da gracinha Hannah Gross, a melhor personagem da série. A jovem de 24 anos é uma personagem decidida, uma mulher moderna em meados da década de 1970, que chega para desafiar não apenas o namorado, mas a sociedade ainda se deparando com grandes mudanças e sem saber exatamente como se comportar. Alguns dos melhores diálogos do programa são os criados para a personagem, e Gross a defende muito bem, com um misto de soberba, muita segurança, inteligência, humor sarcástico e, claro, girl power de sobra.

Quem também rouba a cena é justamente Cameron Britton, na pele do calmo sociopata Kemper, de fala macia, bem humorado e erudito. Contraponto ideal para sua figura de gigante ameaçador. Outros jogadores principais aqui são Bill Tench (Holt McCallany, de Jack Reacher – Sem Retorno), agente veterano do FBI, que pega o protagonista sob suas asas e juntos desenvolvem uma parceria profissional e uma inusitada amizade. A dupla sai pelas estradas ensinando todos os conhecimentos adquiridos para as delegacias através dos estados norte-americanos. Com isso, policiais também saberão como agir quando se depararem com os mais bizarros casos. Muito mais emotivo e de pavio curto, Tench tem seus próprios demônios internos em casa, no relacionamento com o filho pequeno nada comunicativo. A terceira parte desta equação surge a partir do terceiro episódio, nas formas de Wendy Carr, professora da área de psicologia recrutada pelo FBI, interpretada pela veterana da TV Anna Torv (da série Fringe). A personagem de Torv é dona de um dos arcos mais interessantes do roteiro, com certas reviravoltas vindas de sua vida pessoal.

Todos os itens no quesito técnico que nos transportam de volta para uma década de 1970 que não é a esperada – forte contraste com séries recentes da HBO que focam no mesmo período, vide Vinyl (2016) e a atual The Deuce, por exemplo – estão em perfeita harmonia e criam um visual lindíssimo para o projeto desenvolvido por Joe Penhall. Outro detalhe diferencial é que ao contrário da fórmula da maioria das séries atuais, Mindhunter não deixa o término de seus episódios em um cliffhanger, fazendo o público ansiar pelo próximo, o que a torna novamente única. Apesar disso, o programa constrói sim algumas questões sem resposta e deixa, em especial no desfecho, o terreno preparado para a continuação. Esta incursão perigosa pelas mais cruéis psiques humanas já fez o grande público, segundo o IMDB, a eleger como 50ª melhor série de todos os tempos. Precoce? Sim. Despropositado? Todos os sinais indicam que não.


Crítica Liga da Justiça


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