Crítica | O Nascimento de uma Nação

Crítica | O Nascimento de uma Nação

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Escrevendo Certo por Linhas Tortas

O ano de 2016 ficará marcado por suas polêmicas e divergências políticas, acentuando como nunca antes os diferentes pontos de vista. No cinema, a coisa não ficou muito distante. Além dos nerds em fúria defendendo ou atacando blockbusters como Batman VS. Superman e Esquadrão Suicida, tivemos a causa feminista tomando as dores e combatendo os haters de Caça-Fantasmas. Saindo do cenário pipoca para o cinema de arte, diretores renomados como Nicolas Winding Refn e Olivier Assayas foram vaiados no prestigiado festival de Cannes ao exibirem seus últimos trabalhos, Demônio de Neon e Personal Shopper, respectivamente.

No cinema nacional, em um ano de excelentes exemplares, a coisa não ficou atrás, e Aquarius incitou o fervor ao protestar no mesmo evento sobre os acontecimentos políticos no Brasil. Tido por muitos como o melhor filme nacional do ano, ou de anos recentes, o filme ficou de fora da corrida pelo Oscar, quando Pequeno Segredo (que estreia em grande circuito neste fim de semana finalmente) foi o selecionado para representar o país. Mais polêmica, porque toda é pouca.

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Bem, toda essa introdução sobre as controvérsias cinematográficas de 2016 serve para apresentar O Nascimento de uma Nação, o filme mais fervoroso do ano, igualmente fonte de falatórios intermináveis. O cineasta Nate Parker, até então um ator de carreira pouco expressiva na sétima arte, dá o grande passo em sua filmografia, dominando a cena e atacando em quase todas (as principais) posições na produção. Parker dirige, protagoniza, produz e escreve o roteiro do longa, pegando para si a difícil tarefa de ser o nome por trás do projeto. Pode-se afirmar sem medo que Parker deixa sua marca na história do cinema.

Você deve estar se perguntando, O Nascimento de uma Nação não é aquela obra clássica de 1915, dirigida por D.W. Griffith, estudada na maioria das faculdades de cinema do mundo por sua parte técnica, mas visto com maus olhos hoje devido ao seu conteúdo racista. Sim, e a grande sacada inicial de Parker foi justamente chamar atenção para projeto ao dar o mesmo título, porém, subvertendo seu conteúdo de mau gosto ao focar no ponto de vista dos escravos.

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Na trama, Parker interpreta Nat Turner, escravo criado desde menino na mesma plantação de algodão, no condado de Southampton, na Virgínia, por volta de 1830. No local, a dona da casa (papel da veterana Penelope Ann Miller) o ensina a ler e cuida de sua educação, o que futuramente servirá para seu dom da palavra, pregando a bíblia para seus irmãos sofridos. A ambientação do longa é certeira, mas conhecida. É um território que o cinema gosta (e precisa) de revisitar de tempos em tempos, sendo um dos exemplares mais recentes, o necessário 12 Anos de Escravidão (2012) – em breve voltarei neste ponto para apresentar a grande diferença entre os filmes.




O Nascimento de uma Nação vai fundo na força do soco, sem recuar. A violência gráfica, mas não gratuita, choca e se faz presente pincelando a obra. Filmes sobre escravidão procuram retratar de forma crível um período horrendo da humanidade, não se afastando do sofrimento inimaginável e da crueldade que fomos ou somos capazes. Baseando em eventos históricos, o longa retrata uma rebelião de escravos que durou 48 horas e serviu como quebra de barreira para outras insurreições. Estruturalmente, o roteiro trabalha bem as motivações de personagens, construindo uma crescente de pressão prestes a explodir. E quando de fato explode, ela vem regada a ferro e fogo. A jornada do filme é seu alicerce e a rebelião de fato, sua consequência extrema.

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O diretor trabalha bem o arco de seu protagonista, passando de um pastor que prega a palavra à líder de um grupo cansado de esperar, cansado de ser maltratado, que resolve fazer justiça com as próprias mãos, levantando diversas outras questões dignas de debates. O Nascimento de uma Nação é uma obra acima de tudo corajosa. Expõe não somente o que foi sofrido, mas o que foi infligido, testando os limites do extremismo. Afinal, nenhuma revolução é feita sem sangue. Outra coragem do filme de Parker é não ter o respaldo de personagens brancos como salvadores, uma tendência em Hollywood (daí a grande diferença com 12 Anos de Escravidão – não existem brancos canonizados aqui). Na parte do elenco, vale destacar os desempenhos de Armie Hammer e Jackie Earle Haley vivendo personagens importantes, além, é claro, da performance inflamada do diretor/protagonista.

O Nascimento de uma Nação já deixa seu legado e isso nenhum passado negro ou polêmica pessoal será capaz de apagar. No entanto, será uma pena se a mancha do passado pessoal de Parker desviar a importância merecida da obra em época de premiações. Homens são falhos, obras de arte são eternas.

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