Crítica | O Nó do Diabo – Uma história de horror brasileira

Crítica | O Nó do Diabo – Uma história de horror brasileira

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O núcleo de cinema de horror brasileiro está comendo pelas beiradas e conquistando seu espaço e prestígio. O cinema nacional, que nunca conseguiu ser um cinema de gênero, agora está vendo em produções premiadas como o ótimo As Boas Maneiras’, a chance de atrair um público que consome fielmente os filmes de terror estrangeiros, mas que nunca deram uma chance sequer ao que está sendo feito por aqui. Agora, com o crescimento e confiança do espectador, projetos menores, mas não menos interessantes, como é o caso do longa O Nó do Diabo, estão surgindo à superfície e provando que nossos cineastas também sabem assustar, e como sabem.

Aproveitando uma trama criativa e original, o longa de terror é, na verdade, cinco contos unidos, que apesar de cada um possuir uma história própria e se passar em um ano distinto, todos funcionam como uma única unidade, com pequenas e macabras conexões entre si, algo semelhante as temporadas do seriado American Horror Story, mostrando o local onde a trama se passa em diferentes épocas, começando em 2018 e se encerrando em 1818, em um antigo engenho do Nordeste.

Apesar de ter o terror como pano de fundo, o foco principal dos pequenos filmes é criticar o histórico passado racista do Brasil e suas consequências, abordado de diversas formas, desde o homem branco que defende seu terreno abandonado com medo de que negros possam assumir o lugar, até fantasmas e zumbis que dominaram aquela terra amaldiçoada. E, assim como Corra!’ fez, o longa trata a questão do ponto de vista das vítimas, se preocupando em mostrar os absurdos pelos quais passaram. O que assusta saber que todo aquele terror não existiu apenas na ficção e o pior, não se extinguiu por completo até hoje.




O laço que emenda as histórias é coeso e criativo, o que se completa pelo elenco talentoso, que visivelmente se dedicou ao trabalho de retratar aquela realidade de forma fiel, além de veteranos como Zezé Motta, a estrela em ascensão Isabél Zuaa (As Boas Maneiras) também brilha, mais uma vez. Mérito também da direção dos cineastas Ramon Porto Mota (Partes 1 e 5), Gabriel Martins, Ian Abé e Jhésus Tribuzi, que sabem extrair a dor dos atores e utilizar esse projeto como um experimento em que podem ousar em enquadramentos e narrativas diferentes, somados a uma fotografia lavada, que eleva o ar de antigo, durante o dia, e de medo e escuridão, durante a noite.

Agora, olhando de forma individual, todos os curtas levam a trama adiante, de trás para frente (ordem cronológica dos eventos), sendo assim, o Parte 1 retrata uma realidade atual, a mais fraca entre todas e que talvez devesse ser ainda mais assustadora que o passado, uma falha de roteiro. Porém, logo a Parte 2 assume a ideia geral: causar terror e desconforto. Partindo desse princípio, os caminhos tomados envolvem experimentação com o sobrenatural, como acontece na ótima Parte 3 e com uma narrativa complexa, que explora o místico de forma poética, na Parte 4, se encerrando com um final digno dos mais macabros filmes de terror de George A. Romero, na Parte 5.

Mesmo com pequenas falhas nos roteiros das tramas, a soma do conjunto faz de O Nó do Diabo um filme essencial, não apenas para amantes do terror, mas também para compreender o horror que a escravidão causou em nosso país e as raízes racistas que dão as caras até hoje. O filme certo para o momento certo que estamos vivendo.





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