Crítica | O Roubo da Taça

Crítica | O Roubo da Taça

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Uma Nostálgica volta no Tempo

O trailer de O Roubo da Taça é muito bom, divertido e dinâmico, conseguindo automaticamente despertar o interesse para o filme. Porém, num feito difícil de ser alcançado, o filme em si consegue ser ainda melhor, superando as expectativas em relação à já aguardada produção. O grande diferencial é a importância dada a todos os detalhes que costumam preencher uma obra, pelo diretor Caito Ortiz, neste primeiro filme nacional produzido pelo colosso Netflix.

A história, parte do folclore de nosso país, retrata de forma irreverente o infame roubo da taça Jules Rimet, conquistada na copa do mundo de 1970, da sede da CBF no Rio de Janeiro. Misturando ficção e realidade num roteiro acertadíssimo, confeccionado pelo próprio diretor, em parceria com Lusa Silvestre (dos ótimos Estômago e Mundo Cão), O Roubo da Taça se mostra uma aula de como fazer cinema acessível de qualidade. O cineasta Ortiz, mais conhecido pela série da HBO (fdp), acerta o tom, transitando entre o humor e um teor mais sério. Esta é uma comédia diferente, que faz uso de todos os atrativos de dramas sérios, vide uma direção de arte chamativa, figurinos, maquiagem e uma bela fotografia, que compõem satisfatoriamente a época retratada de 1983.

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O sentimento de uma época e costumes considerados hoje politicamente incorretos estão alinhados com perfeição, nos transportando de forma nostálgica a um período um pouco mais inocente e muito mais divertido. A malandragem carioca é a nossa anfitriã durante toda a projeção, e o inspirado desenvolvimento de personagens tão carismáticos e memoráveis se torna outro ponto a favor deste roteiro.

Os louros também devem ser entregues ao elenco de peso, encabeçado por um trio que faz toda a diferença. Falar sobre o talento de Milhem Cortaz, aqui interpretando o policial encarregado do caso, se torna um exercício de pura redundância. De Tropa de Elite (2008) a O Lobo Atrás da Porta (2013), Cortaz é um dos melhores atores brasileiros em atividade e seus bordões seguem sendo entregues de forma que só ele poderia proferir. Taís Araújo… ah, Taís Araújo irá tirar o sono de muito marmanjo na pele da dissimulada Dolores, um mulherão de parar o trânsito – usando uma expressão do período. A atriz, que nunca esteve tão bela, é um dos pontos chave da trama, sendo ao mesmo tempo a voz da razão e a motivadora da tramoia. Araújo brilha em cena com talento de sobra na pele de uma personagem fictícia, nos fazendo desejar que mais produções nacionais a utilizem em seus elencos.

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Finalizando os elogios ao elenco principal, não poderia deixar de apontar para o protagonista Peralta, vivido de forma sublime (na falta de qualquer outro elogio poderoso) por Paulo Tiefenthaler. O sujeito havia capturado minha atenção na pele de Fernando Pamplona no filme Trinta (2014), biografia de Joãozinho Trinta. Criando algo totalmente oposto para seu Peralta, o ator até nos faz perdoá-lo por sua participação no horrendo A Noite da Virada (2014). Tiefenthaler possui um excelente timing cômico, virando o tipo de atuação no momento certo, para um tom mais dramático, por exemplo. O acerto em sua personificação está em fugir de uma caricatura. Ele cria um tipo, um ser humano e o interpreta desta forma, arrancando a comicidade das situações e nunca de trejeitos, assim deixando o público descobrir a graça, e não a forçando goela abaixo da audiência.




Ao sair da sessão para a imprensa do longa, uma novidade bem vinda chegou aos meus ouvidos, trazida pelos colegas. Aquele filme que causara deleite raro para o que vos fala, havia sido premiado em quatro categorias no Festival de Gramado – encerrado no dia 3 de setembro – melhor ator (Tiefenthaler), melhor roteiro (Ortiz e Silvestre), melhor fotografia (Ralph Strelow) e melhor direção de arte (Fábio Goldfarb), todos mais que merecidos. O Roubo da Taça é cinema nacional raro, é a melhor comédia do ano e uma das mais gratas surpresas de 2016. Pena ter ficado fora da corrida por uma vaga no Oscar.

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