Crítica | Olhos da Justiça

Crítica | Olhos da Justiça

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Remake Satisfatório

Existem filmes que já nascem com a expectativa nas alturas. Outros, surgem na extrema ponta oposta deste espectro. Olhos da Justiça, refilmagem americana do neoclássico argentino O Segredo dos Seus Olhos, se encaixa justamente no segundo quesito. Afinal, para a maioria dos cinéfilos a pergunta que veio imediatamente após a confirmação do remake foi, para que?

O Segredo dos Seus Olhos, baseado no livro de Eduardo Sacheri, com roteiro do próprio Sacheri e do diretor da obra Juan José Campanella, foi o filme vencedor do Oscar de melhor produção estrangeira em 2010. Além disso, o fato de ter no elenco o cultuado Ricardo Darín, ator preferido de nove entre dez cinéfilos, ajudou a impulsionar o filme no gosto geral. O Segredo dos Seus Olhos é o que podemos chamar de produção cult, o tipo de filme que não é mundialmente conhecido, mas possui uma forte legião de adoradores.

Refilmagens já possuem má fama por si só. As de filmes cultuados são ainda piores. O boicote geral dos cinéfilos em relação ao novo filme era certo – o fato de ser uma produção americana ajuda mais ainda a barreira, já que para ser um pseudointelectual de carteirinha é necessário acima de tudo odiar de antemão qualquer coisa que venha da terra do Tio Sam, a meca do cinema mundial.




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Contradizendo inclusive a minha própria descrença – mesmo (muito) afastado de tais preconceitos, Olhos da Justiça surpreende como um bom thriller dramático, que se sustenta por si só, surgindo como um digno descendente do original. O próprio Campanella, criador do filme argentino, apadrinhou a nova versão, com o discurso de que é saudável termos novas leituras ou interpretações de obras consolidadas. A verdade é que a original não irá desaparecer com o surgimento de uma nova roupagem, pelo contrário, seu valor será colocado à prova de verdade.

Na trama, para quem não conhece, um policial se torna obcecado por um caso que não conseguiu desvendar durante décadas. Um dos pontos altos desta refilmagem é a forma bem trabalhada com que o roteiro do diretor Billy Ray (roteirista de Jogos Vorazes e Capitão Phillips) adapta o texto de Campanella e Sacheri. Ao mesmo tempo em que situações chave são recriadas com grande destreza (sem que percam o impacto), novos momentos são introduzidos e aprimorados para esta realidade.

Dentro deste contexto, temos como foco principal a mescla de determinados personagens e a transformação de outros. Por exemplo, o crime principal, que motiva toda a trama, agora está mais próximo aos personagens. A jovem assassinada é a filha da detetive Jessica “Jess” Cobb (papel da vencedora do Oscar Julia Roberts), personagem inexistente na versão anterior, e não mais uma ilustre desconhecida dos protagonistas. A personagem de Roberts surge como uma mistura de Richardo Morales (Pablo Rago), companheiro da vítima no original, e Pablo Sandoval (Guillermo Francella), melhor amigo do protagonista no original.




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De certa forma, o fato faz mais pessoal a busca incessante do protagonista durante décadas. Junte a isso uma justificativa no roteiro de maior culpa para Raymond “Ray” Kasten, personagem defendido com muita categoria e talento pelo indicado ao Oscar Chiwetel Ejiofor, entrando no lugar de Benjamín Espósito (papel do brilhante Ricardo Darín). Dean Norris (da série Breaking Bad) também assume contornos de Sandoval – especificamente para as cenas de ação – troque o momento do jogo de futebol, que faz uso de um excelente plano sequência, por um momento um pouco mais diminuto em um estádio de baseball. Sai também o pano de fundo da ditadura argentina e entra o medo americano do terrorismo, como desencadeador de fatores na trama.

O maior elogio que Olhos da Justiça poderia receber é não ficar devendo nada de fato em relação ao original. Tudo é explorado de forma minuciosa pelo roteiro, seja a índole do protagonista, ou a relação com as duas mulheres importantes de sua vida, a melhor amiga Jess e o objeto de afeto, a ambiciosa (ou como ela prefere, empenhada), Claire Sloan (papel da vencedora do Oscar Nicole Kidman – extremamente fotogênica). O filme também marca o primeiro encontro nas telonas destas grandes estrelas e musas de Hollywood. Roberts e Kidman são contemporâneas e também já tiveram sua cota de fiascos. Seria fácil prever atuações ligadas no automático. Outro quesito no qual Olhos da Justiça surpreende: o empenho de seus atores. Vá ver sem medo e desprovido de qualquer empecilho. Olhos da Justiça é um bom suspense.

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