Crítica | 'On My Block' - Em terra de dreamers, quem tem green card é rei

Crítica | 'On My Block' - Em terra de dreamers, quem tem green card é rei

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Os Estados Unidos se viu transformar de nação absoluta para uma terra repleta de traços, tons e maneirismos latinos. Discernir o que é totalmente americano do que seria “miscigenado” já não é tão fácil. Os mexicanos, brasileiros, porto riquenhos e tantos outros povos se mesclaram tanto com a cultura americana, que a gastronomia revela o impacto de cada uma dessas tradições. Do churrasco com picanha ao fast food de tacos - passando pelo jalapeño nos lanches, a América não é apenas para os americanos. Ela é de todos e para todos, quer Donald Trump goste ou não. E em uma terra mapeada por dreamers, a Netflix decidiu colocar uma lupa sobre essa nova geografia social, percorrendo os guetos de Los Angeles (cuja cidade foi nomeada em ESPANHOL), pela ótica de um grupo de adolescentes que você adoraria conhecer.

Deportação é um assunto que faz parte da rotina dos latinos que vivem ilegalmente no país. Conhecer pessoas que já passaram pela dolorosa ruptura, que a temem o que até mesmo a vivenciaram, é uma dinâmica que permeia os falantes da língua espanhola ou portuguesa. Dentro desse contexto, ‘On My Block’ é aquela surpresa inesperada, a série original da plataforma de streaming que estreou e provavelmente você nem notou. Estava lá, com seu trailer reverberando na tela principal do aplicativo, mas você descartou.

E o seu fator especial está na sua essência. Mesclar o humor com o drama, abordando a perspectiva de jovens latinos, ganha um sabor maior quando a narrativa é focada nos dreamers. Aqueles filhos de imigrantes que residem no país sem o green card, mas possuem alguns direitos específicos. Em uma nação onde mais de 55 milhões de habitantes são de origem latina, dar voz aos anseios, temores e histórias dessa parcela tão significativa, é algo que todas as emissoras já deveriam ter feito. Entre caminhadas ao som de tiros, a ansiedade do repentino toque de recolher e as brigas de gangues, o submundo da Los Angeles soberba e ostensiva vira o foco, com personagens tão bem construídos que fazem com que a trama se estabelece dentro de cada arco pessoal.




Criada por Lauren Lungerich, On My Block traz uma turma novata de atores, que estampa a inocência com um comportamento adulto forçado pelas circunstâncias. Este contraste se revela em caricaturas excepcionais. Considerando que o adolescente é peculiar por natureza, a produção se aprofunda nessa estranheza manifesta pelas oscilações hormonais, construindo características tão específicas e divertidas, que tornam cada uma dessas figuras em um espetáculo à parte.

Lidando com assuntos sérios, como o impacto da violência das ruas na vida de jovens, a separação de pais e filhos pela deportação e a sexualidade a flor da pele, a série consegue manter a leveza em sua narrativa, ponderando o drama em uma trama majoritariamente humorística. Ironicamente, a combinação que deu a luz ao termo dramédia não é conduzida através do humor negro. Por se tratar de um conteúdo dedicado a um público abrangente, a dosagem dos dois gêneros é precisa, provocando risadas, preocupação e uma compressão tênue e válida sobre todas as situações que os rodeiam. Essa mesma concepção característica nos remete vagamente aos filmes de Spielberg, protagonizados por atores mirins. Não que a série faça referências claras. O que nos traz esse doce ar nostálgico é justamente o modelo de particularização dos personagens. Como o cineasta sempre fez, cada um dos amigos possui um atributo determinante que direciona suas ações. Gritante, esse aspecto é o que define o seu grau de humor e drama dentro da tama. O mesmo cuidado do diretor se repete, nos contemplando com uma deliciosa série original.

Com episódios que beiram os 30 minutos, On My Block é aquele segredo bem guardado da Netflix, com uma direção simples, uma trama enxuta e muito assunto para destrinchar. Dinâmica e caricata, a produção é um sopro de leveza sobre um assunto tão sério. Tendo a franqueza como sua forte aliada na contação da história, a série é um retrato real daqueles contextos sociais onde a marginalidade permeia a vida em comunidade. Distante dos olhos de muitos de nós, essa realidade quase alternativa para tantos ganha um belo holofote, que nos sensibiliza a preocupar e compreender o que é ser um jovem latino em uma América em fase de transformação.





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