Crítica | Real: O Plano Por Trás da História – Cinema nacional de qualidade e conteúdo

Crítica | Real: O Plano Por Trás da História – Cinema nacional de qualidade e conteúdo

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Tropa de Elite 3

O momento atual político do Brasil é tão delicado, rançoso e separatista que atingiu até a arte, como o cinema. Mais triste ainda é ver profissionais do meio, não só tomando partido, mas ajudando a boicotar aquilo que juraram defender com imparcialidade e amar sem discriminação: a sétima arte. É aí que entra Real – O Plano por Trás da História, alvo de hostilidade por parte de alguns, simplesmente por tratar de um tema que não está de acordo com seus ideais políticos.

A tensão em volta do cenário construído por extremistas é grande. É como um verdadeiro pisar em ovos, com direito a caça às bruxas. Fale mal de um produto confeccionado por homens brancos e velhos num grande escritório, mas protagonizado por mulheres, como o novo Caça-Fantasmas (2016), e você é automaticamente um machista misógino. Fale bem de Real e você provavelmente será taxado de coxinha, de extrema direita, conservador, etc.. Mas, e que tal concentramos nossas energias em avaliar o filme?

Assim como o ótimo Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho, não deveria ter sofrido represália, e ser jogado para escanteio em favorecimento do muito inferior Pequeno Segredo (2016), por uma possível indicação ao Oscar, a execração de Real é um tremendo equívoco e uma grande baboseira – muitos sequer assistiram ao filme. Pense pelo seguinte prisma, um artista é isento de orientação sexual, classe social, ideologia política ou desvio psicológico quando está atuando. Um artista hétero, pode viver um gay. Um pobre, viver rico. E ir contra sua ideologia politica também. Tudo em nome da arte. Para ele, será apenas mais um trabalho.

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Ao detratar uma produção cinematográfica nacional simplesmente pela pseudo ideologia apresentada, além de não entrar nos pormenores de temas como censura, estaremos na verdade agindo contra artistas brasileiros, contra o nosso sofrido cinema e não o apoiando como deveríamos. Sendo que muitos dos envolvidos, na realidade, pensam como os que os atacam. É uma situação na qual não há vencedores.

Tudo isso para chegarmos finalmente a Real – A História por Trás do Plano, produção nacional dirigida por Rodrigo Bittencourt, baseada no livro 3.000 Dias no Bunker – Um Plano na Cabeça e um País na Mão, de Guilherme Fiúza. Com roteiro de Mikael de Albuquerque (do eficiente A Glória e a Graça), o filme narra os bastidores do plano Real, medida econômica que salvou o país da falência em meados da década de 1990.

Em primeiro plano (com o perdão do trocadilho) temos Gustavo Franco (Emílio Orciollo Neto), o protagonista, e figura central do feito econômico. Como um verdadeiro Capitão Nascimento da política, Franco é um personagem de fortes convicções, sem papas na língua e adepto da ação e não de conversa fiada. As semelhanças com o personagem de Wagner Moura no elogiado sucesso nacional não param por aí, já que ambos sofrem ao terem sua vida pessoal mastigada pela profissional, aonde liberam sua verdadeira essência e ideal. Arrogante e inflexível, Franco profere frases de efeito desde já tão icônicas quanto às de Tropa de Elite (2008 e 2010).

A parte técnica de Real é verdadeiramente elaborada, dona de uma edição primorosa, de cortes rápidos e transições eficientes, deixando o produto final com cara de thriller hollywoodiano. Não por menos, Lucas Gonzaga é o responsável, profissional que tem no currículo montagens chamativas de longas, como 2 Coelhos (2012) e Mais Forte que o Mundo (2016), tendo inclusive trabalhado na gringa, com Presságios de um Crime (2015).

Os atores estão em sua melhor forma, com destaque para Mariana Lima, que vive Denise, a assistente de Franco, e o próprio protagonista. Emílio Orciollo Neto nunca esteve tão bem, o ator metralha seus diálogos com uma voracidade latente, ao mesmo tempo trabalhando os momentos calmos (nos quais apenas suas expressões sem diálogos transmitem seus sentimentos, como na última cena especificamente) e outros de fúria explosiva – destaque para o relacionamento conturbado com a esposa Renata (papel de Paolla Oliveira).

Finalmente, os louros precisam ir para o roteiro de Albuquerque. O jovem autor cria um material verborrágico, com muito conteúdo, que sabe do que está falando e não dá descanso ao público. É tão recheado de nuances que talvez seja necessário uma nova investida a fim de se apreciar todos os elementos acontecendo aqui. Desde a primeira cena, num inocente jantar entre dois casais de amigos, Albuquerque delimita exatamente o nível de intensidade da obra, nos cumprimentando com um bem-vindo tapa na cara.

O acerto está em não enaltecer ou demonizar estes personagens reais, muito conhecidos de nossa história recente. Em criar um protagonista falho, com mais defeitos do que qualidades, e joga-lo contra a parede, testando-o, assim como os grandes personagens do cinema. O segredo, esperteza e força do roteiro de Real está em não tomar partido, ou escolher lados, apenas apresentar fatos e pessoas. Quer gostemos deles ou não. E isso, não defende-los ou argumentar se estão certos, é o maior êxito de um filme tão inflamatório, em meio ao cenário caótico de hoje.


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