Crítica | Sangue Azul

Crítica | Sangue Azul

COMPARTILHE!

ACERTA NO VISUAL, MAS FALHA NA NARRATIVA

O recifense Lírio Ferreira é um dos profissionais mais conceituados do cinema pernambucano, isso por ter praticamente resgatado a vertente no estado, quando perpetrou o jovem clássico Baile Perfumado (1997), ao lado do conterrâneo Paulo Caldas. De lá pra cá dirigiu muito pouco, fez apenas um longa-metragem de ficção – o original Árido Movie (2005) – e dois documentários – os excepcionais Cartola – Música Para os Olhos (2007) e O Homem que Engarrafava Nuvens (2009). E, claro, sempre participando dos projetos de amigos.

Depois de anos em produção, chega às salas brasileiras o seu trabalho talvez mais ambicioso, Sangue Azul. Todo rodado na ilha Fernando de Noronha (PE), e estrelado pelo astro Daniel de Oliveira, o filme traz a história de Zolah (Oliveira), o homem-bala do circo Netuno, que foi criado no local, ao lado da meia-irmã Raquel (Caroline Abras), com quem sempre teve grande afinidade. Temendo a aproximação dos dois, sua mãe Sonia (Sandra Corveloni) o envia para longe. Anos mais tarde, já adulto e com o circo, Zolah volta e reencontra a família para resolver pendencias antigas. Mas o misterioso clima do lugar muda o caminho do sujeito.

sangueazu_f01cor_2014130384




Traçado em formas capitulares e iniciado em preto e branco, o filme só ganha cores quando a lona do circo é armada, simbolizando que o show (ou a trama) começa a partir dali. Sem muita urgência, Ferreira vai apresentando cada um dos personagens e mostrando o banal cotidiano. Com lindíssimos enquadramentos das praias de Noronha – que é um dos lugares mais majestosos do América Latina -, o cinematografo Mauro Pinheiro Jr. concebe planos esteticamente magníficos, que narrativamente inserem o público naquele universo mágico. Que por si só possui uma atmosfera encantadora, mas também enigmática. E que afeta todas as figuras do conto.

A plateia vai aos poucos se acostumando com a ideia proposta, entendendo os conceitos visuais e se afeiçoando ao local, a ponto de não dar muita importância à trama central. Os diálogos e as gags soam orgânicos, mas falha narrativamente por pouco evoluir com a história. E de tanto acompanhar o dia a dia daquelas pessoas e não ser recompensando por conflitos no mínimo curiosos, fora as muitas cenas de sexo, o público vai perdendo o interesse pelos acontecimentos futuros. Somente no terceiro ato o longa começa a revelar novas facetas e trazer cenas um tanto interessantes.

14267463

O elenco, por outro lado, parece bem conectado, além de Daniel de Oliveira demonstrar muita segurança, temos um Milhem Cortaz se divertindo com seu musculoso homossexual Inox. Vemos também Caroline Abras dando vida a encantadora e real Raquel, e o sempre excelente Matheus Nachtergaele comovendo no papel do corno atirador de facas Gaetan. Nesse quesito, apesar de todos estarem bem, não temos grandes momentos ou destaques.




Portanto, de um modo geral, notamos em Sangue Azul um cinema autoral em forma e estilo, esteticamente charmoso e dono de um casting que impõe respeito. Porém, no que se refere à realização e resultado, acaba fracassando por não conseguir deixar o público ligado e, no fim das contas, acaba soando deveras aborrecido. Ou seja, ao mesmo tempo em que é o maior trabalho de Lírio Ferreira, do ponto de vista orçamentário, é também um dos mais fracos narrativamente.

Texto originalmente publicado na cobertura do VII Janela Internacional de Cinema do Recife.

Curta nossa ENTREVISTA com a Nina Dobrev:


» Siga o CinePOP no Facebook e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema! «