Crítica | TOC: Transtornada Obsessiva Compulsiva

Crítica | TOC: Transtornada Obsessiva Compulsiva

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Birdwoman

O roteiro de Birdman, filme vencedor do Oscar em 2015, trazia a história de um ator saturado pelo meio em que vive, arriscando tudo pela chance de ser legitimado na profissão.  Um dos motivos para o desenvolvimento do projeto, criado pelo mexicano Alejandro Inarritu, era a presença do ator Michael Keaton, que continha muito de Riggan, o protagonista do filme, em sua vida pessoal. Em escala bem menor, chega quase uma versão tupiniquim desta história com TOC: Transtornada Obsessiva Compulsiva, na qual a humorista Tatá Werneck vê em sua protagonista Kika K, uma versão romanceada de si mesma.

Antes que me joguem todas as pedras do mundo, é necessário entender que as semelhanças entre tais filmes se dão apenas no retrato de seus protagonistas e suas questões existencialistas, além, é claro, do insight ao universo no qual transitam. TOC é uma comédia escrachada, na qual Werneck pode criar e transgredir, usando e abusando do formato, para se tornar seu veículo absoluto. Esta é a grande revelação da atriz em sua carreira, depois do sucesso em novelas e programas humorísticos televisivos. Em 2015, ao lado de Ingrid Guimarães e Suzana Pires no sucesso Loucas para Casar, Werneck provou que seu estilo de comédia funciona bem no cinema, mas é aqui onde tem a chance verdadeira de carregar uma produção nas costas.

TOC, assim como seu trailer, abre com uma visão da Terra devastada, num futuro pós-apocalíptico (tema que voltará mais tarde em um karaokê). Criminosos no melhor estilo Mad Max perseguem uma jovem indefesa, papel da belíssima Laura Neiva (À Deriva e Rio, Eu Te Amo). Quando a situação complica para ela, chega uma heroína para o resgate. Já nesta sequência de abertura podemos notar o teor impróprio para menores do longa, com muitos palavrões proferidos e um saco escrotal arrancado a flechada. Tal teor acompanhará a exibição até o final, fazendo a alegria dos aficionados pelo humor incorreto e abaixo da linha da cintura – na sessão de pré-estreia na qual estive, fez um tremendo sucesso com a garotada.

     

A trama verdadeira, porém, é sobre uma atriz (Werneck) lidando com a fama e o status de celebridade no Brasil. O filme mergulha no dia a dia de sua protagonista, retratando sua vida profissional e pessoal. O roteiro dos próprios diretores Paulinho Caruso e Teodoro Poppovic, em colaboração com Pedro Aguilera e Mauricio Bouzon, no entanto, capricha nas entrelinhas, detalhando cuidadosamente a rotina de uma atriz. A veterana Vera Holtz interpreta Carol, a empresária mal humorada de Kika K, a personagem de Werneck. Juntas, as duas viajam, vão a testes de elenco e pensam na próxima peça publicitária. A reviravolta ocorre com o lançamento de um livro de autoajuda, para o qual Kika apenas empresta sua fama, tendo sido escrito verdadeiramente por um ghost writer.

A mensagem que TOC quer passar é a de que uma vida cheia pode ainda assim ser muito vazia. A cada conquista profissional, Kika mais se distancia de valores e emoções humanas básicas. Ela possui um namorado, por exemplo, interpretado por Bruno Gagliasso, mas a relação é estritamente superficial e apenas sexual, já que é o “permitido” para alguém de seu status social. É quando conhece Vladimir (Daniel Furlan), um vendedor da loja Fnac, sem aspirações profissionais, que Kika se reconecta com o “mundo real”, longe das futilidades que preenchem sua existência. Ao mesmo tempo, o tal livro que a protagonista menospreza à princípio, se torna um pilar em sua metamorfose, contendo o “segredo da felicidade” decifrado pelo autor, que para o azar dela, se matou antes de revelar o enigma.

TOC é um filme mais profundo do que aparenta. É cheio de referências e funciona bem no terreno metalinguístico. O fato, inclusive, pode passar em branco para a maioria, já que em seu repertório, e maior porcentagem, é vendido com uma comédia escandalosa. Sim, TOC também tem muito humor, mas é justamente nesta parte que nem tudo funciona. Apesar disso, o longa rende momentos hilários, como o encontro de Kika com a rival Ingrid Guimarães, interpretando a si mesma, numa cena dita ter sido toda criada em improviso. A troca entre elas reflete duas artistas no auge de sua criatividade, com diálogos espontâneos inspiradíssimos.

TOC chama verdadeiramente atenção, no entanto, nos momentos calmos, nos quais consegue falar sério e ter muito a dizer sobre o esperado de nós em um meio social. Tatá Werneck demonstra em tais momentos que é uma atriz talentosa e pode funcionar muito bem longe do humor – apesar da veia cômica pulsante. Não que ela esteja ligando muito para isso, ou tenha aspirações dramáticas, e demonstra com a forma na qual bota o ponto final em sua estreia como protagonista no cinema. Que venham os próximos.


Crítica:


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