Crítica | Todo Clichê do Amor – Metalinguagem de romance, comédia e drama

Crítica | Todo Clichê do Amor – Metalinguagem de romance, comédia e drama

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Sátira Desequilibrada

Diretor, roteirista e ator, o jovem Rafael Primot é o que podemos chamar de ameaça tripla. Melhor ainda quando em 2014, aos 31 anos, entregou o suspense minimalista, tenso e elogiado Gata Velha Ainda Mia – provando um dos debutes mais eficientes dos últimos anos no cinema nacional atrás das câmeras. Agora, o cineasta galga um passo maior e mais ambicioso com seu novo projeto – que estreia este fim de semana.

Todo Clichê do Amor é maior e possui mais aspirações que sua obra anterior. E como ocorre na maioria das vezes, uma produção mais ambiciosa tende a subtrair da equação certa voz  e pungência de seu criador. Aqui, Primot se prontifica a adereçar os clichês do amor, ou ao menos dos filmes do gênero, se posicionando de fora, apontando a fórmula e aplicando-a em seu trabalho, a fim de explica-la. O resultado, no entanto, soa como o domador de leões que achava ter dominado a fera, mas termina subjugado por ela.

A trama, escrita pelo próprio diretor, apresenta três histórias distintas, que irão se interconectar em determinado ponto, por meios pouco convencionais: uma voltada ao romance, outra à comicidade e a terceira ao dramalhão. No primeiro conto, e o que melhor funciona, Primot também protagoniza como Leo, um entregador maloqueiro disposto a conquistar a mulher de seus sonhos, a garçonete Helen – papel da sempre bela e competente Débora Falabella – exalando bastante carisma como de costume.




Este trecho do romance proibido é o que mais aborda a ideia central do longa, ao ponto de ficarmos imaginando como o conto se comportaria caso fosse estendido para ocupar toda a projeção. Para isso, um desenvolvimento maior e atenção teriam que ser dados aos personagens, assim como a adição de novas subtramas. No entanto, o segmento é o que mais potencial tem – terminando abafado pela equação, apertado ao dividir espaço com outras micro histórias menos interessantes.

Se a intenção de Primot era investir em desmistificar os clichês do amor, poderia usar a premissa no decorrer deste romance amargo. Do jeito que está, termina com o gostinho de “quero mais”. Por outro lado, temos o pesado e intenso drama do conto protagonizado por Maria Luísa Mendonça e Amanda Mirásci, que interpretam madrasta e enteada precisando extinguir o pé de guerra durante o funeral do marido/pai.  O ponto alto aqui são as performances viscerais (em especial de Mendonça) e a entrega de ambas. Mendonça mescla fragilidade e fúria como poucas atrizes nacionais em atividade.

O último segmento aposta no escracho e traz a it girl do cinema nacional na atualidade, Marjorie Estiano, na pele da prostituta sadomasoquista Lia. Enquanto está num quarto de motel realizando os desejos mais profanos de seu cliente, a dominatrix arruma tempo para uma “DR” com o namorado ator pornô pelo telefone, entre um espancamento e outro. Além da excelente forma física, Estiano exibe muito “rebolado” no domínio da cena e ótimo timing cômico.

Mesmo que o texto não exiba o insight derradeiro sobre os “clichês do amor”, ou sequer brinque com eles o suficiente, o ponto alto do longa de Primot está no entrelaçado curioso que o diretor resolve confeccionar para que suas histórias se encontrem. A forma é propícia para que diversas teorias surjam sobre o que de fato está ocorrendo, quando e aonde. Ficção e realidade se misturam no metalinguístico vocabulário moderno da cultura popular, que apresenta livros, seriados e filmes como interlocutores da narrativa. Mesmo sem atingir a verve planejada, sobra vontade dos envolvidos (em especial das mulheres do elenco) e criatividade na hora de formular este mosaico.



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