Especial | Uma Jornada Assustadora pelos Filmes de Zumbi

Especial | Uma Jornada Assustadora pelos Filmes de Zumbi

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Quando falamos de zumbis, geralmente, associamos estas criaturas aos degenerados que vagavam em torno de alguns humanos acuados, numa sanha canibalesca que aterrorizou plateias ao redor do planeta na década de 1960. A relação em questão é com o clássico de George A. Romero, intitulado A Noite dos Mortos-Vivos, produção responsável por colocar as criaturas de vez na rota da extensa trilha da cultura pop.

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É preciso refletir, entretanto, que os zumbis são “personagens” milenares, que habitam variadas culturas, sendo representados de diversas maneiras. Se pensarmos dentro da lógica de produção cinematográfica, as criaturas tais como conhecemos hoje tem como ponto de partida o filme de 1968, mas estes condenados já apareciam no cinema desde Zumbi Branco, em 1932. Se mergulharmos em textos de antropologia e história, encontraremos relatos sobre zumbis já aparecerem no folclore chinês, árabe, na mitologia nórdica e até mesmo em epopeias seculares.




A pergunta, à priori, é: vocês estão prontos para uma viagem na curiosa história destas criaturas que habitaram com força total o cinema, a literatura, os games e a cultura pop de forma geral? Cabe ressaltar que o texto não pretende esgotar o assunto, mas coloca na bandeja informações históricas bastante relevantes para fazer circular dados que nos permitem uma compreensão mais densa sobre o mito que se cristalizou em torno destes personagens que fazem parte de um subgênero dentro da indústria cultural. Preparados?

 

Os zumbis numa perspectiva histórica

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Para quem pensava que os zumbis surgiram em 1968, através do ousado trabalho de George A. Romero e da sua equipe, engana-se. É preciso retroagir e focar nos anos 1930, com o lançamento de Zumbi Branco, de Victor Halperin. Diferente dos mortos que caminham em direção aos humanos, cerceando-os, o zumbi dessa época era algo mais próximo do vodu, religião de matriz africana levada para o Haiti durante o período da colonização. Há numerosas produções com esta base narrativa: nos anos 1940, A Morta-Viva, de Jacques Tourneur. No filme, uma enfermeira canadense vai cuidar de uma mulher “delirante” em um engenho de açúcar numa ilha caribenha. Rituais religiosas deixam a personagem “escravizada” durante algum tempo, comportando-se como uma morta ambulante.

As narrativas contemporâneas que inundaram a cultura pop apostam nos zumbis dentro dos moldes da produção de 1969. Seja caminhando ou correndo, estas criaturas atacam as suas vítimas numa sanha canibal. Quando ficam vivas e conseguem fugir, mesmo que apenas com um ferimento, o destino é cruel: não há fuga ou redenção. A pessoa vai morrer e logo depois, transforma-se em um zumbi com o mesmo destino: peregrinar em busca de carne humana.

O nosso imaginário é preenchido pelo molde da década de 1960, mas a abordagem sobre os mortos que retornam à vida é de origem milenar. “Vou levantar os mortos e eles vão comer os vivos”. De onde veio essa citação? Nada menos que um excerto da Epopeia de Gilgamesh, um dos poemas mais antigos da humanidade, inspirado em um rei da Suméria, datado de aproximadamente 2750 A.C.

Nos meandros da cultura chinesa, o Jhong Shi é o representante do que conhecemos como os zumbis na atualidade. Conta-se que são mortos que retornam para se vingar da família depois do sepultamento indevido, ação que os impediu de seguir o caminho rumo “ao outro lado”. Já na cultura árabe, os zumbis são almas de pessoas que deixaram a moral de lado durante a vida, tendo investido numa existência pecaminosa. Chamado de Ghoul, geralmente são mulheres/prostitutas que semelhante ás perigosas sereias da Odisseia, atraem os homens para o temível caminho da morte, geralmente configurado por ataques de extrema violência. Um conto, no mínimo, machista e contraditório, não é mesmo, caro leitor?

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A relação com a morte é um dos maiores mistérios da humanidade. Quando a sociedade enfrenta algo desconhecido, de origem natural ou por ação catastrófica de ordem humana, geralmente há uma associação direta com o que vemos nos filmes de apocalipse zumbi. Ao longo da história, há vários momentos semelhantes. Basta lembrar-se da Gripe Espanhola, de 1918. O fatídico acontecimento mexeu com as bases da Medicina e matou mais que a Primeira Guerra Mundial. O que dizer da Peste Bubônica (também conhecida como Peste Negra)? Assolou a Europa durante a chamada Baixa Idade Média, matando milhões de pessoas. De acordo com pesquisas, uma das condições para o estabelecimento da peste foi a invasão da Europa pelo rato preto indiano, pois os seus hábitos mais domesticados e próximos das pessoas ajudou a disseminar a doença, transmitida aos humanos através das pulgas destes roedores.

A doença não ficou relegada nos porões da história. Segundo reportagem da BBC, a peste ainda é endêmica em Madagascar, na República Democrática do Congo e no Peru. Curioso observar que em 2015 houve registros de 15 casos endêmicos da doença nos Estados Unidos.  Assim, percebemos que muitos conflitos dos filmes de terror representam, metaforicamente, os nossos medos sociais: o bioterrorismo é um deles, bem como o medo de doenças e catástrofes nunca antes vivenciadas. No cinema, estes medos ganha válvula de escape através das terríveis narrativas que nos assustam, entretanto, diferente do que tememos ocorrer na realidade, saímos ilesos após a montanha-russa de emoções.

 

O modus operandi dos zumbis

Um dos pontos nevrálgicos dos filmes deste subgênero é o cerco. Tal estratégia para intensificar os conflitos narrativos possuem influências de momentos de tensão reais da nossa história. Lembre-se dos filmes de guerra que você já assistiu: Círculo de Fogo, O Resgate do Soldado Ryan, Além da Linha Vermelha, Troia, dentre outros. O cerco no geral é a estratégia de caça entre grupos rivais, e neste caso, dos filmes de zumbis, temos humanos lutando contra mortos-vivos em busca de saciar os instintos canibais pós-túmulo.

Ao longo da história humana, vários cercos massacraram milhares de pessoas, em situações de clausura similares ao que somos expostos nos filmes sobre mortos-vivos. De origem germânica, os Visigodos, vindos do leste europeu, saquearam e dizimaram legiões no Império Romano, através da tática do cerco. O cerco nazista a Leningrado, realizado durante a Segunda Guerra Mundial é outro tópico bastante ilustrativo. As táticas militares dos seguidores de Hitler envolveram a União Soviética em momentos de dor e pânico.

A horda também é outro detalhe importante que merece ser destacado: o povo mongol é conhecido pelas suas invasões e conquistas, tendo como destaques as realizações ao longo do século XII. Segundo relatos da antropóloga Kate B. Harding, eles eram violentos, saqueavam e matavam as pessoas dos locais invadidos com crueldade, sendo que em alguns casos, comiam as suas vítimas.

Diante do exposto, caro leitor, consegue ver as similitudes entre “realidade” e representação?  Para deixar a compreensão ainda mais sofisticada, vamos tratar de outra questão bem válida: os aspectos contextuais dos filmes de zumbis.

 

Aspectos contextuais do subgênero Filmes de Zumbis

De acordo com o especial de TV Zumbis: Uma História Viva, do History Channel, o número de narrativas sobre zumbis no âmbito da indústria cultural cresceu vertiginosamente depois do midiático “dia D” da contemporaneidade: 11 de setembro de 2001. Basta lembrar do Anthrax, um dos maiores causadores de pânico social nos Estados Unidos após os ataques às Torres Gêmeas. É o homem utilizando a tecnologia em duas perspectivas: a da salvação e a da destruição, haja vista que ao mesmo tempo em que produz vacinas, remédios e investiga doenças anteriormente incuráveis, pode também ser responsável pela destruição da humanidade.

Basta pensar na praticidade de uma guerra biológica: sem grandes armamentos, soldados, tanques de guerra e misseis destruidores. Já assistiu ao frenético Resident Evil – O Hóspede Maldito, adaptação cinematográfica do famoso game? Se você conhece, provavelmente sabe do que estou falando.  Mary Shelley, autora do clássico literário Frankenstein, por exemplo, já apresentava os males da falta de cautela do homem frente à tecnologia. Imagina agora a contemporaneidade e a quantidade de avanços que a sociedade deu em relação ao passo a passo dos acontecimentos anteriores ao século XX. Estamos numa era do pós-tudo, das incertezas, do avanço frenético da tecnologia. Para onde vamos e como estaremos? Bem complicado prever. Se nos apoiarmos nos filmes, talvez, sem confirmações, tenhamos algumas sugestões.

 

Frames do Terror: nossa nova coluna semanal sobre filmes de terror

É com muita satisfação que anuncio o meu retorno ao Portal Cine Pop. Desta vez, o nosso projeto é ambicioso e promete preencher a semana de imagens aterrorizantes, bem ao gosto dos nossos leitores. Estou falando da coluna Frames do Terror, espaço para textos semanais sobre os mais diversos filmes de terror, desde os clássicos, passeando pelas produções do circuito alternativo até às produções contemporâneas.

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Nesta semana, o nosso foco será alguns filmes de zumbis. Em virtude do retorno de The Walking Dead no próximo dia 14, oferecemos aos nossos leitores algumas críticas de filmes que reinventaram a fórmula dos filmes sobre os mortos que levantam das suas covas para espalhar o medo e o terror. Os três primeiros filmes da série A Volta dos Mortos-Vivos serão os textos iniciais, seguido de A Maldição dos Mortos-Vivos, um olhar para a mitologia zumbi sob a direção do eficiente Wes Craven.

Por ter ganhado ressonâncias ao redor do planeta, iremos apresentar versões europeias do clássico A Noite dos Mortos-Vivos, além das incursões contemporâneas de George A. Romero, um cineasta que trabalha com, este tipo de material desde 1968. Bem vindos ao nosso novo espaço. Esperamos que vocês possam ler, comentar e compartilhar as “terríveis” ideias aqui presentes. Bons filmes!

 

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