Crítica | Baseado em Fatos Reais - O novo delírio de Roman Polanski

Crítica | Baseado em Fatos Reais - O novo delírio de Roman Polanski

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A difícil realidade

O duplo no cinema é um tema recorrente e não é incomum que seja tratado com tamanha frequência. Pensar na possibilidade de outro habitar a si mesmo é de fato um horizonte com possibilidades visuais e narrativas das mais diversas, mas aqui vale ressaltar que também há um abismo muito próximo para se cair dentro desse universo, uma linha tênue entre o que é dado como real e como o real se comporta naquelas circunstâncias.

O fino trato está na dubiedade dos fatos e a tensão que esse caráter gera como, por exemplo, em Psicose (1960), de Alfred Hitchcock. Essa força está na defasagem levada as últimas consequências sobre a existência de um personagem; se torna imprescindível que haja um jogo capaz de ofuscar os olhos do espectador para que esse acredite que, apesar de não conseguir solucionar o que se passa, ele veja todos os fatos enquanto dados inquestionáveis. Essa criação está no roteiro, na direção e nas atuações e se algum desses termos falha todo o véu cai, tornando nítida a articulação.

Roman Polanski carrega consigo uma versatilidade rica em temáticas, épocas e personagens, porém, há uma inegável presença da psicologia em suas construções que tende a desnudar seus filmes em sentidos tortuosos, desdobramentos que torcem múltiplas vezes a narrativa e a mente do personagem para ele mesmo e também para o espectador.




Em Baseado em Fatos Reais,  o diretor retorna ao thriller e conta a história da escritora em crise Delphine de Vigan (Emmanuelle Seigner), que acaba de lançar seu mais recente livro, uma espécie de escrita pessoal que revelaria sua própria mãe, quando conhece a admiradora Elle (Eva Green), uma ghost writer que trabalha realizando biografias de celebridades.

Em vista dos procedimentos do diretor e como desde a primeira cena essa relação dá sinais de uma tensão que logicamente irá caminhar para o – como dito acima - tortuoso, o que sobra para o espectador é ser surpreendido, e possivelmente enganado, pela forma de condução. No entanto, o longa trabalha de maneira direta e até esteticamente escancarada, o “não é o que parece” está lá mas em uma camada tão fina e superficial que não é somente clara aos olhos – quando é também perceptível a intenção de que não seja completamente - mas torna os fatos apresentados entediantes e por vezes desnecessários.

Com um roteiro desenvolvido em parceria com Olivier Assayas (Acima das Nuvens e Personal ShopperBaseado em Fatos Reais é de uma espantosa subestimação de sua própria capacidade - e de seu espectador - e se delonga ao tentar criar reviravoltas que já estavam mais que evidentes, sem conseguir realmente atingir outras camadas ou mesmo tencionar as relações já dispostas.

Em suas mãos a narrativa permitia o desenvolvimento de personagens mais nuançadas, contudo, o que é apontado sobre ambas não só se apresenta como um fato, que teria muito valor se fosse questionado e revisto, mas logo é decretado como real, não há espaço entre as intenções e suas motivações . Esteticamente a fotografia de Pawel Edelman e a trilha de Alexander Desplat corroboram para a dura irrefutabilidade de tudo que se dá na trama, uma insistência das certezas que de tanto serem afirmadas perdem o fôlego e se banalizam.

Ao permanecer quase por toda sua duração numa mesma frequência a obra se torna cada instante mais enfadonha e desinteressante, incapaz de fazer jus aos grandes nomes envolvidos na produção. Enquanto Emmanuelle Seigner tenta tornar sua rasa personagem em algo minimamente crível ou digno de empatia, Eva Green incorpora o caricatural que beira o inconsequente em suas cenas mais rompantes.

O que era para ser um possível delírio atmosférico se concretiza em um delírio dos seus próprios autores e nesse âmbito é possível entender o desfecho da obra enquanto uma grande autovalorização de seus egos inflados, que imersos a própria cegueira, acreditam terem criado uma metalinguagem, mas em sua apressada conclusão só resta a certeza de que todo o processo poderia ter sido resumido a duas ou três cenas sem que o vulgar resultado fosse alterado.





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