Lucy

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Antes de começar o processo analítico do filme em questão, cabe ressaltar que minha reflexão se distancia da maioria dos textos publicados até o presente momento sobre esta nova empreitada cinematográfica do francês Luc Besson. Ao passo que assisto ao filme na cabine de imprensa, leio atentamente o caderno de produção (press book) para me inteirar do processo de produção da obra, bem como acompanho o que os colegas refletiram, para criar um parâmetro de análise. Irritado, confesso que fiquei decepcionado com algumas opiniões estéreis sobre o filme: boa parte dos textos que li falavam sobre os filmes anteriores de Besson, a versatilidade de Scarlett Johansson, o roteiro “maluco” e “insano”, dentre outros adjetivos, e as comparações com filmes que o diretor referenciou ao longo na narrativa de 89 minutos de duração.

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     Lucy, orçado em U$40 milhões e produzido pela Universal Pictures é uma obra metafórica: o que vemos ali, provavelmente, é a relação do ser humano com a memória na contemporaneidade. Estamos diante de um mundo com excesso de arquivo e memórias artificiais (computadores e outras tecnologias similares), nós, ao passo que temos acesso a um amplo feixe de informações, somos vítimas desta agonizante teia de informações que nos leva ao caminho da dispersão constante. As relações com Matrix, 2001 – Uma Odisseia no Espaço e Sem Limites são pertinentes, a versatilidade da loira Scarlett Johansson é um ponto alto para o filme, haja vista que a atriz consegue se sair bem em drama, comédia, ação, dentre outros gêneros, mas o filme não pode ser apenas analisado por este prisma. Isso é redutor demais.

     No filme, Scarlett Johansson é a personagem título Lucy, mulher que ao transportar drogas em seu corpo, não sabe o perigo que corre. Depois de um mal entendido, ela acaba sofrendo um acidente de percurso: absorve as drogas e um efeito inesperado acontece. Lucy ganha poderes especiais, oriundo da sua capacidade de usar o cérebro além da nossa possibilidade. De acordo com a ciência, e é aí que entra o personagem de Morgan Freeman, o professor Samuel Norman, montado alternadamente com as aventuras iniciais de Lucy, explicando, numa aula na universidade, os limites da mente humana. Segundo os dados, utilizamos apenas 10% da nossa capacidade. O que aconteceria se este uso chegasse a 100%? A resposta é entregue em episódios para o espectador, culminando com o inevitável encontro entre os dois personagens do meio para o final do filme. A necessidade dramática da personagem é conseguir resolver a situação e extrair os resquícios da droga em seu corpo.

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É a partir daí que reside a minha reflexão: vivemos em um mundo de excesso de memória e informação. Efeitos da globalização, vivemos numa extensa rede de informações e compartilhamento de arquivos. Os pensadores contemporâneos do campo dos estudos da memória afirmam que nunca usamos tanto a nossa capacidade, num panorama binário: por um lado, temos bastante acesso e possibilidade de seleção, por outro, adentramos numa seara perigosa de ansiedade e dispersão diante de um labiríntico mundo de informações, culminando nos males que esta situação trazem para a nossa saúde mental e física. O filme consegue embutir esta reflexão numa história que segue à risca o padrão dos filmes de ação: muitos tiros, porradas e bombas.

     Luc Besson assina a direção e o roteiro. A produção é da Eurocorp, empresa que há pouco tempo começou a investir pesado na construção de estúdios para filmes franceses, como os conhecidos e divertidos Carga Explosiva e Busca Implacável. No que tange aos aspectos da forma do filme, a música de Éric Serra é um ponto alto para a narrativa, pois ajuda no encadeamento frenético dos fatos. Há as cenas de ação que beiram o clichê, mas nada que comprometa a história, afinal, o filme precisa ampliar o seu foco dentro da indústria, contemplando os interessados em reflexões mais sofisticadas, mas não deixando de oferecer um banquete para os olhos dos fascinados por cenas de ação de tirar o fôlego. Filmado em Taipé, Paris e Nova York, Lucy traz um excelente trabalho de direção de arte, assinado por quatro profissionais: Gilles Boillot (O Closet), Dominique Moison (A Família), Stéphane Robuchon (Além da Liberdade) e Thierry Zennmour (Jogos de Poder), todos, membros fixos da equipe de Luc Besson. Quem assina a sedutora fotografia do filme é Thierry Arbosgast, responsável por trabalhos como Femme Fatalle, de Brian DePalma.

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    Como apontado na crítica ao divertido As Tartarugas Ninja 3D, a crítica de cinema não pode apenas ficar no lado interno da obra, analisando a forma do filme, sem dialogar com os elementos que o cerca. Lucy é uma personagem que encarna a metáfora do ser humano contemporâneo, diante da capacidade quase sem limites da revolução tecnológica que traz novidades cotidianamente ao ponto de não conseguirmos acompanhar tal processo. Por ser uma obra aberta, o filme nos permite diversas interpretações. A minha é uma delas, mas há várias outras considerações a se fazer, portanto, não cabe ao crítico guia-lo, caro leitor, ao binarismo assista/não assista, afinal, a metalinguagem é tão constante na história que ao sair da sessão, sentimos a necessidade de rever o filme para dar conta da quantidade de referências presentes a cada plano, e por isso, considero extremamente complicado apontar qualquer direcionamento ligeiro sem antes refletir mais detidamente sobre o filme para opinar de maneira satisfatória.

     No final da sessão de Lucy, lembrei-me de um acontecimento nos idos das minhas primeiras aulas no curso de Letras, quando ainda estava na graduação: na aula de Introdução aos estudos literários, a docente nos colocou para debater o conto Preciosidade, de Clarice Lispector, presente na coletânea de contos Laços de Família. No momento que terminei a leitura e fiz a exposição da minha reflexão, comparando a personagem feminina ao ícone do horror Samara Morgan, do filme O Chamado (pelo fato de numa cena, ela ficar com os cabelos na face, caindo na sopa), a professora riu de leve e perguntou, num tom irônico: você fumou o que meu filho?

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      Diante do exposto, sabemos que interpretação é algo extremamente ligado à subjetividade. A estética da recepção é bem lúcida quando indica que o chavão “o que autor quis dizer” deva ser considerado algo complexo e problemático de se afirmar em textos analíticos de determinadas obras de arte hoje. Confesso que leio e respeito a opinião de cada um, até encontrei algumas considerações bem relevantes e que não tinham entrado no meu painel de compreensão do filme, mas  ao ler, por exemplo, que o diretor utilizou imagens de animais entre uma cena e outra para preencher o tempo, confesso, quase tenho um ataque. Luc Besson, nestes trechos, faz uma espécie de homenagem ao que os teóricos da montagem chamaram de “montagem das atrações”, tendo em Chaplin, por exemplo, um dos melhores exemplos: numa cena do clássico Tempos Modernos, ele apresenta operários saindo da fábrica, ao passo que monta, paralelamente, alguns animais em um local para abate. Ali, utilizando as ferramentas que lhe foram permitidas na época, ele denunciava o fordismo e a condição do trabalhador estadunidense diante da revolução industrial. Há uma cena logo na abertura. Lucy, ao passo que começa a se envolver perigosamente na situação que culminará em todo o seu drama, é montada em paralelo com um plano contendo uma ratoeira, outro um felino perseguindo um veado. Besson, além de Chaplin, referencia outras obras. Como afirma o poeta T.S Eliot, ninguém escreve sozinho. Ao produzir, acionamos toda uma tradição literária, no caso de Luc Besson, em Lucy, toda uma tradição cinematográfica: podemos apontar Stanley Kubrick, bem como alguns enquadramentos eficazes em filmes Tarantino, mas nem por isso Besson deixa a sua capacidade como um diretor surgir limitada, referenciando quem deve, porém, mostrando a sua competência como um profissional inventivo e que sabe o que está guiando.


Crítica | Extraordinário é extraordinário... e vai te fazer chorar litros!


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