Crítica 2 | Mad Max: Estrada da Fúria

Crítica 2 | Mad Max: Estrada da Fúria

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Ficção Pós-Apocalíptica Feminista

A série cinematográfica Mad Max é curiosa. São produções que atingiram status de cult mesmo não sendo blockbusters tipicamente Hollywoodianos – os fãs, por outro lado, os tratam de tal forma. Ícones da ficção pós-apocalíptica, que retratam um mundo devastado, os filmes da série são obras australianas, passadas no país, e em sua maioria sem grandes nomes. O primeiro Mad Max (1979) é uma produção independente, que colocou o ator Mel Gibson e o diretor George Miller no mapa.

Comprado pela Warner, o segundo filme teve um orçamento dez vezes maior que seu original e serviu para cimentar o cânone – mesmo assim, a obra de 1981 não se compara com o que era feito nos EUA na época, como O Império Contra-Ataca, por exemplo. O terceiro, A Cúpula do Trovão (1985), pode ser considerado o mais hollywoodiano e a única superprodução da saga – sentimos a diferença na escala da coisa, com uma cidade inteiramente construída e a presença de uma estrela da música mundial (Tina Turner) no elenco e dona da trilha sonora.

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É por isso que não deixa de ser curioso ver o primeiro filme da série verdadeiramente grandioso, totalmente bancado pela Warner, com um orçamento que (agora) realmente não fica devendo nada aos de Star Wars e super-heróis da Marvel (o orçamento estimado é de US$100 milhões). A quantia é notada na tela, Mad Max: Estrada da Fúria é um filme belíssimo. No tempo de fundos verde e CGI, os efeitos aqui não poderiam ser mais grandiosos.

De uma gigantesca tempestade de areia, passando pelas inúmeras perseguições insanas nas estradas e deserto, até o próprio conceito da cidade nas cavernas, o visual criado artificialmente para o filme funciona sempre a favor da trama – não se tornando a trama e o filme em si, como no caso de muitos blockbusters atuais.

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O motivo para tudo funcionar de maneira harmoniosa, é a presença do diretor George Miller novamente no comando. O cineasta fez questão de criar grande parte de seu filme com efeitos práticos, ou seja, o que vemos e podemos sentir durante as filmagens. Miller criou novamente sets gigantescos e confeccionou, ao lado de todos os outros responsáveis, cenas intensas e reais de ação. Os vídeos dos bastidores das filmagens já caíram na internet e podem ser conferidos – são impressionantes.




Um momento que chama atenção: os equilibristas que se balançam em varas, puxando pessoas de outros veículos e capturando-as. Um momento que certamente empolgará o público pela criatividade. Saber que tudo ocorreu de fato, mesmo que efeitos de computador tenham sido utilizados (apenas para retocar o todo), traz satisfação para os puristas e merece ser valorizado. Estrada da Fúria coexiste como uma continuação, uma refilmagem e um reinício para a precursora franquia pós-apocalíptica.

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Desta vez, interpretado por Tom Hardy, o protagonista Max é um homem duro, atormentado por um passado trágico. Já o encontramos incluído nesta realidade devastada, e a morte de sua família (parte da mitologia ao redor do personagem) é apenas vislumbrada através de flashbacks. Max possui seu possante de motor V8 – que na série original havia sido destruído no segundo filme – mas de cara é logo capturado por uma tribo.

Tal civilização vive em grandes cavernas, e muito lembra o conceito de Bartertown, a cidade da troca em A Cúpula do Trovão. A comparação vem do fato de que em ambas as cidades fictícias, existem dois níveis de sociedade. A primeira, dos líderes, que administram a cidade – ou pelo menos são suas fachadas. E a segunda, dos trabalhadores, que realmente são os responsáveis pela coisa funcionar e vivem num submundo.

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Aqui, Immortan Joe é o soberano. Ele lidera uma raça de doentes, deformados, cancerosos, e com todo tipo de problema relacionado à saúde – como respiratório. Por este motivo, mantém prisioneiros (como Max) para serem utilizados em transfusões de sangue e órgãos, e numa espécie de cofre, meia dúzia de beldades conhecidas como parideiras, cujo único propósito é dar a luz para suas crias, crianças em busca da perfeição.

O povo, do lado de fora, luta na miséria por água e mantimentos. Dentro dessa imensa estrutura, Immortan Joe conseguiu projetar um futuro dentro da terra devastada, que conta até mesmo com montanhas gramadas e produção de alimentos numa horta. Talvez o maior pecado de Estrada da Fúria seja mesmo não adentrar os detalhes desta grande e interessante civilização. É difícil equilibrar tudo, e a preferência é por privilegiar a ação.

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A maior parte (90% da projeção) do filme se passa nas estradas. Imagine o desfecho do segundo filme, sendo alongado durante um filme todo. Muitos poderão reclamar justamente da falta de um núcleo ou conteúdo que amarre tudo. Mas o que é deixado como pistas para juntarmos por nós mesmos, é igualmente interessante. Tudo o que precisamos saber está lá, embora não aprofundado.

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Chama atenção também a voracidade das cenas de ação e lutas (um momento bem legal é uma luta entre Max acorrentado, as parideiras e Charlize Theron), tudo realizado de forma realista, e embora acelerado o suficiente, nunca soando artificial, como em Vingadores: A Era de Ultron, por exemplo, um show pirotécnico de CGI. As homenagens chegam a todo instante também. Temos uma senhora armada com espingarda (do 1º filme), uma caixinha de música de corda (do 2º filme), e um anãozinho no controle da situação na cidade (do 3º filme).

Temos também um Max monossilábico (Mel Gibson tinha mais ou menos 80 palavras no segundo filme), e o fato de que o protagonista novamente é o elemento passivo dentro da história de terceiros. Além, é claro, do famoso take dos olhos esbugalhados pulando para fora das órbitas antes de uma colisão (quem conhece a série sabe do que estou falando).

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Outro forte elo de nostalgia é justamente Immortan Joe. Apesar de se tratar de um personagem inédito, seu intérprete é Hugh Keays-Byrne, ator que no filme original de 1979 viveu o principal vilão Toecutter. Voltando ao título deste texto, Mad Max: Estrada da Fúria pode ser considerado a primeira ficção científica pós-apocalíptica feminista. Isto vem diretamente relacionado à personagem protagonista do filme, a Imperatriz Furiosa, de Charlize Theron.

A beldade sul africana foge com o bem mais precioso do governante, suas esposas. Assim é iniciada uma nova liberação feminina, que busca a liberdade e o livre arbítrio. Além do subtexto social, A Estrada da Fúria também utiliza analogia religiosa, já que os soldados de Immortan Joe buscam uma aceitação divina, e por ela morrem felizes e “cromados”. O novo Mad Max é realmente novo e refrescante. Embora reutilize conceitos, tem sabor moderno e não requentado, além de muitas ideais embutidas.

 

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