Não fazem mais filmes de romance como antigamente?

Não fazem mais filmes de romance como antigamente?

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Por Nívia Passos

Do happy ending clássico ao final realista

Antes de entrar no mundo dos filmes alternativos, dramas mais sérios e me apaixonar pelos thrillers psicológicos de Darren Aronofsky (que foi injustiçado com a esnobada de mãe! – e aproveito esse espaço para deixar minha reclamação), eu era viciada em comédias românticas e romances em geral. Desses bem clichês mesmo, que a gente já descobre o final só com os créditos do início do DVD. Alguns, inclusive, fazem parte da minha lista de filmes queridos até hoje (como De Repente 30 e Como Perder Um Homem em Dez Dias, por exemplo), mas, com o passar do tempo, esse estilo mais água-com-açúcar foi um pouco esquecido por mim.

Até que, um dia desses, conversando sobre isso com uma amiga, me dei conta de que não foi só o meu gosto que mudou: os próprios filmes de romance passaram a seguir um viés mais realista na hora de retratar os relacionamentos. Não que não existam mais opções para quem só quer ir ao cinema para esquecer um pouco da realidade, e nem que essa linha mais distante dos finais felizes dos contos de fada tenha aparecido SÓ agora (tanto que a A Princesa e o Plebeu, de 1953, está aí para provar); mas, de uns tempos para cá, ver o casal principal junto no final tem sido mais uma exceção que uma regra, como era antes. E isso é incrível em um nível que a gente não faz ideia até parar para pensar sobre…



Se você já viu o maravilhoso – e realista! – 500 Dias Com Ela (2009) sabe do que eu estou falando. Na cena em que Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt) tem um surto insight na reunião do trabalho e critica os cartões comemorativos da empresa (e vou parar por aqui para não dar muito spoiler), ele diz o seguinte: “São esses cartões, os filmes e a música pop. São os culpados por todas essas mentiras. E os desgostos”. O que faz todo o sentido. É muito grande o impacto que os filmes – e todas essas demais expressões artísticas – têm sobre nós e sobre nossa percepção de mundo. Por isso, ainda que inconscientemente, a gente pode achar que um primeiro encontro não foi tão bom porque faltou a química que Meg Ryan e Tom Hanks mostram em Sintonia de Amor e Mensagem Para Você (1993 e 1998, respectivamente); ou que o seu namoro não é um dos mais perfeitos porque o seu ~relationship goals~ é uma declaração cinematográfica, como a da icônica cena em que o personagem de Heath Ledger canta “Can’t Take My Eyes Of You” em 10 Coisas que Eu Odeio em Você (1999). E o diálogo de reconciliação no aeroporto (sempre no aeroporto!) depois de uma briga que colocou o ponto final em tudo? Se não for para ser assim, exatamente assim, o outro nem precisa sair de casa para tentar…

Não estou falando que vivemos no mundo da lua, incapazes de discernir ficção e realidade, e nem que esse tipo de filme seja um vilão-destruidor-de-relacionamentos-que-precisa-ser-eliminado-para-já. Mas, sim, que, ao comparar o final feliz de todos eles com a nossa vida, ela pode não parecer tão boa no final das contas, ou deixar a impressão de que falta algo – ainda mais para quem é um pouco mais sensível à ideia do amor romântico. Enquanto os longas que ficam mais próximos do real mostram que, sim, está tudo bem se você colocar o trabalho antes do relacionamento às vezes; que não tem problema se a pessoa que está ao seu lado não souber falar os seus 5422133 sorrisos (quem viu Um Encontro com seu Ídolo, de 2004, vai entender a referência); e que, talvez, o verdadeiro final feliz seja cada um ir para o seu lado. Mesmo.

Empoderamento feminino também contribuiu para a mudança nas histórias

O feminismo está cada vez mais forte e, é claro, isso reflete no cinema. Por isso, a mudança na representação das personagens femininas também contribuiu – e muito! – para o número cada vez maior de romances realistas. Se, antes, era comum ver uma mulher abrindo mão de uma proposta de trabalho em outro estado, por exemplo, para não ficar longe do grande amor da sua vida, hoje, é mais provável que ela prefira terminar com o parceiro no final do filme para ir atrás de seus sonhos. E aquele velho maniqueísmo, da protagonista toda certinha, também tem sido deixado de lado para dar lugar à outra mais real, com falhas e acertos como qualquer ser-humano. Como você e eu.

Mas como isso afeta, diretamente, a história? É que, com a quebra do estereótipo da mulher “perfeita” e frágil, que precisa de um homem para ser feliz, seguir uma narrativa que fique mais próxima da realidade é quase uma consequência. Uma personagem forte, empoderada e independente permite mais possibilidades, diferentemente de outra que se encaixe em um determinado molde – que, no fim das contas, vai sempre ter que seguir a clássica fórmula de garoto-encontra-garota-entram-em-conflito-e-no-final-são-felizes-para-sempre. E, olha, isso não significa que uma protagonista mais complexa não possa ter o seu happy ending: a diferença vai estar em tudo o que ela vai viver até chegar nele.

A consequência de tudo isso para o público em geral – além do fato de acompanharem uma história mais realista – é a chance de poderem ver um retrato do próprio relacionamento nos filmes; longe de fantasias e expectativas quase impossíveis de serem alcançadas. Para as mulheres, a existência de personagens que já começam fortes na história ou que alcançam essa personalidade durante sua jornada funciona como um modelo. Como um exemplo para que façam suas escolhas baseadas em suas próprias vontades em vez de acreditarem que só serão plenas de verdade ao lado de uma versão moderna do príncipe encantado.

Filmes de romance realista para ver já!

Além do já citado 500 Dias Com Ela, que foi um dos primeiros filmes que vi com um olhar mais realista sobre o amor, existe uma lista enorme de longas que tratam sobre relacionamentos de uma maneira mais crua e verdadeira. Selecionei alguns dentre os que mais gostei para indicar para você que ainda não entrou nesse universo ou que já está nele e quer mais opções para o sábado à noite. Tem estilos para todos os gostos: dos aclamados pelo público e crítica aos que são descobertos por acaso na TV ou na Netflix; alguns mais leves, outros bem densos; com o casal junto no fim ou cada um seguindo o seu caminho. Confira:

1 – Trilogia do Antes (1995-2013), de Richard Linklater

“Nunca consegui esquecer ninguém com quem me envolvi. Porque cada pessoa tinha suas qualidades específicas. Você não pode substituir ninguém. O que é perdido é perdido”

Do mesmo diretor de Boyhood (2014), a chamada “trilogia do Antes” é uma das maiores referências quando o assunto é romance realista, até por trazer esse estilo em uma época que as comédias românticas clichês reinavam. Protagonizados por Ethan Hawke e Julie Delpy, os três filmes foram filmados com um espaço de nove anos entre um e outro – bem no estilo Linklater de seguir uma mesma história por um longo espaço de tempo (vide Boyhood, que foi gravado durante 12 anos) para mostrar diferentes fases da vida.

Tudo começa quando, no primeiro filme (Antes do Amanhecer, 1995), a francesa Céline e o americano Jesse se encontram em um trem na Europa e, atraídos um pelo outro, passam um dia inteiro juntos antes de seguirem seus respectivos destinos. A partir daí, não posso falar muito sobre esse e os outros dois longas (Antes do Pôr-do-Sol, 2004, e Antes da Meia Noite, 2013) para não dar spoiler para quem ainda não viu; mas já adianto que os diálogos estão entre os melhores que já vi em romance (e você, provavelmente, já se deparou com alguns quotes espalhados por aí em prints de cena ou gifs). É do tipo “obrigatório” para quem ama o gênero.

2 – Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004), Michael Gondry

“- Eu não vejo nada que eu não goste em você.

– Mas você vai. Você vai pensar em coisas, vai ficar entediado e vai se sentir preso, porque é isso que acontece comigo”.

Já imaginou ter a opção de esquecer tudo o que você viveu com uma pessoa? Pois essa é, justamente, a premissa desse clássico cult que traz Kate Winslet e Jim Carrey como protagonistas. No filme, depois do fracasso do relacionamento, Joel descobre que sua ex-namorada Clementine decidiu recorrer a um tratamento experimental para apagar da mente todos os momentos que viveu com ele. E, então, mesmo sendo contra a ideia, também decide procurar a mesma clínica para parar de sofrer por alguém que o deletou por completo e literalmente. Porém, durante o processo, ele se pergunta se realmente quer se desprender de todas as memórias e entra em desespero quando elas começam a ser apagadas.

Com montagem não-linear, diálogos bem reais e uma narrativa ousada (que permite diferentes possibilidades por se passar, quase toda, na cabeça de Joel),
Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças saiu do ciclo do cinema alternativo/independente e se tornou um dos filmes mais elogiados de todos os tempos. O roteiro, assinado por Charlie Kaufman, inclusive ganhou o Oscar da categoria em 2005.

3 – Namorados Para Sempre (2010), de Derek Cianfrance

“Baby, você fez uma promessa para mim, ok? Você disse, ‘na melhor e na pior’. Você disse isso. Foi uma promessa”.

Não se engane com a tradução de Blue Valentine. Apesar do nome Namorados Para Sempre, esse romance dramático está bem longe de mostrar uma história de amor leve, fofa e feliz. O filme é um cruel retrato sobre relacionamentos desgastados e sobre a tentativa de revivê-los, em nome dos velhos e bons tempos, mesmo que tudo mostre o contrário. A fotografia – assinada por Andrij Parekh  – é toda trabalhada em tons de azul, acompanhando o “blue” do título original e refletindo bem a tristeza e melancolia dos personagens.

A história é sobre o casal Cindy e Dean, vividos pela dupla Michelle Williams e Ryan Gosling. Após uma linda história de namoro, anos de casados e uma filha pequena, o relacionamento dos dois entra em crise e fica bem próximo do fim. Porém, preso a tudo que viveram na época da juventude, o marido luta contra as aparências e as evidências  a realidade e faz de tudo para reviver o que já parece adormecido. Se ainda não viu, assista! Mas evite em dias de bad, sério.

4 – Ruby Sparks – A Namorada Perfeita (2012), de Jonathan Dayton e Valerie Faris

“Você tem todas essas regras e não me diz quais são… Até que, ops, eu quebro uma delas. E aí você tem direito de ficar desapontado comigo?”

Encontrei Ruby Sparks em um desses dias que a gente não tem nada específico para ver e vai passando os canais até parar em algo que chame atenção. Pelo nome, imaginei que seria uma dessas comédias românticas bem levinhas e com final clichê – que são ótimas para os dias em que falta cabeça para ver algo mais sério. Mas, conforme o filme foi avançando, fui surpreendida por uma narrativa bem mais profunda do que parecia à primeira vista e uma interessante análise sobre relacionamentos.

No filme, Paul Dano é Calvin – um jovem escritor que, após fazer muito sucesso com o seu primeiro livro, entra em um tenso bloqueio criativo. Até que, em um dia de inspiração repentina, começa a escrever uma história sobre uma garota, Ruby Sparks, que tem tudo o que ele procura em uma namorada – e, misteriosamente, ela ganha vida e aparece em sua casa como se os dois tivessem exatamente o relacionamento descrito no livro. Tudo parecia perfeito no início, mas quando a namorada começa a fazer suas próprias escolhas, Calvin começa a se aproveitar do fato de poder mexer no texto que lhe deu vida para que ela perca o livre-arbítrio e siga exatamente tudo o que ele quer.

O roteiro, com ótimas sacadas e um texto incrível, é assinado por Zoe Kazan – a atriz que interpreta a própria Ruby Sparks. Veja para ontem!

5 – Azul é a Cor Mais Quente (2013), de Abdellatif Kechiche

“Não quero te perder por algo à toa”

Filmes com temática LGBT – como o ótimo Call Me By Your Name (Me Chame Pelo Seu Nome), que está concorrendo ao Oscar deste ano – também trazem um olhar bem realista sobre namoros em geral. Esse é o caso de Azul é a Cor Mais Quente, filme francês que deu o que falar em 2013 ao narrar uma belíssima história sobre relacionamentos e, principalmente, amadurecimento. O foco é a trajetória da adolescente Adèle (Adèle Exarchopoulos), que é surpreendida ao se apaixonar por uma garota de cabelo azul (Emma, vivida por Léa Seydoux) quando, até então, só se interessava por garotos.

A partir do momento em que as duas se conectam, a jovem começa uma jornada de descobertas que vai muito além da questão sexual, e o longa aproveita essa premissa e o amadurecimeno da personagem para pintar um retrato sobre as diferentes fases de um relacionamento. Sou suspeita para falar de filmes franceses porque, particularmente, acredito que eles lançam um olhar único sobre as histórias de amor, mas pode confiar quando digo que este está entre os melhores do gênero e adicionar na sua listinha de “para assistir”.

6 – Ponte Aérea (2015), de Julia Rezende

“Não sei até agora se eu fui lá te dar um soco na cara ou falar pra você que eu te amava”

E, para fechar a lista, um filme brasileiro que também assisti por acaso zapeando pela televisão e que me surpreendeu positivamente. Ponte Aérea, que traz a ótima dupla Letícia Colin e Caio Blat como protagonistas, conta a história de um carioca e uma paulista – Bruno e Amanda – que se conhecem em um hotel em Belo Horizonte após o avião em que estavam precisar pousar por causa da tempestade. Atraídos um pelo outro, eles passam a noite juntos; mas, o que parecia ser apenas um encontro casual, evolui para uma paixão mais séria quando o rapaz procura a jovem durante sua passagem por São Paulo.

Amanda é o retrato da mulher moderna – forte, independente e bem sucedida na profissão de publicitária. Porém, ao se envolver com Bruno, um artista plástico sem muitas ambições e totalmente oposto ao seu modo 220 volts, acaba ficando um pouco mais fragilizada por causa do sentimento. Tem quem critique o filme por algumas atitudes da personagem no decorrer da história, mas enxergo essa mudança de personalidade mais como uma maneira de fazer o público refletir sobre determinadas escolhas que podemos tomar quando nos envolvemos com alguém, do que como uma falha na mensagem. Não posso entrar em mais detalhes para não dar spoiler… Então, assista para tirar suas próprias conclusões.