Sobre Palhaços, Tubarões e Maníacos Urbanos – Parte 1

Sobre Palhaços, Tubarões e Maníacos Urbanos – Parte 1

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FRAMES DO TERROR

CENAS DA VIDA COTIDIANA Nº 01

Há situações em nosso cotidiano que parecem refletir acontecimentos comuns aos filmes e séries a que assistimos. Crimes em série, estupros, atos violentos de vingança e maníacos excêntricos já foram tão explorados pela ficção que ao acontecer na vida real, soam como parte de um mundo paralelo ao qual não pertencemos diretamente.




Um ataque de tubarão numa região praieira, um crime cometido por um indivíduo transtornado e mascarado, bem como uma série de ataques a pessoas comuns, em suas trajetórias diárias, realizadas por alguém apelidado de “maníaco da seringa”, são situações típicas do terreno ficcional, mas que nos últimos meses, tem acontecido na realidade, nos levando a utilizar uma expressão clichê, mas funcional: “a vida imita a arte” ou “a arte imita a vida”.

Pavor no Mar

Para início de conversa, vamos falar sobre os tubarões. Primeiramente, a espécie marinha sempre foi considerada perigosa, mas o seu status de fera do mar alcançou o ápice após o lançamento de Tubarão, de Steven Spielberg, tradução intersemiótica da novela homônima de Peter Benchley, lançado nos a nos 1970, uma época de incertezas nos Estados Unidos.

O filme foi um fenômeno nas bilheterias e abriu um novo segmento na indústria cinematográfica: o jawsplotation ou simplesmente o subgênero filme de tubarão, uma classificação que trafega livremente entre os filmes de aventura e terror. Aparentemente simples, o filme possui camadas que revelam uma trama mais complexa do que a que se imagina: não é apenas um filme sobre uma criatura marinha assassina, mas um drama sobre a incapacidade de um homem em resolver os conflitos que gravitam em torno da sua existência. Ele é policial, autoridade na região dos ataques, mas não possui as forças suficientes pois tem hidrofobia e para piorar, precisa lidar com a presença nociva da mídia e as necessidades de um político pouco interessado na segurança.




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Com uma trilha sonora envolvente, desenvolvida pelo mestre John Willians, Tubarão apavorou plateias e mudou a relação de muita gente com o mar. Basta você assistir a qualquer documentário sobre tubarões ou alguma outra criatura marinha de dimensões similares, e o nome de Spielberg e da sua besta mitológica serão citados.

A trama rentável não ficou apenas nos Estados Unidos. O México, a Itália e a Espanha foram alguns dos países que investiram em tubarões e lançaram filmes que hoje são pérolas do subgênero. No Brasil houve uma divertida paródia intitulada Bacalhau: no filme o tal peixe atacava as pessoas na beira da praia. Cheia de absurdos, a trama faz jus ao termo paródia e abusa de todos elementos subversivos que o leitor possa imaginar, no entanto, é uma fonte de pesquisa histórica dos mecanismos que envolvem a nossa indústria cinematográfica que tais problemas parecem desaparecer na projeção e recepção por pessoas que pensam o  cinema numa perspectiva mais intelectual, muito além dos princípios do lazer.

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Há algumas semanas, o que parecia ser uma trama cinematográfica oriunda deste universo ganhou projeção na vida real. No dia 10 de outubro de 2016, alguns jornais de Salvador noticiaram a presença de um tubarão de quase três metros, avistado por funcionários das Docas, próximo ao Terminal Marítimo de São Joaquim, na região da cidade baixa. Os indivíduos filmaram a criatura marinha e enviaram o vídeo para divulgação.

De acordo com os relatos, os funcionários alegaram que o bicho nadou nas praias de Cantagalo e Boa Viagem, região frequentada por banhistas. Soube desta notícia por uma estudante, logo no primeiro horário, antes de iniciar a minha primeira aula do dia. Entusiasmada, a garota narrou o acontecimento como se aquilo fosse uma “situação cinematográfica que invadia a vida real”.

Ao saber do acontecimento e assistir ao vídeo, disponível também através de compartilhamentos via whatsapp, fiz uma breve varredura nas últimas notícias sobre presença de tubarões no Brasil, algo noticiado com pouca relevância, e descobrir, nesta pesquisa, que as fronteiras entre o discurso cinematográfico e a vida real é um prato cheio para jornalistas e cidadãos comuns.

Ainda em 2016, no dia 10 de abril, um tubarão foi encontrado na praia de Cantagalo, local frequentado por banhistas. O animal estava “debilitado e sem nenhum dente”, afirmava a reportagem. Num veículo mais sensacionalista, a informação era um pouco diferente: “para quem adora uma praia, muita cautela e atenção”. O título já dá a entender que algo de perigoso tomava conta das águas em Salvador. No decorrer do texto, o oportunismo se expressa, ao apontar que “na hora havia crianças na água e o mesmo estava se dirigindo na direção delas quando foi capturado”.

Em 2011, um vídeo sobre um suposto tubarão nas águas próximas ao Yatch Club da Bahia impressionou muita gente. O vídeo mostrava a sombra de um animal que tinha em média dois metros. Durante entrevistas, o professor universitário Everaldo de Queiroz alegou que o risco de um ataque nesta região não deve ser uma ameaça descartada, mas algo tão raro quanto ser atingido por um raio. Segundo o especialista, “os seres humanos não são presas naturais dos tubarões, pois estes ataques são acidentais”.

Na reportagem, o professor discorre sobre a presença comum de tubarões no litoral baiano e narra descobertas nas praias de Piatã e Porto da Barra, deixando outra teoria para entender tais presenças:

“sem a fartura de peixes em áreas profundas, eles poderiam estar se aproximando da costa para se alimentar”.

Tais informações, no entanto, quando lidas de maneira descuidada ou adquiridas por formadores de opinião, pode espalhar o medo, causar pânico social e vender muitos jornais. Na seara do virtual, pode dar a projeção para o narrador, numa demonstração que Gale Weathers, a mesquinha repórter da franquia Pânico, é uma projeção de muitos jornalistas da vida real.

Com a disseminação destas presenças consideradas incomuns, boatos são centrifugados na sociedade, espalhando o medo e afastando banhistas das praias. “Nunca mais mergulho ali”, “cuidado com os tubarões” ou “morro de medo” foram algumas expressões de moradores de Salvador em rodas de conversa sobre o assunto. Munido com minha memória registradora, repassei tudo à caneta para alguns rascunhos, visando refletir sobre esta questão mais adiante.

Segundo o ISAF (International Shark Attack File), na Bahia, entre 1931 e 2010, apenas quarto ataques foram registrados, todos sem vítimas fatais. O susto, pelo menos, foi garantido. Em 2008, na praia de Guarajuba, um tubarão mordeu a prancha do surfista Ricardo Garcia. Em 2005, na praia de Luzimares, litoral norte de Ilhéus, um jovem de 13 anos foi atacado e levou 300 pontos na perna direita, após o ataque de um tubarão de três metros. Em Recife, um ataque mortal modificou as estatísticas do ISAF: uma adolescente em férias na região foi atacado e não resistiu aos ferimentos.

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Há três pontos expressivos durante a disseminação dos boatos e matérias sobre o assunto nas notícias mais recentes: a insistência no uso do vocábulo banhistas, o ritmo fantasioso da narração por parte de algumas matérias e as comparações com a presença de tubarões em Recife. No primeiro caso, a relação entre a soma banhistas + tubarões dá um resultado satisfatório no que diz respeito à polêmica. É rentável, mesmo que irresponsável, espalhar este tipo de informação. O assunto ganha fermento metalinguístico, é associado ao cinema, rende mais reportagens e dá pano para manga aos jornalistas do estilo sensacionalista.

O mesmo no que se refere ao segundo ponto, ou seja, o nível de fantasia dos relatos, pois diferente do que aconteceu, a descrição de uma das reportagens, por sinal, a mais popular em acesso dentre as analisadas, parecia a descrição de uma das cenas mais famosas do clássico de Spielberg, quando uma criança é atacada pelo tubarão-branco.

No que tange aos ataques de tubarões em Recife, para Milton Marcondes, do Instituto Baleia Jubarte, as condições que relacionam as duas orlas são distintas. Segundo informações do especialista, em Recife, eles aterraram um mangue para construir o Porto de Suape, uma região que era ponto de reprodução para diversos peixes, mas que após ser eliminado, diminuiu a oferta de alimentos para os tubarões. Outra questão importante é a história que relata a presença de um abatedouro bovino que descartava os seus resíduos sem tratamento no mar, algo que também pode ter provocado a presença das criaturas marinhas e, consequentemente, os ataques.

Para o pesquisador é necessário desmitificar a imagem dos tubarões construída pelo cinema, pois a figura ganhou contornos muito negativos graças aos apelos da sétima arte. Tal solicitação, entretanto, é uma proposta de intervenção que vai demorar muito tempo para se estabelecer, pois somente este ano, Águas Rasas e o inédito In The Deep, ótimas narrativas, alcançaram bastante êxito nas bilheterias e provaram que o gênero ainda atrai bastante gente.

  1. Não perca a segunda parte do especial!

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