Construir um universo literário nunca é uma tarefa fácil – é só pensarmos, por exemplo, na originalidade de ‘Senhor dos Anéis’, ‘As Crônicas de Gelo e Fogo’ e ‘Harry Potter’, três sagas de ficção fantástica que são aplaudidas por fãs do gênero e pelos especialistas. Mais difícil ainda é embeber narrativas originais a metáforas mais simbólicas e que atravessem gerações e épocas para um bem comum. Nesse âmbito, assim como o trio supracitado, temos também a irretocável criação de Suzanne Collins, Jogos Vorazes.

Collins já era uma veterana no cenário do entretenimento, principalmente por ter criado a conhecida animação infantil ‘Ursinhos Carinhosos’. Mas não foi até a publicação do primeiro volume da série de livros em 2008 que ela se encontraria com sua magnum opus, arquitetando uma densa e instigante trama ambientada em Panem, um estado soberano nuclear que se estabeleceu anos após conflitos globais e desastres ecológicos, abrindo um novo capítulo da história da humanidade e trazendo a civilização moderna à ruína. Centralizada pela Capital e por treze Distritos adjacentes e periféricos, Panem é localizada no que se conhecia como América do Norte e tornou-se palco de massacres brutais que envolvem jovens sacrificados para manter o autoritarismo demagogo do tirano Presidente Snow ativo.

Para aqueles não familiarizados com o enredo, o resumo apresentado acima é um bom motivo para começar a ler os romances e, logo depois, partir para as ótimas adaptações cinematográficas estreladas por Jennifer Lawrence. Mas as camadas vão para além de uma mera sinopse, infiltrando-se em temáticas de necessária discussão e que exaltam-se numa atemporalidade invejável, como as já mencionadas incursões ditatórias. O estabelecimento de Collins como novelista veio acompanhada de uma extensa bagagem cultural, incluindo referências ao clássico ‘Battle Royale’ (1999), de Koushun Takami.



Após a ascensão de Panem, os Distritos, que perderam a guerra, foram obrigados a alimentar a vida luxuosa dos habitantes da Capital e, como se não bastasse, também deviam pagar uma “taxa humana”, entregando um garoto e uma garota ano após ano para lutarem pela vida nos Jogos Vorazes, eventos mórbidos que emprestam o nome ao título da saga. Cada uma das peças apresentadas pela autora é emplastrada com simbologias que são óbvias quando explicadas, mas que podem passar longe para aqueles que procuram uma mera diversão. O próprio vocábulo Panem faz menção à frase latina panis et circenses (pão e circo, em português), política empregada pelo império romano para entreter a população e fazê-la se esquecer dos problemas sociais.

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De fato, os participantes dos Jogos funcionam como gladiadores antigos – inclusive quando voltamos a atenção para a caracterização do evento. Armas seculares, como arpões, flechas e espadas, disponíveis em uma Arena da mais avançada tecnologia. No lugar das arquibancadas do Coliseu, drones voadores e câmeras escondidas marcando os passos, os confrontos e as mortes para adoração de espectadores refugiados no conforto de suas casas – e de familiares roendo as unhas esperando o pior.

As críticas à glamourização da tragédia, dignas de pungentes análises sobre o tratamento da mídia acerca de assuntos cautelosos, não se restringem apenas ao evento titular, mas também às outras incursões presentes nos livros e nos filmes. A própria configuração da Capital segue no mesmo princípio: contrastando com a sobriedade miserável dos Distritos, há uma exuberância exagerada do que se entende por “classe dominante”, que mergulha no luxo de trajes esvoaçantes, maquiagens pesadas e brilhantes e uma opulência desnecessária compreendida, nos moldes que conhecemos, como um capitalismo predatório. Os edifícios, as ruas, a sede do governo de Snow é planejada aos mínimos detalhes, erguendo-se imponente num horizonte marcado pela fome e pela sobrevivência – é só pensarmos, por exemplo, na massa amorfa da qual Katniss emerge como a salvadora e como aquela que pretende reverter o que lhes foi renegado há quase oito décadas.



O choque também é um elemento de grande importância para a condução da narrativa: tal aspecto está presente através de reviravoltas “forçadas” de reality shows, mais precisamente quando Peeta (interpretado por Josh Hutcherson) anuncia a gravidez de Katniss em plena televisão ao vivo e despertando um primordial sentimento de empatia nos habitantes da Capital – algo que não dura muito, considerando que a decisão de Snow é “continuar o show” em prol de relembrar quem pertence aos vitoriosos e quem pertence aos perdedores. As investidas sociológicas partem de inúmeros lugares, incluindo a entidade do Grande Irmão veiculada por George Orwell e o conceito do panóptico de Jeremy Bentham – ambos retratando a falsa ilusão de liberdade e o constante controle governamental.

A cereja do bolo emerge com a mistura de arte e política, algo que não é muito diferente da nossa realidade. O ápice, de fato, vem com o trabalho de Cinna (Lenny Kravitz) em desenhar um vestido bimodal para Katniss, em que ela se transforma no tordo em pleno palco – ave que foi talhada como símbolo de resistência dos Distritos contra a opressão da Capital. Recebido com aplausos até mesmo pelos membros da elite, Cinna encontrou seu fim em uma represália bruta, alimentando a necessidade de Katniss em mudar o status quo de uma vez por todas e mostrar a verdadeira voz das minorias.

É claro que uma breve matéria como essa não é o suficiente para explorar todas as nuances presentes em Jogos Vorazes, mas ao menos é o bastante para instigar mais reflexões sobre a magnífica saga criada por Suzanne Collins. E, para aqueles que queiram tirar as próprias conclusões, vale lembrar que todos os filmes já estão disponíveis na HBO Max.

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