Em 16 de agosto de 1958, o mundo dava as boas-vindas (ainda sem saber, é claro) a maior popstar da história da música: Madonna Louise Ciccone – ou, simplesmente, Madonna. Desde sua estreia em 1983 com seu álbum homônimo até os dias de hoje, a artista, consagrada por muitos (inclusive este que vos escreve) como uma lenda iconográfica da indústria do entretenimento, vem inspirando novos nomes e comumente aparece, por mais sutil que seja, em produções musicais que rodeiam o dance-pop e electro-pop, suas marcas registradas desde sempre, para ser honesto.

Entretanto, os explosivos números de sua extensa carreira, que já beira as quatro décadas de existência, não são o bastante para explicar a importância cultural e social que a performer exala mesmo na contemporaneidade. É claro que não podemos deixar de colocar Madonna no pedestal que merece, seja como a Rainha do Pop, seja como a mulher mais bem-sucedida da esfera fonográfica (com mais de 250 milhões de discos/músicas vendidos), seja como a cantora com a turnê mais lucrativa da década (Sticky & Sweet Tour, em promoção ao seu álbum Hard Candy); porém, mais do que isso, ela é um modelo a ser seguido, uma forte e independente mulher que, constante e inexplicavelmente diminuída por sua idade, quebrou barreiras e mudou o cenário para sempre, alcançando o mesmo feito que The Beatles conquistara décadas antes.



Mas antes de tudo, precisamos entender quem realmente é Madonna. Vinda de um panorama que incluía Blondie e Pretenders (mais especificamente as icônicas Debbie Harry e Chrissie Hynde), a artista encontrou sua voz pouco depois de seu début. Após fazer um estrondoso sucesso como o rosto de uma nova geração feminina – que vinha lutando tanto para se afastar dos grupos que pipocavam a todo segundo quanto para conseguir seu espaço num território dominado pelo rock’n’roll e pela tóxica e engessada masculinidade de certas figuras. A partir disso, Madonna encontrou seu verdadeiro eu e tomou as rédeas de sua identidade quando mais ninguém a ajudou, culminando numa artística veia que nunca se conformou aos moldes a que fora destinada e sempre nos surpreendeu com mudanças drásticas e conceitos experimentais muito à frente de seu tempo.

Entre altos e baixos – assim como a carreira de qualquer performer -, Madonna nunca deixou de ouvir seus instintos, levando o aclamado diretor David Fincher (que comandou videoclipes como “Vogue” e “Bad Girl”) a dizer em 2014 que “a melhor forma de lidar [com ela] era seguir seu ímpeto”, o que realmente não está longe da verdade. É por isso que temos a divertida (e mais profunda do que parece) “Material Girl” em Like a Virgin, a chocante iconoclastia imperialista da música titular em Like a Prayer, o retorno às suas origens com a provocante e revolucionária “Deeper and Deeper” em Erotica e o poderoso hino de conscientização em “God Control”, lançado ano passado com Madame X.

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Ao longo de sua discografia, conhecemos inúmeros alter-egos da artista, como Dita Parlo ou as catorze outras complexas personalidades construídas especialmente para seu último álbum. Cada uma delas, por mais escondida ou misteriosa que seja, contribui para que compreendamos o que Madonna trouxe de novo para a “monótona” (por assim dizer) atmosfera que a permanência de gêneros causava nos anos 1980. É certo dizer uma coisa: a Rainha do Pop revolucionou sem qualquer pedantismo mercadológico basicamente tudo que se propôs a fazer, tecendo a princípio linhas que se transformaram numa ardente e inextinguível fama. Madonna recuperou a carreira solo dos artistas que vinham bombardeados com a cultura disco das bandas musicais, abrindo portas para suas conterrâneas – como Kylie Minogue, que depois a influenciaria com a estética dance de Fever – e para as novatas que ganhariam força na transição da era analógica para a digital – como Rihanna e Lady Gaga.

Em 1998, Madonna sairia da mimética e onírica Bedtime Stories para nos colocar em êxtase com Ray of Light, uma de suas obras-primas que permitiu ao techno-pop ganhar uma escala global muito maior do que tinha, mantendo essa estética com Music e voltando a explorá-la de 2008 em diante. Like a Prayer, por mais que não tenha feito um barulho considerável na temporada de premiações à época do seu lançamento, colocou o pop como um state-of-art, uma joia irretocável que representava um pastiche muito bem formulado a ser cultuado por várias gerações. Ora, até mesmo suas incursões na literatura transformariam o cenário, clamando pela expressividade artística de seus fãs com a divulgação de ‘Sex’ e das polêmicas e sensuais fotografias. Mesmo na moda Madonna não ficaria de fora, com seus figurinos haute culture eternizados pela preferência sádica do couro e pelos sutiãs em forma de cone (Blonde Ambition Tour mandou lembranças).



A cantora é até hoje associada a uma imagética sexual, mas nunca permitiu que fosse difamada pelos mais reacionários e conservadores. Não é surpresa que seus discursos são pautados em sexualidade, autoafirmação, gênero, feminismo e condenação da religião – levando vários líderes católicos a condenarem-na do mesmo modo que Gaga sofreria anos mais tarde com The Fame Monster e ‘Born This Way’. De qualquer forma, Madonna deu às costas a esses discursos e continuou a utilizar de modo explícito deturpações simbólicas e comportamentos irreverentes em todas as suas apresentações, colocando-a num pedestal quase sacro por todas as razões “erradas”.

No final das contas – na verdade, em um momento que ainda está longe de acabar -, Madonna transformou a estrutura du jour de basicamente tudo o que conhecemos em uma continuidade inenarrável, borbulhando com investidas interessantes e originais que ainda têm muito para nos contar. Mas o que mais é próprio de sua estética é uma capacidade metamórfica que jamais deixa claro o que podemos esperar de seu próximo retorno aos holofotes.

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