Pedro Almodóvar sempre esteve nos holofotes, mas não pelos motivos que poderíamos imaginar: ao longo de sua extensa carreira, o diretor espanhol entregou ao público diversos filmes controversos cujos temas oscilavam desde sacrilégios católicos até comentários sobre diversidade sexual e interlúdios narrativos. Entretanto, é inegável dizer que ele transformou seus longas-metragens em um aplaudível legado, com consequências artísticas que duram até os dias de hoje – e é essa noção básica e resumida de sua filmografia que nos deixou bastante empolgados para a próxima investida, o drama Dor e Glória (que fez um tremendo sucesso no circuito de festivais.

Três anos depois de levar Alice Munro para as telonas com Julieta’, Almodóvar resolveu mergulhar em uma espécie de reflexão quase autobiográfica, mas cuidando para que o enredo não fosse totalmente baseado em sua vida e trouxesse originalidade e autossuficiência aos cinemas. Para tanto, arquitetou uma trama não-cronológica que viaja entre o presente decadente e o passado saudosista de Salvador Mallo (Antonio Banderas), um cineasta que vive em Madrid e que observa sua carreira ser relembrada apenas por feitos antigos, visto que não consegue canalizar suas habilidades para uma nova produção. É por isso que Salvador opta por se isolar nas memórias que têm de sua infância na primitiva aldeia de Paterna, de seu primeiro amor, de seus relacionamentos e de sua querida mãe.


Se Banderas encontrou-se em uma irretocável e ardilosa performance em 2011 com A Pele que Habito, voltou com força ao encarnar um complexo protagonista que recorre às drogas e a uma nostalgia narcótica que o impede de se voltar para o mundo em ruínas à sua volta. É claro que ele é relembrado por nomes próximos, como a assistente Zulema (Cecilia Roth) e seu colaborador Alberto (Asier Etxeandia), com quem não fala há mais de trinta anos devido a intrincadas divergências; porém, ele decide internalizar suas emoções e usar o que conseguir como escapismo – que, eventualmente, insurge como o principal mote dessa íntima e singela jornada coming-of-age.


Percebe-se que Almodóvar, como já mencionado, utiliza de suas próprias experiências para criar algo pessoal e que, ao mesmo tempo, mantenha relações dialógicas com iterações predecessoras. No caso, ele abandona certos elementos como a excessiva estética kitsch e camp cultivados ao longo de sua vida, mas permanece firme aos aspectos vibrantes das construções cênicas; nota-se claramente sua paixão pelas referências da indústria cinematográfica (fazendo um apelo sutil para o surrealismo de Luis Buñuel, por exemplo) e por uma paleta de cores vibrante que se atenua ou se expande à medida que a atmosfera lentamente se deteriora ou se reconstrói.

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O cineasta também faz questão de imprimir uma crueza corporal que atravessa a trajetória do personagem principal: apesar de não recorrer a métodos escatológicos, é notável o modo como a obra desconstrói tabus acerca da sexualidade, levando Salvador a refletir acerca de seu primeiro desejo – consolidado quando ainda morava com a mãe nas cavernas do vilarejo e encantou-se com a figura nua de um artista iletrado que foi contratado para colocar azulejos na parede de sua casa em troca de aulas de escrita e de matemática. Mais do que isso, Banderas entrega-se a uma atuação chocante pelas múltiplas camadas psíquicas que retém apenas em seu olhar, recusando-se a um melodrama novelesco em prol de um naturalismo emocionante e envolvente.

Penélope Cruz colabora pela quinta vez com Almodóvar ao interpretar a versão mais jovem de Jacinta, mãe de Salvador. Sua rendição apaixonante nos tira o fôlego e nos rouba a atenção em praticamente todos os frames em que nos agracia com a cândida personalidade que nutre. Ao lado dela, o jovem Asier Flores encarna o personagem-criança de Banderas, surpreendo por sua competência jovial e por sua desinibição. E, para completar o time de incríveis performers que acompanham o astro protagonista, temos também a breve aparição de Leonardo Sabaraglia como Federico, que reata seus laços com Salvador depois de se reconhecer em um monólogo apresentado por Alberto. E o mais interessante, sem sombra de dúvida, é a forma como cada um dos membros do elenco se entrelaça em uma química invejável, ousando para além do que imaginávamos, mas nunca tangenciando uma artificialidade artística.


Dor e Glória culmina em uma distensão incrível ao brincar com concepções metalinguísticas e unir dois polos opostos em um mesmo lugar. O diretor, munido com um roteiro incrivelmente bem amarrado, consegue nos surpreender com um drama pessoal e familiar que, mesmo se afastando do ineditismo fílmico, cria reviravoltas interessantes e um amargor sinestésico que nos acompanha até os momentos finais.

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