Ao longo da história da literatura, inúmeros épicos fantásticos se tornaram bastante populares – desde a epopeia de ‘Gilgamesh’, considerada a narrativa mais antiga da humanidade, até os clássicos gregos ‘Odisseia’ e ‘Ilíada’, contando as fabulosas e perigosas aventuras de Ulisses e Aquiles. Aos moldes de Homero, que assinou estas duas últimas obras supracitadas, tivemos também a ilustre presença de Luís Vaz de Camões com ‘Os Lusíadas’, considerada como uma das produções mais importantes de todos os tempos (e isso sem comentar os trabalhos de Mary Shelley e Edgar Allan Poe, que fizeram renascer o século XIX com um terror gótico que exalava traços da fantasia). E, dentre esses honráveis nomes, temos o grandioso nome de J.R.R. Tolkien.

Nascido em solo britânico, Tolkien não foi apenas um dos escritores mais notáveis do século XX, mas trabalhou como acadêmico, poeta e filólogo, concentrando todo o aprendizado de sua carreira em sua magnum opus, O Senhor dos Anéis. Enquanto muitos costumam virar as costas para a extensão do enredo criado por Tolkien e, principalmente, da adaptação que Peter Jackson levou aos cinemas, não há uma pessoa no mundo que não tenha ouvido falar do título dessa espetacular saga. Afinal, a jornada de Frodo Bolseiro e Samwise Gamgee serviu de inspiração para diversos autores que despontariam no cenário mainstream décadas mais tarde – incluindo George R.R. Martin, George Lucas, J.K. Rowling e Neil Gaiman.

É necessário comentar que O Senhor dos Anéis veio como sequência de ‘O Hobbit’, história arquitetada por Tolkien para seus filhos – o que, naturalmente, engloba uma visão mais pueril e destinada a um público mais jovem. Ao migrar para a lenda do Um Anel e acrescentar mais complexidade aos personagens, ampliando uma mitologia já invejável e rica, o teor da inocência passa a ganhar camadas e mais camadas densas de perceptividade social, como se a crença de que a realidade é algo tangível e manipulável fosse totalmente varrida para debaixo do tapete, e as sólidas barreiras do pré-conhecimento, derrubadas. É nessa essência que os três romances se baseiam, além de pegar inúmeros elementos emprestados do esquema d’A Jornada do Herói, de Joseph Campbell.



Para aqueles não familiarizados, os livros acompanham, a princípio, quatro hobbits, criaturas diminutas e alegres que têm uma aparência semelhante à dos anões, mas com algumas diferenças (como os pés peludos): os supracitados Frodo e Sam, além de Merry e Pippin. Depois de cruzarem caminho com um objeto poderoso conhecido como o Um Anel, eles são orientados pelo sábio mago Gandalf a levá-lo para longe do Condado, lugar onde mora, a fim de que se decida como destruí-lo antes que caia nas mãos erradas. Mas já sabemos que essa jornada não é tão simples como imaginamos e, eventualmente, Frodo e Sam unem forças para atravessar a Terra-Média, enfrentar o lorde das trevas Sauron e destruir o Anel.

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Resumir uma narrativa tão imponente quanto essa em um parágrafo é quase criminoso – visto que inúmeros detalhes importantes para o desenrolar da trama se perdem. Entretanto, é um início sucinto do que qualquer fã de obras de fantasia poderia esperar, carregando de um classicismo que transforma O Senhor dos Anéisem uma joia atemporal que merece ser absorvida em sua completude geração após geração.

Cada personagem é dotado de um arquétipo que nutre das análises de Campbell, desde o herói até o mais momentâneo dos coadjuvantes. Frodo, portador do Um Anel, é construído aos moldes de Ulisses e se vê compelido a cruzar o limiar de sua zona de conforto para os múltiplos caminhos que o esperam lá fora; guiado e fortalecido pela presença de Sam, braço-direito e, de fato, quem mantém Frodo forte o suficiente para terminar sua missão, ele percebe que o Condado é apenas um pedaço minúsculo da vastidão multiétnica que se espalha pelos quatro cantos da Terra-Média (algo que só experimentara com a presença de Gandalf, o velho sábio). O escape cômico muitas vezes é destilado da química entre Merry e Pippin, cuja ingenuidade é explorada de tal maneira a criar dois arcos muito bem estruturados e emocionantes de ascensão e queda, de otimismo e apatia. E, como se não bastasse, temos o pináculo da coragem e da bondade canalizada para guerreiros como Aragorn, Legolas e Gimli, e a expressão máxima da maldade e da ambição desmedida com o supracitado Sauron e seus asseclas, Saruman e o Rei Bruxo de Angmar (citando alguns).



À medida que a saga foi ganhando popularidade, inúmeros críticos citaram a falta de protagonistas mulheres, dizendo que a história se beneficiava de uma construção à la “clubinho dos homens” e que a ambientação em si era desfalcada no tocante a verossimilhanças com o mundo real. Entretanto, é notável como Tolkien cria várias comunidades diferentes entre si, cada qual com sua peculiaridade – e, mencionando algumas das personagens femininas, temos Galadriel, uma das maiores e mais poderosas elfas da Terra-Média que inclusive ajuda Gandalf em momentos de desespero; Arwen, filha de Elrond e Celebrían, uma híbrida elfa-humana que auxilia Aragorn e os outros guerreiros na batalha; e Éowyn, uma brava combatente que põe fim ao reinado de caos do Rei Bruxo de Angmar na Batalha dos Campos de Pelennor.

Vários dos arquétipos analisados serviram de inspiração para outros personagens que ficariam eternizados na cultura pop. A dinâmica entre Frodo e Gandalf, por exemplo, foi traduzida para o relacionamento entre Luke Skywalker e Obi-Wan Kenobi em ‘Star Wars’ ou então entre Harry e Alvo Dumbledore em ‘Harry Potter’. A própria figura do sábio sofreu diversas alterações com o passar do tempo, encontrando uma forma menos maniqueísta e mais falha com o Sr. Wednesday em ‘Deuses Americanos’, ou numa base mais solene como vista com Moiraine Damodred em ‘A Roda do Tempo’. A figura do companheiro inseparável e insuperável se transmutou em Rony e Hermione, C-3PO e R2-D2 e, de uma forma mais óbvia, nos companions do Doutor na clássica série ‘Doctor Who’. A força feminina foi explorada ad nauseam nas décadas subsequentes, permitindo que Arya Stark, Daenerys Targaryen e Cersei Lannister remassem contra a maré tradicionalista do gênero em questão e roubassem os holofotes em ‘Game of Thrones’. E isso sem falar da inspiração que Tolkien exerceu para a criação do Alto Valiriano de Martin e para a ascensão de incontáveis línguas-fantasia na contemporaneidade.

Se Tolkien deixou uma vastidão de elementos a serem utilizados e reaproveitados, Jackson honraria com louvor a Terra-Média ao levar O Senhor dos Anéis para os cinemas em uma trilogia surpreendentemente irretocável e que também marcou época. Lançados entre 2001 e 2003, os longas-metragens se tornaram um sucesso financeiro e crítico, conquistando, ao todo, dezoito estatuetas do Oscar e denunciando o conservadorismo da Academia em não reconhecer a grandiosidade de produções fantástica. Afinal, em 94 anos de cerimônia, apenas ‘O Retorno do Rei’, último filme da franquia original, foi condecorado com o prêmio de Melhor Filme e, desde então, nenhum outro realizou o mesmo feito.

Entretanto, deve-se notar que a surpreendente vitória de ‘O Retorno do Rei’ (talvez não tão surpreendente assim) abriu portas para que a fantasia fosse tratada com mais carinho por especialistas, motivo pelo qual tivemos a presença do drama fantástico ‘O Curioso Caso de Benjamin Button’ indicado à categoria mencionada acima e a vitória da fantasia romântica ‘A Forma da Água’ em 2017 (cujas controvérsias acerca do gênero a que ela pertence ainda são fruto de discussão). Mas, para além disso, o maior legado deixado pelas adaptações fílmicas foi a capacidade de Jackson em transformar o “inadaptável” em nada menos que três das maiores obras de todos os tempos.

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