Kylie Minogue lançou seu 15º álbum de estúdio no ano passado – e voltou de forma gloriosa às pistas de dança e às raízes que a colocaram no topo do mundo anos depois de sua incursão country-pop com Golden. Entretanto, nada disso seria possível se não fosse pelo lendário disco Fever, que completa vinte anos no dia de hoje, 01 de outubro.

Pensando em termos mercadológicos, a produção continua, mesmo tanto tempo depois, como o mais bem-sucedido de sua carreira. Estreando em terceiro lugar na Billboard 200, Fever vendeu mais de 6 milhões de cópias – e a sua faixa mais famosa, “Can’t Get You Out of My Head”, alcançou o topo das paradas em mais de 40 países, além de ter vendido, também, 6 milhões de cópias e se tornado uma de suas canções-assinatura.

Mas qual a importância do álbum?



Quando paramos para analisar a discografia de Kylie Minogue, é quase impossível não nos recordarmos de seu incrível début homônimo em 1988, que vinha como uma consecutiva resposta ao disco e ao nu-disco da década passada. Trazendo à vida o melhor do dance-pop e do bubblegum pop, a cantora e compositora já criava músicas memoráveis como “I Should Be So Lucky” e “The Loco-Motion” – mas a investida era encarada como forçada e afetada por alguns críticos da época, que encaravam-na como um produto formulaico de uma indústria que falhava em se reinventar. Felizmente, Minogue provou o contrário, com seu lançamento de 2001 emergindo como ápice de um amadurecimento invejável e de um impacto que ultrapassaria as barreiras do espaço-tempo.

Duas décadas mais tarde, Fever continua tão original quanto quando estreou: ao longo de breves doze faixas, Kylie demonstrou um apreço pelo minimalismo estético e pela coesão sonora, marcado pelas batidas envolventes e eletrônicas que refletiam sua entrada no “mundo moderno” e no novo milênio – fazendo um barulho considerável que estendeu seus ramos para inúmeros discos futuros, incluindo o elogiado Confessions on a Dance Floor, de Madonna, em 2005; o aguardado comeback de Britney Spears em 2007, Blackout; a estreia de Paris Hilton no escopo fonográfico com sua obra homônimo, em 2006; e até mesmo com a mistura explosiva do synth-pop e do electro-pop de The Fame, de Lady Gaga. Enquanto alguns historiadores insistem em reafirmar que não há como estudar a relação de causa-consequência entre um e outro, ouso discordar e dizer que quaisquer referências não são mera coincidência (ora, as similaridades entre “Can’t Get You Out of My Head” e “How High” aparecem logo nos primeiros toques).

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De qualquer forma, é possível destrinchar o alto número de artistas que Minogue influenciou com suas inflexões inclinadas para o groove-pop e para o electro-pop – mas isso pode ser explorado em um artigo único. Aqui, é preciso focar em como o CD auxiliou na contínua reinvenção da imagem pública da performer e na consolidação de seu lugar na história da música pop, como bem apontou Chris True na biografia que assinou sobre a cantora. Como se não bastasse, nota-se que o supracitado amadurecimento se estendeu para a composição de algumas tracks, como a vibrante “Love at First Sight” e a subestimada “Give It to Me”, que perdeu o momentum de se tornar um single de enorme sucesso. Em retrospecto, podemos encarar essa tomada de controle como prenúncio da pessoalidade que imprimiria em Golden e em Disco.



Fever introduziu Kylie aos Estados Unidos depois de um sólido reinado na Austrália e no Reino Unido – e foi guiado por nomes de peso por trás das belíssimas canções, como Tommy D, Richard “Biff” Stannard e Cathy Dennis (esta chamada novamente para trabalhar com Minogue em Body Language. Em meio à exuberante tracklist, podemos apontar vários ápices que despontam consistentemente por 45 minutos de pura euforia: a faixa-título é a epítome de uma sutil elegância que resume todas as mensagens que ela deseja nos entregar; “In Your Eyes” é uma frenética e dinâmica construção que fala sobre tensão sexual e sobre o desejo de uma pessoa pela outra; a vencedora do Grammy “Come Into My World” se delineia em uma sexy rendição dance-pop, fechando com chave de ouro uma jornada que celebra o amor e a vida como o quarto e último single.

Há algumas incursões que podem ter passado longe do radar mainstream, mas que merecem atenção do público apaixonado pelos anos 2000 e, absolutamente, pelos fãs da artista – incluindo “More More More”, que dá início à obra, e a burlesca semi-balada “Fragile”, que faz ótimo uso do baixo e dos sintetizadores para talhar uma densa atmosfera. Além disso, podemos enxergar a influência do álbum dentro da própria carreira de Minogue: assim como em 2001, ela apostaria todas as fichas em um ressurgimento quase fabulesco com Aphrodite, quase uma década mais tarde, em que reintroduziria a si mesmo como uma mulher ainda mais ciente de si e das escolhas que faria para manter-se viva na memória dos ouvintes.

Fever sustenta a si mesmo como um dos melhores e mais importantes discos de todos os tempos – e um dos que marcaram o século XXI. Em meio a diversas escolhas certeiras e um sagaz objetivo que alcança sucesso desde os primeiros minutos, inúmeros artistas voltam-se para o CD em busca de inspirações (e encontram terreno fértil para vasculhar, desconstruir e reconstruir).

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