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Artigo | Quase duas décadas depois, ‘Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban’ ainda é o melhor filme da saga mágica

Quando Harry Potter chegou aos cinemas, causou uma comoção gigantesca nos fãs da saga literária assinada por J.K. Rowling, por trazer a vida de uma forma bastante competente um dos universos que se tornaria um marco na cultura pop mundial, abrindo as portas para que a nova geração de leitores e espectadores se envolvesse com o gênero da narrativa fantástica. Entretanto, é inegável dizer que, apesar da sólida apresentação, a crítica internacional teceu alguns comentários que iam de encontro ao sentimento do público, enaltecendo os efeitos visuais e a química do elenco protagonista e coadjuvante, mas comentando sobre uma certa inconsistência tonal que perduraria de ‘A Pedra Filosofal’ e ‘A Câmara Secreta’.

De fato, talvez a ideia por trás dos dois primeiros volumes da franquia fílmica tenha sido arquitetar um enredo simples e compreensível pelas crianças e pré-adolescentes que tinham o primeiro contato com o universo mágico: é compreensível, pois, que Chris Columbus tenha sido escalado para a cadeira de direção. Conhecido por seu trabalho em clássicos como ‘Esqueceram de Mim’, Columbus sempre teve um tato considerável para trabalhar com crianças – o que reiterava a importância de sua contratação para introduzir Harry (Daniel Radcliffe), Hermione (Emma Watson) e Rony (Rupert Grint) ao mundo, dando rosto aos personagens imortalizados no imaginário popular. Mas as coisas estariam prestes a mudar – e Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban’ representou a primeira drástica mudança para a saga cinematográfica.


No terceiro ano, Harry está pronto para retornar a Hogwarts, mas não pode imaginar os problemas que enfrentará quando chegar lá. Já nas primeiras cenas do filme, percebemos que o protagonista titular vem enfrentando a transição completa da infância para a adolescência, mergulhando em uma espécie de autorreflexão sobre seu lugar no mundo e sobre os traumas que vem enfrentando desde sua infância, em que o terrível Lorde Voldemort tirou a vida de seus pais e o deixou órfão. Não é surpresa que, por mais que seja obrigado a aturar o temperamento corrosivo de sua família adotiva, ele perceba que não é mais um garotinho; logo, é notável como a sequência em que Harry transforma Guida (Pam Ferris), irmã de Valter (Richard Griffiths), em um balão, depois de um acesso de raiva que lhe fornece um prospecto pontual sobre como os meses irão se discorrer.


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O ato inicial já demonstra uma predileção artística por algo que se afasta do maravilhamento pueril dos filmes anteriores. Em outras palavras, a admiração dourada de ‘Pedra Filosofal’ e a crescente maturidade esverdeada de ‘Câmara Secreta’ parecem finalmente culminar na melancolia da experimentação da vida adulta e do descontentamento com o mundo em ‘Prisioneiro de Azkaban’. A mistura entre amarelo e azul é uma representação simbólica significativa na transfiguração do que realmente significa crescer – e, no topo de tudo isso, temos a escalação de um dos diretores mais autênticos da contemporaneidade para comandar o enredo: Alfonso Cuarón.

Cuarón ganharia uma fama ainda maior depois de comandar o terceiro filme da saga Harry Potter, conquistando quatro estatuetas do Oscar por seu trabalho em ‘Roma’ e ‘Gravidade’. Entretanto, foi com o longa de 2004 que ele provou ter uma sagacidade invejável e admirável para blockbusters, imprimindo uma estética muito diferente tanto dos capítulos anteriores quanto dos seguintes. É claro que, ao contrário de outras incursões, esta aqui carrega uma importância no escopo mainstream e permite que seu nome caia em dezenas de milhões de pessoas apaixonadas pelo universo mágico – e, apesar das limitações impostas pelo estúdio e talvez por Rowling, ele conseguiu construir algo único, guiado por peculiaridades que explodem em um divisor de águas importante inclusive para o arco das personagens.

Desde sua conexão com o elenco até a condução das sequências, as coisas começam a trilhar um caminho que beira a fantasia mórbida: o terror enfrentado por nossos heróis mergulha de cabeça em crises existencialistas e um gostinho do suspense psicológico que desconstrói os maniqueísmos entre bondade e maldade, entre mocinhos em vilões, seja pelo prenúncio do “perigoso e brutal assassino” Sirius Black (Gary Oldman), seja pelo enfrentamento do próprio medo com a emergência angustiantes dos Dementadores – criaturas mortais que sugam a energia vital e a felicidade de suas vítimas e as transformam em seres apáticos e entorpecidos no próprio desespero. Obviamente, o arquétipo desses antagonistas parte de uma relação semiótica clara com a depressão, algo que Rowling enfrentou quando mais nova.

Todos os elementos trazidos do livro às telonas foram escolhidos com meticulosa ponderação para que nada transbordasse em excesso ou deixasse lacunas; dessa maneira, Cuarón deve esquadrinhar por possíveis brechas que o permitam desenvolver uma trama original dentro das restrições apresentadas, à medida que se mantém fiel à estrutura apresentada. Se Rowling havia conseguido transpor o que queria através dos escritos, o cineasta encontra sucesso em colocar essas sensações conflituosas através de enquadramentos ousados, planos-sequência e um equilíbrio gritante entre ação, drama e reviravoltas.

Indiscutivelmente, Harry é o centro das atenções e descobre que as coisas não são o que parecem – e o que lhe foi contado vai muito além da superfície. Para aqueles que não se recordam, Sirius é revelado como o padrinho de Harry e centro de uma enorme mentira em que foi culpado pela morte de Tiago e Lílian, além de ter se aliado com Voldemort. Porém, esse não é o caso: o verdadeiro culpado foi o covarde Pedro Pettigrew, que posava como o ratinho Perebas, de Rony, por doze anos. As personalidades de Sirius e Pedro prenunciam os trágicos acontecimentos futuros e mergulham em uma sinistra e agourenta atmosfera que é percebida em níveis dessemelhantes por cada um.

Todavia, o momento de maior contraste sentimental ocorre na impactante transição do segundo para o terceiro ato, em que Harry e Sirius conseguem se entender e conversam defronte a Hogwarts, em uma noite estrelada, e comentam sobre possíveis planos de morarem juntos, como uma família. Como bem sabemos, essa utópica ideia de encontrar um final feliz em meio a tantas tragédias nunca se concretiza (vide ‘A Ordem da Fênix’, em que Sirius é assassinado pela própria prima, Bellatrix Lestrange), o que, em retrospecto, deixa a cena muito mais tocante. Mais do que isso, o prenúncio de que Harry enfrentaria ainda mais perdas é refletido na escolha certeira de ângulos e de um filtro azulado que pincela a momentânea felicidade com um marasmo estranho e letárgico.

‘O Prisioneiro de Azkaban’ continua com louvor a levar a icônica saga mágica às telas e, diferente do que imaginamos, é destinado tanto para as crianças que acompanharam as aventuras predecessoras quanto para um público mais velho, que compreende as complexas nuances engendradas pelas dinâmicas entre família, amigos e o entendimento de que o mundo é bem mais difícil do que parece. E são esses os motivos que, quase duas décadas depois de seu lançamento oficial, validam o longa-metragem como a melhor entrada de Harry Potter.

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