Lady Gaga é, até hoje, um dos nomes mais importantes da música contemporânea. Desde sua estreia em 2008 com The Fame e o subsequente The Fame Monster’ – que mudaram o cenário fonográfico e ajudaram a artista a calcar o espetáculo como o conhecemos hoje -, a cantora e compositora nunca deixou de apoiar as causas das minorias sociais, principalmente da comunidade LGBTQIA+, dizendo que ela não estaria onde está se não fosse pela recepção quase unânime do público e daqueles que não conseguiam encontrar aceitação em meio a uma sociedade patriarcal e bastante conservadora.

Pouco tempo depois, aqueles que encaravam Gaga como uma “modinha passageira” perceberam que ela estava para ficar – algo que foi provado com o sucesso mundial de Born This Way. Em seu terceiro álbum de estúdio, a performer deixou bem claro que continuaria a se postar a favor dos que sofriam, utilizando o domínio do panorama mainstream para colocar em voga temas de necessária discussão, ainda mais em pleno século XXI. Mais do que isso, ela também transformaria a plataforma em um palco para demonstrar uma invejável versatilidade artística que não era vista com muita facilidade por suas conterrâneas, afastando-se do costumeiro EDM e synth-pop que ajudou a realavancar e apostando fichas desde o electro-rock até o house.

O lead single da produção reafirmou o que Gaga representava para seus fãs, os little monsters. Debutando em primeiro lugar em dezenas de charts mundiais e tornando-se não apenas uma das melhores músicas da época, mas do século, ela fez o que muitos tentavam fazer há décadas, mas sem precisar recorrer a metáforas e simbologias datadas; pelo contrário, Gaga arquitetou, com todas as palavras, um hino de empoderamento e de libertação para servir de mote aos excluídos e marginalizados – à medida que misturava o melhor do electropop à estética surrealista de Salvador Dalí e Francis Bacon para um memorável curta-metragem sobre a criação do mundo e como nada reside no “preto e branco”. Com isso, o primeiro capítulo de uma jornada de autodescobrimento ganhava vida – e alastraria seu legado até os dias de hoje.



Exatos dez anos mais tarde da estreia do álbum, Born This Way continua provando uma atemporalidade que é almejada por inúmeros nomes do entretenimento – e que poucos conseguem. Levando em consideração os múltiplos temas trazidos às faixas, incluindo uma desconstrução iconográfica dos tabus religiosos e das maniqueístas análises do bem e do mal, Gaga sofreu boicote por extremistas fanáticos que a encaravam como o “Anticristo” e uma “péssima influência” às gerações mais novas. Mas o que não podia ser previsto era o exato oposto: com “Judas”, uma das faixas mais controversas do álbum, Gaga fez um exame minucioso da tênue linha que separa o certo do errado (“Jesus é minha virtude, mas Judas é o demônio a quem me agarro”); em “Bloody Mary”, cuja melodia flerta com o trance e traz referências diversas à mitologia católica em uma exaltação do perdão (“quando você se for, ainda serei a Maria Sangrenta”).

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Alternando entre uma complexa e explosiva suavidade e uma homenagem aos ícones do rock, Gaga provou mais do que nunca que não se contentava em dar vida apenas a uma música que demonstrasse seu agradecimento àqueles que sempre a apoiaram. É nesse âmbito que surgem pequenas joias como “Bad Kids” e “Hair”, duas das faixas mais potentes da década passada que falam sobre individualidade e sobre a multiplicidade de diferenças que existem no planeta; “Government Hooker” e “Scheiβe”, carregadas de inflexões feministas, falam abertamente sobre sexo e sobre sensualidade através de melodias bastante sensuais e que representam uma resposta à objetificação a que as mulheres são submetidas pelos homens; “Americano”, uma das entradas mais subestimadas do álbum, se diverte com o estilo mariachi em uma crítica às políticas anti-imigração dos Estados Unidos e uma história de amor que ultrapassa barreiras linguísticas e culturais.

Enquanto a obra é alicerçada em uma ode ao respeito e à empatia, criando um universo que não dá espaço para preconceitos e julgamentos, ele é também uma forma de Gaga se reencontrar consigo mesma após diversas experiências traumáticas – que aparecem na evocativa e gloriosa “Marry the Night”, uma das melhores canções de sua carreira. A música, inclusive, ganhou uma nova dimensão nos últimos dias durante a série documental ‘The Me You Can’t See’, produzida por Oprah Winfrey e pelo Príncipe Harry, em que a vencedora do Oscar fala sobre os abusos sexuais que sofreu por parte de seu antigo produtor aos 19 anos; a romântica e elegíaca “Yoü and I”, que traz afeições pelo country-rock e viria a influenciar inúmeros artistas – como Idina Menzel e Haley Reinhart -, bem como a futura iteração Joanne, celebra a transmutação artística da performer em uma poética aventura pelas estradas da vida.



Para além do óbvio sucesso mercadológico (quase 13 milhões de cópias equivalentes comercializadas ao redor do mundo) e do aclame crítico, que considera, ano após ano, não apenas a magnum opus de Lady Gaga como também um dos melhores álbuns de todos os tempos, a produção é uma celebração da própria vida em todos os seus aspectos e vai para além da superficialidade de vendas: como nunca, Born This Way mostrou o que realmente significa causar um impacto humanitário no convulsionado cenário do entretenimento – e, dez anos mais tarde, continua mostrando uma importância transcendental.

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