Crítica | Boy Erased: Uma Verdade Anulada – A Juventude que abriu mão de sua liberdade

Crítica | Boy Erased: Uma Verdade Anulada – A Juventude que abriu mão de sua liberdade

Nota:


Recentemente, os filmes LGBTQI+ ganharam expressividade considerável na indústria cinematográfica – tanto que ‘Moonlight: Sob a Luz do Luar’, cuja temática adentra a comunidade em questão, até mesmo levou o Oscar de Melhor Filme em 2017. Apesar de serem bastante importantes para colocar em voga uma das minorias sociais, quebrando esterótipos datados dos anos 1980 e 1990 e oferecendo uma complexidade envolvente e crível a seus personagens, é costumeiro de tais narrativas focar nos obstáculos que esses indivíduos enfrentam em seu cotidiano, principalmente no preconceito que sofrem de outrem.

Boy Erased: Uma Verdade Anulada’ parte de uma premissa parecida, mas o diretor Joel Edgerton conta ao público uma história embebida em uma perspectiva interessante que tenta ao máximo se afastar dos convencionalismos de gênero. E mais que isso, ele se mostra um cineasta muito competente ao fazer bom uso das estéticas coming-of-age que foram abraçadas pelo cinema nas últimas décadas, procurando mergulhar cada uma das tramas em um belíssimo conto sobre superação e aceitação – isso sem nem ao menos citar seu incrível elenco.

Lucas Hedges retorna às telonas dois anos depois de estrelar Manchester À Beira-Mar‘ ao lado de Casey Affleck, mas agora encarnando o tímido e introspectivo Jared Eamons, o “garoto perfeito”, jogador do time de basquete de sua escola, um filho e amigo adorado por todos, cujo futuro parece estar escrito nas estrelas. Porém, esse seu lado enfrenta uma barreira interna que, ao contrário de outras obras, já nos é mostrado no primeiro ato: ao se assumir gay para seus pais – um deles pastor da igreja que frequentam -, ele aceita resignadamente entrar para um programa de “conversão de sexualidade”, condenando a si mesmo por ir contra os valores que sua família lhe passou durante todos esses anos.

A narrativa vai e volta no tempo, quebrando a cronologia ortodoxa dos dramas familiares e construindo-se com enfoque em um personagem apenas e como sua personalidade transgressora na verdade não é passível de ser condenada – nem por ele, nem por terceiros. A angústia interna, mostrada em quase todos os momentos, é apenas fruto de um odioso e infeliz acontecimento na universidade na qual Jared entra: ele é estuprado por seu colega de quarto,  e, inconscientemente, começa a internalizar a culpa por ter “dado abertura” para aquilo acontecer. Já aqui, Edgerton mostra sua perspicácia imagética ao não nos poupar detalhes e a cultivar um sentimento de fúria, tanto pelo menino que abusa dele, quanto pelo idiótico programa de salvação.

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O jovem rapaz é acompanhado por diversos outros gays e lésbicas, que, influenciados pela moral conservadora de seus respectivos núcleos familiares, se colocam como aberrações da natureza. É a partir daqui que todo o escopo ganha um ar melódico e dramático ao mesmo tempo: é aplaudível o modo como o diretor consegue canalizar um onirismo fabulesco para as construções cênicas ao mesmo tempo em que denuncia métodos praticamente medievais para tratar os jovens. O encarregado de convertê-los insurge na figura de Victor Sykes (Edgerton novamente), pastor de uma igreja Batista que torna-se um dos personagens mais odiados da obra.

Ele se sente como o arauto de Deus na Terra e mostra-se hipócrita o suficiente para se dizer seguidor da religião católica ou até mesmo dos preceitos bíblicos que defende com tanto esmero. É aqui que é-nos denunciado a interpretação desconexa desse livro milenar, lido ao bel-prazer daqueles que se consideram normais. E além dessas aulas, os jovens são submetidos a tratamentos de como se portar em público – ou seja, como homens devem se comportar e como mulheres devem se comportar, dentro dos respectivos valores tradicionalistas.

E é claro que Hedges não é o único a roubar a cena. Nicole KidmanRussell Crowe, dando vida a Nancy e Marshall Eamons respectivamente, entregam-se de corpo e alma a atuações memoráveis. Kidman volta a mostrar sua versatilidade em cena ao encarnar uma mãe que pode até não acreditar que seu filho seja homossexual, mas que nunca deixará que alguém o coloque para baixo. Ela é a representação dos pais que, eventualmente, abraçam seus filhos do jeito que são, contrariando até mesmo seu marido e a igreja que sempre frequentou com ferrenho fervor. Enquanto isso, Crowe mostra sua boa forma nas telas e adentra um arco de redenção emocionante, culminando em uma conclusão adorável e coesa.

Jared, em um final formulaico, porém, satisfatório dentro de suas limitações, aceita a si mesmo e percebe que não há nada de errado com isso. Ele até mesmo chega a enfrentar seu pai, entregando uma das falas que resume o filme: o menino, agora amadurecido e vivendo bem consigo mesmo, diz que adoraria voltar a ter um relacionamento com Marshall, mas se ele não conseguir respeitá-lo, ele não vê nenhum problema em seguir em frente sozinho. “Eu vou tentar”, seu pai responde, aos prantos.

Joel Edgerton comove, nos faz chorar de ódio, nos faz querer gritar para o mundo um grande “f***-se”. Mas ele faz tudo isso em um sutil conto que resgata um período trágico nas histórias dos LGBTQI+, e que na verdade é ambientada nos anos 2000. Em suma, Boy Erased disserta sobre uma juventude que perdeu a si mesma e que entregou sua liberdade em nome do que os outros diziam ser o “correto”. E o mais triste de tudo isso é que, em pleno 2019, tais atitudes continuam acontecendo.



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