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Crítica 2 | ‘Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio’ é um capítulo esquecível de uma franquia espetacular

Quando pensamos no gênero do terror ou do horror, somos transportados a meados do século XVIII, durante o qual a literatura gótica estava em seu auge. Nesse período, temas que variavam desde o desvendar da mitologia religiosa até a exploração do folclore local ganhavam o imaginário popular e serviram de base para a popularização de narrativas que fugiam do realismo cotidiano e abriam portas para o sobrenatural – e não é surpresa que, desde o surgimento da estética cinematográfica, tais investidas também chamassem a atenção dos realizadores.

Décadas depois – e um movimento quase constante de renovação e exaustão do terror -, James Wan, fanático por obras do tipo, nos entregou o primeiro capítulo do que viria a se tornar uma das franquias mais famosas da atualidade, Invocação do Mal. Trazendo às telonas uma versão dramatizada da vida e do legado de Ed e Lorraine Warren, conhecidos demonologistas que construíram uma carreira pautada no estudo de demônios, espíritos e possessões, a história apresentada poderia muito bem ser retirada das fórmulas de tantos filmes clássicos – com o diferencial de mergulhar de cabeça numa realidade ainda negada pelos céticos. O sucesso rendeu dois spin-offs (‘Annabelle’ ‘A Freira) e duas sequências, com o terceiro capítulo chegando ao público nos últimos dias.

Não podemos negar que as expectativas para ‘A Ordem do Demônio’, como ficou conhecido, estavam lá em cima, inclusive quando nos lembramos da perfeição artística dos filmes predecessores. Voltando-se para um dos casos mais assombrosos da carreira dos Warren, em que um jovem possuído cometeu um brutal assassinato, percebia-se uma mudança na atmosfera que premeditaria um futuro interessante à saga. No final das contas, a única coisa que consegue salvá-lo de ser um completo desastre é a química inegável e invejável da que Patrick Wilson e Vera Farmiga desfrutam como o casal titular, carregando um ritmo instável e um roteiro perdido que não faz jus ao que os fãs mereciam.

Dessa vez, Wan resolveu deixar a cadeira de direção para alguém familiar ao universo: Michael Chaves. O nome pode soar um pouco estranho, mas o diretor ganhou fama ainda em 2019 com o lançamento de A Maldição da Chorona, cujas tentativas de trazer o mínimo de originalidade não conseguiram ofuscar os múltiplos deslizes da produção. É claro que, por ter se tratado da estreia em longa-metragem, abocanhar um projeto de tamanho nível era arriscado – e os mesmos erros se alastram para Invocação do Mal. Desde uma penosa direção nada inspirada até emulações fracas de elementos cansativos, é complicado chegar ao final dessa “assombrosa” aventura sem ficar imaginando o que aconteceria se as peças se encaixassem com maior fluidez.

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A obra procura unir o melhor dos dois mundos em um único lugar e, por essa razão, deixa terreno fértil tanto para as inflexões românticas entre Ed e Lorraine quanto para os jumpscares e o enfrentamento do sobrenatural. Aqui, Arne (Ruiari O’Connor) é um jovem que vive com a família Glatzel e presencia o exorcismo do pequeno David (Julian Hilliard), salvando-o ao permitir que um maligno espírito tomasse o próprio corpo como receptáculo. Acreditando ter acabado com os augúrios de todos, ele percebe que cometeu um grande erro e, movido por um inconsciente psicótico, comete homicídio e é levado a julgamento, pedindo a ajuda dos Warren para ajudá-lo a se livrar da pena de morte.

A princípio, as tramas conseguem se intercalar de modo compreensivo, colocando Ed e Lorraine em uma missão investigativa para entender o que aconteceu. Ao perceberem que estão lidando com os poderes de uma bruxa, entendem que o caso não é nada parecido aos que já enfrentaram – e que o perigo está mais perto do que se imagina. Porém, à medida que as duas horas se desenrolam, nota-se que o fraco roteiro, assinado por David Leslie Johnson McGoldrick, não sabe em que direção seguir: profusamente tentando expandir o reino de caos instaurado pela bruxa, busca-se outros figurantes e coadjuvantes que, a princípio, devem aumentar a densidade narrativa – e que, numa indiferença pálida ao panorama criado, são descartáveis.

Nem mesmo a marca registrada do universo parece sucumbe a uma expiração que já demonstra o cansaço da franquia e a repetição obcecada de elementos. O plano-sequência é curto demais para ser aproveitado e não tem qualquer objetivo aparente; a cena de possessão final é ofuscada pelo embate pontual entre os Warren e a antagonista; e as resoluções rendem-se a um condenável deus ex machina que, de novo, não faz sentido algum. Em contrapartida, é merecido citar a competência da fotografia propositalmente chamativa arquitetada por Michael Burgess e a pungente trilha sonora de Joseph Bishara, mesmo tais aspectos não sendo o bastante para nos carregar até o fim.

‘A Ordem do Demônio’ é uma desequilibrada entrada a Invocação do Mal e, ainda que seja melhor que certos capítulos da saga, é tão apaixonado pelo que já foi entregue que se esquece de buscar uma identidade própria. Enquanto temáticas como família e amor foram trazidos em fusão ao terror e ao suspense nas investidas anteriores, o recente filme quer dizer tantas coisas que acaba não dizendo nada.

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