quarta-feira, fevereiro 21, 2024

Crítica | A Cor Púrpura: Blitz Bazawule entrega versão ESPERANÇOSA e doce de icônico clássico da literatura

Sob uma estética solar delicada e suave, as páginas escritas por Alice Walker começam a ganhar vida diante de nossos olhos, anunciando uma perspectiva bem diferente de uma das histórias mais dolorosas da literatura estrangeira. Ao som das vozes de Halle Bailey e Phylicia Pearl Mpasi, somos introduzidos a um universo de cores quentes e intensas, que brilham acima da escassez da zona rural do estado da Geórgia. Em meio a um cenário de chão batido e casas de madeira precárias, A Cor Púrpura de Blitz Bazawule se desabrocha em um tom mais leve – mas ainda assim regado por muita dor. Com as batidas do jazz e do soul ditando o ritmo dos dilemas de seus protagonistas, ele faz uma releitura teatral de um conto sobre abuso, perdas, abandono e solidão.

E embora a obscura carga dramática de Steven Spielberg em seu clássico de 1985 não esteja presente na mesma proporção, existe uma poderosa atmosfera ao longo das duas horas de filme que se revela em canções belíssimas, que flertam com o gospel e o cristianismo norte-americano. Apaixonante e encantador, o musical traz uma perspectiva mais otimista e pueril, pautada por epifanias românticas e sonhadoras de mulheres marcadas pelo sofrimento e pela anulação de suas identidades. Mantendo a essência que tornou o drama original um ícone cinematográfico atemporal, A Cor Púrpura é como estar diante de alguns dos mais belos musicais de todos os tempos.

Performático, bem dirigido e com uma fotografia plástica que nos remete ao cinema dos anos 50 – auge da MGM e de seus musicais -, o longa de Blitz reverencia o passado enquanto honra o presente, mais precisamente o musical da Broadway de Marsha Norman, no qual o filme é baseado. Conduzido por uma sensibilidade e sutileza que equilibram o sofrimento das protagonistas, a produção atravessa as décadas sempre se remetendo às raízes da black music, à medida em que retrata uma América que ainda respirava o mesmo e poluído ar da escravidão de outrora.

Inspirador, o longa sabe explorar bem o arco de suas protagonistas, criando um contraste entre cada uma delas, conforme as transforma em um amálgama de como era a vida da mulher negra no passado. Surpreendente em números musicais que espelham os momentos mais inebriantes de filmes como O Picolino (1935), A Roda da Fortuna (1953) e Cantando na Chuva (1952), a releitura atual é um baile visualmente encantador, que extrai a beleza e o talento de seu elenco, tão bem ajustado e compassado em cada nota, em cada cena dramática.

Mas quando música e drama se encontram de forma tão festiva, celebrativa e poderosa assim, fica um tanto difícil absorver toda a complexidade do texto original de Walker. Enquanto as canções lindamente compostas tentam exprimir sentimentos inexprimíveis, elas também acabam por abafar o poder do silêncio, do não dito, do não cantado. Isso pode afetar a experiência do público – principalmente daquele mais habituado com original de Spielberg. Mas ainda que algo se perca ao longo do caminho, as brilhantes performances estampadas ao longo de 2h20 de filme nos garantem a vivacidade e voracidade dessa história tão emblemática.

E é aqui que Taraji P. Henson, Fantasia Barrino, Danielle Brooks e Colman Domingo nos absorvem para dentro da tela, nos levando por essa jornada de altos e baixos com convicção e entusiasmo. Passeando em tela com fluidez, o quarteto protagonista domina facilmente seu tempo de tela, aproveitando cada instante do roteiro de Marcus Gardley para nos presentear com um catálogo multifacetado de dons artísticos que percorrem o canto, a dança e a dramaturgia. Emocionante em seu âmago e esperançoso em seu sensível e acalentador final, o musical ainda consegue ser mais do que um conto sobre duas irmãs separadas pelo tempo e pelas agruras da vida.

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Caminhando pelos anos de 1909, 1917, 1922 e 1940, a produção traz uma reflexão sobre a negritude americana ao longo do tempo. E entre preconceitos diversos e pressões socioculturais sufocantes, Bazawule faz de sua versão um harmônico cântico de fé e renovo. Com seus ângulos ousados e transições de cena precisas – que salientam uma montagem impecável -, o filme pode não ser insuperável como tantos outros do gênero e talvez viva eternamente sob a sombra de seu padrinho e produtor, Steven Spielberg. Mas como uma brisa suave e aconchegante em um dia quente, a colorida versão de A Cor Púrpura é uma evidência absurdamente clara da belíssima identidade autoral de seu diretor.

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