sexta-feira, junho 21, 2024

Crítica | A Hora da Estrela – Clássico da Literatura e do Cinema Retorna às Telonas em Primorosa Restauração

Um clássico é um clássico, diz o ditado popular. E uma obra de arte se torna um clássico devido à sua atemporalidade, à sua originalidade, à forma como mexe com o público, como passa sua mensagem de maneira a se tornar permanente no coração das pessoas. Nesse sentido é seguro afirmar que Clarice Lispector escreveu livros que são verdadeiros clássicos, pois atendem a todos estes quesitos. Não à toa ela anda tão em voga nos cinemas – nos últimos anos estrearam ‘A Paixão Segundo G.H.’ (2024) e ‘O Livro dos Prazeres’ (2021) – e retorna mais uma vez às telonas, dessa vez com o primeiro de todos: ‘A Hora da Estrela’, de 1985, que acaba de ser restaurado e volta ao circuito exibidor graças ao projeto Sessão Vitrine Petrobras, que encabeçou a empreitada.

A Hora da Estrela

Na trama, conhecemos Macabéa (Marcélia Cartaxo, que ganhou o Urso de Prata do Festival de Berlim em sua atuação neste filme), uma jovem nordestina de dezenove anos que trabalha como datilógrafa numa firma. Apesar de seu empenho, o dono Seu Pereira (Denoy de Oliveira) vive reclamando para o gerente Seu Raimundo (Umberto Magnani, que fez muitas novelas) da qualidade dos textos datilografados por ela. Mas Macabéa não se avexa, sempre de cabeça baixa, obedecendo ordens. Certo dia ela conhece um rapaz, Olímpico de Jesus (José Dumont, de ‘2 Filhos de Francisco’), e se apaixona por ele – enquanto ele vai se envolvendo com ela, mas bastante reticente. Quando Glória (Tamara Taxman, de ‘Detetives do Prédio Azul’) vai à cartomante Madame Cartola (Fernanda Montenegro, de ‘Central do Brasil’) para tentar arranjar marido, o destino de Macabéa fica traçado, mesmo sem a jovem saber disso.

Surpreendentemente, este ‘A Hora da Estrela’ é o primeiro trabalho de direção de Suzana Amaral, mas nem parece, tamanha a segurança que a realizadora passa em sua produção. As tomadas são precisas para favorecer o abismo que existe entre a insegurança da protagonista e o furor que está prestes a engoli-la numa São Paulo dos anos 1980 em seu ápice produtivo. A mesma câmera que foca os pés curvados e os sapatos simples de uma Macabéa em dúvida no passeio de metrô também é posicionada para alongar o curvilíneo corpo de Glória, distanciando ambas as colegas de trabalho.

A Hora da Estrela

Tudo é fascinante em sua simplicidade nesta protagonista, daí a genialidade de Clarice muito bem adaptado no roteiro da diretora com Alfredo Oroz. Macabéa quase pede perdão ao mundo por ter nascido. Tem vergonha de si, mas, ao mesmo tempo, tem sede de mundo e não hesita em perguntar. A jovialidade e o frescor da idade foram belamente incorporados por Marcélia Cartaxo como água prestes em entrar em ebulição: tudo é sensorial neste mundo que se abre à sua frente, mas, ao mesmo tempo, esse mundo não é para as Macabéas.

O trabalho de digitalização e restauração realmente impressionam. As cores estão super vivas e aumentam o contraste entre os personagens: Macabéa em tons sem vida, pasteis; Glória fulgurosa em muitas cores; as colegas de quarto mais festivas; Olímpio e os patrões em cores de escritório. Até o cachorro-quente se torna palpável nesta versão do filme. Um trabalho cuidadoso a uma obra merecida do cinema brasileiro, mostrando a atualidade de ‘A Hora da Estrela’ para os dias de hoje.

A Hora da Estrela

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