Crítica | A Real Pain: Jesse Eisenberg e Kieran Culkin nos embalam em catártica jornada sobre as perdas que vivemos pelo caminho

Filme assistido durante o Festival de Sundance 2024

Na imensidão do aeroporto John F. Kennedy, Kieran Culkin é a calmaria em meio à agitação frenética de passageiros indo e vindo. Em um silêncio quase desconfortável, sua presença toma toda a tela e parece ser feita de pensamentos não comunicáveis. Sua inércia física diante do intenso fluxo de pessoas caminha na contramão da essência do lugar onde se encontra. Tudo é barulhento ao seu redor, mas ele segue na mais plena quietude. E embora ainda não saibamos, é em sua mente que impera o caos. Dor, sofrimento, tristeza e luto se embolam em uma vida solitária. Fugaz, mas efêmera, colorida por fora, mas cheia de tons de cinza por dentro. E esse seu primeiro instante em tela é também seu último suspiro antes do início dos créditos finais. Mas o que faz de A Real Pain uma experiência tão única e fascinante não é nem como tudo termina ou tão pouco começa, mas sim o “entre” – a extensa janela que habita entre o silêncio do abrir e fechar das cortinas de um espetáculo.

Como seu título muito obviamente infere, A Real Pain é quase uma ode às dores da alma. E de tristeza em tristeza, Jesse Eisenberg nos convida a aprender a rir dos dissabores da vida adulta. Das terríveis perdas que sofremos ao longo do caminho e das sequelas que elas deixam em nós e dos momentos desconfortáveis que se transformam em pequenos respiros cômicos em um dia emocionalmente difícil. E de solidão para a solitude, o jovem e talentoso cineasta nos instiga a enxergar o luto por uma ótica diferente, mas sempre com seu toque de peculiaridade. E nessa história, dois primos da mesma faixa etária vivem momentos distintos e decidem fazer uma breve viagem juntos à Polônia, onde o álbum de memórias de sua família judaica ganha vida em um tour turístico cheio de reverência, pausas para fotos exageradas e momentos ardilosos de contemplação diante de Auschwitz.

E de maneira habilidosa e absolutamente sensível, Jesse retorna ao Festival de Sundance com seu segundo filme, moldado por uma identidade única e individual. Traduzindo para as telonas toda sua falta de tato social, ele faz de sua nova comédia dramática uma oportunidade valiosa de conversarmos sobre perdas e ganhos, escolhas e decisões que tomamos ao longo da vida. Em um retrato mais cru sobre a depressão a partir de um personagem que se esconde atrás do humor verborrágico, ele faz de seu roteiro uma jornada particular para o espectador, em que todos somos levados pelas mesmas oscilações de seu protagonista, ainda que cada qual viva essa experiência à sua própria maneira. E nessa vastidão narrativa onde pessoalidade, turismo europeu e questões familiares caminham em um mesmo compasso, somos surpreendidos por um filme lindamente escrito, astutamente dirigido e poderosamente estrelado.

Aqui, Culkin rouba a cena como um espetáculo à parte, um homem que insiste em não amadurecer, mas que ainda assim detém em si o poder de hipnotizar a todos com sua enérgica presença. E tal como seu personagem demanda, o premiado astro de Succession nos cativa com seu timing cômico categórico e sempre assertivo e se despe diante da audiência com a fragilidade de um neto orfão de avó – que se esconde por trás de sua tão bem articulada e bem humorada fachada. E quanto mais o conhecemos em tela, mais nos apaixonamos por seu talento nato, que aflora e desabrocha perante nossos olhos como se nada além dele fosse tão valioso a ponto de merecer nossa atenção. E no lado oposto, Eisenberg é o reverso de seu próprio protagonista. Constantemente desconfortável e pouco habilidoso diante das pessoas, ele é uma extensão de sua personalidade. E também pudera! Difícil seria imaginá-lo como nada menos que pitoresco em tela.

Elegantemente, Eisenberg ainda faz de seu mais novo filme uma reflexão sobre trauma intergeracional e sobre os diversos níveis e estágios de dor que enfrentamos. Intimista em sua abordagem, ele transforma o que seria uma viagem turística em uma catarse cômica e emocional, onde o passado de toda a comunidade judaica é revisitado a partir das experiências individuais de cada participante deste pequeno tour. E conforme somos agraciados com alguns dos pontos turísticos mais significativos da Polônia, assim também somos presenteados com uma inesperada aventura sobre família, saudade, perdão e recomeços. E embora alguns tentem reduzir A Real Pain a um “filme de Holocausto”, a verdade é que o ator e cineasta transcende o subgênero, abrindo mão de generalizações para falar sobre o sentimento de um homem diante da perda mais dolorosa de sua vida.

E entre risos e lágrimas, Jesse Eisenberg mostra ao mundo o quão necessário é seu talento para a indústria cinematográfica. Dono de uma sensibilidade absurda que só reitera sua valiosa escrita, ele sabe unir o humor e o drama com leveza e fluidez, trazendo harmonia em cada cena, a fim de que nenhum dos gêneros ofusque a beleza do outro. Abordando a comédia do cotidiano em situações típicas e atípicas, ele consegue a incrível façanha de nos fazer rir a partir do nada, a partir de um comentário aleatório ou de um segundo de desconforto entre os personagens. E com essa mesma delicadeza, ele faz de seu drama uma dor palpável, uma tristeza real e inevitável, um sentimento importante demais para ser ignorado. Nos embalando em uma dramédia onde a beleza se encontra nas entrelinhas do choro e do riso frouxo, A Real Pain é mais uma evidência de que Jesse é capaz de transformar o comum em extraordinário, contando uma boa história com a mesma eficácia apaixonante de figuras como Alexander Payne e Nancy Meyers.

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