sexta-feira, junho 21, 2024

Crítica | ‘Amigos Imaginários’ escorrega ao não definir bem seu público-alvo

Em cartaz nos cinemas, Amigos Imaginários é a nova aventura de John Krasinski na direção. Redescoberto pela geração atual de adultos como o Jim de The Office, Krasinski vem numa fase muito iluminada na carreira. Não apenas pela série que o consagrou ter ‘explodido’ novamente durante a pandemia, mas também pela sensação de que seu olhar artístico é extremamente palatável ao público. Ou seja, tudo que ele faz parece entregar tudo o que os espectadores sentiam falta. Não apenas pelo sucesso absurdo da franquia Um Lugar Silencioso, que ele comanda magistralmente, mas também por projetos menores, como o Some Good News, que era nada menos que um jornal que ele criou durante a pandemia para só mostrar notícias boas ou inspiradoras. Essa empreitada tão simples deu muito certo e acabou sendo comprada pela Paramount.

Amigos Imaginários

Quando se trabalha em um meio que depende prioritariamente da aprovação do público para conseguir novos trabalhos, essa habilidade do John é como ter um olho bom em meio a cegos. Porém, em Amigos Imaginários, Krasinski se perde um pouco na própria visão ao tentar contar uma história voltada para o público infantil, mas desenvolvendo a trama de uma forma que parece se comunicar mais com os adultos. Nessa mistura de elenco e direção adultas com personagens infantis e inocentes, o filme termina não agradando a nenhum dos dois públicos. É decepcionante constatar o bom potencial do longa e assistir a um filme que passeia entre boas ideias, mas não ao ponto de evitar que se torne uma produção muito chata.

E não é um chato unidimensional, focado exclusivamente no grave problema de ritmo que deixa a trama enfadonha. Ele é ‘chato’ em vários sentidos. Seja pela visão saudosista de querer viver um Estados Unidos dos anos 1950, pela opção de trazer um Ryan Reynolds no auge do timing cômico e forçá-lo a repetir as mesmas piadas por todo o filme, ou ainda por trazer uma protagonista típica das comédias de viagem – a pré-adolescente que se acha adulta – e não conseguir transformá-la em uma personagem divertida.

Amigos Imaginários

Para complicar ainda mais, o Blue (esse monstrão roxo que está sendo usado para promover o filme) é uma grande decepção. Principal estrela dos trailers, ele é utilizado de forma quase obrigatória no filme, dando a sensação de que o John não sabia como usar ele. Isso impede que ele seja querido pelo público, apesar do visual carismático. Miraram em um personagem amável, mas acertaram em um bichinho chato. As coisas pioram quando você descobre que ele foi interpretado pelo Steve Carell. A cabine foi dublada, então não deu para ouvir o trabalho de um dos atores mais geniais da comédia norte-americana. A versão brasileira é dublada pelo Murilo Benício, mas não se destaca tanto assim. Fica a impressão de que também não quiseram aproveitar o talento de brincar com a voz do ator e pediram para ele tentar replicar o tom do Steve, o que é uma das piores decisões na hora de trazer um star-talent.

Ainda assim, o problema mesmo é algo que transcende o elenco. É de direção mesmo. John Krasinski não decide se quer fazer um filme para o público infantil ou adulto. Suas escolhas remetem a produções que não serão reconhecidas pela molecada e refletem a visão nostálgica de um homem que está chegando aos 50 anos. E poderia funcionar se ele apostasse no Ryan Reynolds para ser seu protagonista, o que não acontece. Como a trama é conduzida por uma criança cheia de traumas no auge de seus 12 anos de idade, fica difícil de comprar a personagem, seja você adulto ou criança. Essa falta de definição de um público-alvo limita as opções para desenvolver a trama como comédia, como drama ou aventura. É um filme cheio de ‘quases’. Ele é quase uma comédia, quase um drama e quase uma aventura. O que reflete no ritmo vagaroso e muito propício a um cochilo, ainda mais no fresquinho de uma sala de cinema.

Amigos Imaginários

Alguns podem dizer que é esperar muito de um filme voltado para a molecada, mas há exemplos de filmes voltados para o público infantil que são plenamente capazes de agradar ao público adulto justamente porque a direção entende para onde quer ir. A fase de ouro inteira da Pixar foi construída por essa perspectiva, e vale ressaltar que a cena de abertura desse longa é Up – Altas Aventuras (2009) purinho. Em exemplos mais recentes, Detetive Pikachu (2019), também estrelado por Ryan Reynolds, é outro longa que aproveita essa pegada infantil bobinha para construir um universo lúdico e divertido que também se mostra atrativo aos adultos. É decepcionante, porque Amigos Imaginários despertava muita curiosidade e parecia ter tudo para ser um grande sucesso.

E para quem está indo ao cinema na expectativa de um tipo de live action de Mansão Foster Para Amigos Imaginários, já que a trama é essencialmente a mesma da animação do Cartoon Network, talvez seja melhor colocar os pés no chão. Enquanto o desenho era focado no comédia e abraçava o humor sem noção para engrandecer seus personagens carismáticos, o filme não chega a ter o humor como guia e os outros amigos imaginários que aparecem ou não ganham tanto tempo de tela ou apenas não são tão carismáticos assim.

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Amigos Imaginários

Enfim, se fosse para descrever Amigos Imaginários em uma palavra, seria ‘decepcionante’. E pesa escrever isso, porque a expectativa para esse filme era muito boa. Os trabalhos de John Krasinski na direção são muito bons, o elenco dispensava apresentações… Mas não deu certo. Talvez a molecada abaixo dos dez anos ainda se encante com as cores do longa, mas no geral é um longa que não dialoga nem com as crianças e nem com os adultos.

Amigos Imaginários está em cartaz nos cinemas.

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Pedro Sobreirohttp://cinepop.com.br/
Jornalista apaixonado por entretenimento, com passagens por sites, revistas e emissoras como repórter, crítico e produtor.

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