sábado, março 2, 2024

Crítica | ‘Avatar: O Caminho da Água’ é mais um POTENTE espetáculo de James Cameron

Cuidado: possíveis spoilers da trama abaixo.

É possível contar nos dedos quantas pessoas nunca ouviram falar de ‘Avatar’. O longa-metragem comandado por James Cameron quebrou inúmeros recordes de bilheteria, carregou o título de produção mais bem-sucedido da história e revolucionou o modo de se ver o cinema. Qual foi nossa surpresa quando Cameron anunciou não apenas uma, mas quatro sequências, construindo uma franquia multibilionária que expandiria o incrível universo de Pandora. Agora, estamos prestes a nos maravilhar com o segundo capítulo da saga, ‘Avatar: O Caminho da Água’.

A história se passa mais de uma década depois dos eventos originais, em que os Na’vi, com a ajuda do ex-soldado Jake Sully (Sam Worthington), derrotaram o Povo do Céu (ou seja, os humanos), salvando a fauna, a flora e as múltiplas culturas de Pandora. Agora, as coisas ganham um peso ainda maior, porque a luta não acabou e os principais antagonistas estão de volta com suas ambições desmedidas e seu apreço pelo dinheiro. É claro que a história não parece muito diferente de tantas similares que vemos nos cinemas e na televisão – mas o resultado é muito além do esperado e não apenas honra o legado deixado pelo capítulo anterior, como o supera em diversos momentos, inclusive na delineação do enredo. Eventualmente, a produção se consagra como mais um impecável acerto de Cameron e de seu competente time criativo, nos relembrando do motivo pelo qual adoramos a sétima arte.

Tendo abandonado seu corpo original e se transformando em um Na’vi, Jake forma uma família ao lado da guerreira Neytiri (Zoë Saldaña), crente de que poderá viver em paz depois de protagonizar uma batalha sangrenta e violenta. Mas o que é bom dura pouco e Jake se vê de volta ao campo de guerra com sua esposa e diversos outros aliados para impedir a exploração humana e garantir a soberania do povo local em relação à Pandora. O que eles não esperavam era o retorno do vilanesco e mortal Coronel Miles Quaritch (Stephen Lang): apesar de ter sido morto no capítulo anterior, Miles antecipara uma possível tragédia e criara um clone dele e de seus asseclas na forma de Na’vi, permitindo-os viver como nativos naquele mundo perigoso e dar início a um plano de vingança para destruir Jake e todos os que o enfrentaram. A diferença é que essa versão do Coronel funciona como um clone, provido das mesmas memórias, mas infundido em uma sociopatia cega que o impede de enxergar para além do próprio nariz.

Jake teme que seu povo seja dizimado caso continue vivendo nas florestas e, depois de muito refletir, resolve viajar com Neytiri e os filhos para o longínquo clã dos Metkayina, o povo da água liderado por Tonowari (Cliff Curtis) e Ronal (Kate Winslet). Eles são recebidos com certo receio e desprezo, por não terem as configurações corporais que os permite nadar rápido e se conectar com as criaturas marinhas – e por estarem envolvidos em uma intrincada trama que pode custar a vida de inocentes. Conforme eles se adaptam à nova realidade, mais alianças são formadas, prenunciando o enfrentamento de Jake e Miles e, novamente, dos humanos contra os Na’vi.

Cameron havia anunciado que o longa teria nada menos que três horas e dez minutos de duração – maior que o capítulo de estreia. Dessa forma, ele tem tempo o suficiente para reapresentar Pandora ao público e mostrar que a mitologia desse universo explosivo e vibrante ainda tem muito a oferecer. As sequências debaixo d’água são de tirar o fôlego, pinceladas com cores conflitantes e uma atenção aplaudível aos detalhes, desde o movimento dos animais à expressão facial de cada personagem. Como se não bastasse, o diretor de fotografia Russell Carpenter trabalha com paixão em cada enquadramento, brincando entre a espetacularização imagética dos cenários e a íntima jornada heroica dos protagonistas e coadjuvantes – se em 2009 eles já tinham entregado significativa contribuição à indústria cinematográfica, isso não seria diferente com ‘O Caminho da Água’, lapidando inclusive os breves erros do passado para um realismo tocante e antêmico.

Talvez o único problema da produção seja os breves deslizes de roteiro, consequência do longo tempo de duração. Cameron quer reavivar suas habilidades fílmicas e, por vezes, passa tempo demais exibindo os cenários, quase tangenciando um aspecto panfletário – o que se tornar cansativo quando chegamos no terceiro ato, mesmo que as horas passem em um piscar de olhos. Todavia, a história consegue ofuscar os equívocos, apostando fichas em temáticas importantes e que se afastam dos convencionalismos do filme de 2009: antes, lidávamos com a iminência catastrófica de um conflito ecológico e genocida; agora, tais incursões continuam a aparecer, mas como apoio para a importância da família, a naturalidade do medo e um conflito intergeracional que escala para níveis estratosféricos.

Não deixe de assistir:

Tais questões são de importância ímpar para o desenrolar da trama. Não é apenas Jake e Neytiri que roubam a atenção dos espectadores, mas também Lo’ak (Britain Dalton), o segundo filho do casal que é constantemente alvo das críticas do pai. Ele vive à sombra do irmão, Neteyam (Jamie Flatters), que é visto como o “filho perfeito”, e se enxerga como um pária, tentando a todo custo provar seu valor, por mais perigoso que isso seja. Como se não bastasse, o núcleo enfrenta as mazelas de uma espécie de xenofobia, forçados a deixar seu lar e aprender a conviver com quem os deprecia. Kiri (Sigourney Weaver), filha adotiva do casal, é peça fundamental para compreender a complexa engrenagem de Pandora e a intrínseca relação entre os Na’vi e o ecossistema que os cercam.

‘Avatar: O Caminho da Água’ não é apenas um espetáculo majestoso, mas uma carta de amor de Cameron à arte que sempre honrou. Ele aproveita a plataforma que tem para fazer diversas homenagens à clássicos do cinema, incluindo títulos que ele mesmo comandou – como ‘Titanic’ e ‘O Exterminador do Futuro’, seja na composição cênica, seja no impressionante maquinário que ganha vida nas telas. No final das contas, lidamos com mais uma obra-prima de um dos maiores diretores de todos os tempos – e uma história que nos arranca lágrimas e nos faz ansiar por mais.

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Thiago Nollahttps://www.editoraviseu.com.br/a-pedra-negra-prod.html
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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