Que Beyoncé sabe como causar um impacto, isso não é novidade para ninguém. Mas em 2013, a icônica performer promoveria uma grande revolução no cenário fonográfico com a divulgação de seu quinto álbum de estúdio, ‘BEYONCÉ’ – pelo simples motivo de não ter tido anúncio prévio ou qualquer material promocional que indicasse que a cantora e compositora estava trabalhando em mais um compilado musical. Além de ter influenciado inúmeros artistas com o lançamento surpresa, o disco também promoveu uma mudança considerável na indústria, sendo responsável por mudar o dia de estreias de álbuns para a sexta-feira (como notado por diversos estudiosos e especialistas). E, tais aspectos à parte, a obra é impecável do começo ao fim e retoma a estética testamentária e conceitual que ela já vinha explorando nos últimos anos.

Se os álbuns iniciais de Beyoncé tinham um elo mais forte com as tendências do escopo mainstream – fossem infundidos com R&B, pop ou rap -, esta obra-prima musical se afastaria dos convencionalismos em prol de uma abordagem mais conceitual e que reiterasse, novamente, uma habilidade incrível de reinvenção e repaginação. Mesmo que estejamos analisando a versão padrão do álbum, a sólida jornada sinestésica e multimidiática promovida pela cantora é de tirar o fôlego e é redescoberta em camadas e mais camadas de profundidade toda vez que a ouvimos e canalizamos nossa atenção para um aspecto em particular. Entretanto, o que se exalta em foco principal é a explosão de incursões inesperadas que regem cada canção, movendo-se graciosamente por instrumentos contrastantes e um time de produção que demonstra estar sempre atento aos mínimos detalhes.

Nos anos anteriores a seu quinto álbum de estúdio, a performer parecia estar mais restrita ao que as pulsões mercadológicas falavam – isto é, acerca de como ela deveria se portar dentro das canções e dos versos para alcançar sucesso. Foi a partir de 4 que ela percebeu que, uma vez imortalizada no show business, era possível desvencilhar-se do que os outros falavam e fazer o que bem entendesse: ‘BEYONCÉ’, dessa maneira, é um antro de hinos de independência que exaltam o empoderamento, o feminismo e sua posição dentro de um espaço que lutou para conquistar. Não é surpresa, pois, que encontremos inflexões bastante diferentes, que usam e abusam dos estilos a que estava acostumada, mas enfeitados com construções conceituais que delineiam uma afeição ao art pop, ao synth, ao neo-disco, ao electro-funk (subgêneros que vinham ganhando força através de nomes mais contemporâneos).


A jornada experimental tem início com uma das faixas mais conhecidas da carreira da nossa Queen B, “Pretty Hurts”. Auxiliada pela produção concisa e explosiva de Ammo, a power-ballad resgata a predileção de Beyoncé pelas narrativas antêmicas e por uma crítica social pungente e necessária – arquitetando uma análise da cultura da beleza e de que forma isso impacta principalmente as mulheres (“perfeição é a doença de uma nação” e “é a alma que precisa de cirurgia” são dos dois versos que resumem as mensagens que quer transmitir aos ouvintes); em uma sequência contraposta, somos apresentados a uma das várias joias do compilado, “Haunted”, uma envolvente e empolgante amálgama de R&B e trip-hop que drena inspiração de uma visão mais marxista do próprio trabalho (“todas essas pessoas no planeta trabalhando das 9 às 5 só para sobreviverem”).

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O compilado é dotado de inúmeras tracks que exalam originalidade e uma confiança performática de tirar o fôlego – por incrível que pareça, ainda maiores que faixas mais antigas. Uma das melhores (se bem que é difícil encontrar algum defeito dentro do disco) é a icônica e memorável “Partition”. O enredo da canção traz diversas interpolações exímias, incluindo uma referência surpreendente ao escândalo envolvendo o ex-presidente Bill Clinton e a ex-secretária Monica Lewinsky, e discorre sobre um casal tendo relações sexuais em uma limusine – com os versos engolfados em um impecável electro-R&B. “Flawless”, por sua vez, Beyoncé se inspira na filósofa e acadêmica Chimamanda Ngozi Adichie para refletir sobre o papel da mulher na sociedade em uma expressividade feminista guiada pelo trap.

As parcerias da artista também funcionam com mágica encantadora: temos a espécie de sequência de “Crazy in Love”, “Drunk in Love”, performada ao lado do marido, Jay-Z, e aproveitando para recuperar as incursões orientais do pop árabe, fundindo-o com a dissonância dos pratos da bateria e do trap; “Mine”, cantada junto ao rapper Drake, começa como uma balada e transforma-se em uma narcótica rendição enfeitada com hip hop e elementos do Afrobeats; e “Superpower”, trazendo colaboração com o incrível Frank Ocean, é uma sutil doo-wop que parece nos transportar a outra dimensão – uma dimensão que prenuncia o fim dessa saudosa aventura. E, certamente, o álbum não poderia terminar de forma diferente senão com a cândida e emocionante “Blue”, em que a cantora traz a própria filha, Blue Ivy, para acompanhá-la nos vocais.


‘BEYONCÉ’ não é apenas um marco na carreira de sua artista epônima, mas também um marco no cenário fonográfico. A aclamação que recebeu e que continua recebendo não vem com nenhuma surpresa – tendo aparecido em múltiplas listas de melhores obras da década passada e do século. Aqui, Queen B mostra que ainda tem muito a contar para seus fãs e faz isso com maestria invejável e que reafirma sua importância infindável para a história da música.

Nota por faixa:

1. Pretty Hurts – 4,5/5
2. Haunted – 5/5
3. Drunk In Love, feat. Jay-Z – 5/5
4. Blow – 5/5
5. No Angel – 4/5
6. Partition – 5/5
7. Jealous – 5/5
8. Rocket – 4,5/5
9. Mine, feat. Drake – 5/5
10. XO – 4,5/5
11. Flawless, feat. Chimamanda Ngozi Adichie4,5/5
12. Superpower – 5/5
13. Heaven – 5/5
14. Blue, feat. Blue Ivy – 5/5

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